por Lino Bocchini
Trip #204

Assassinatos, espancamentos e suicídios são parte da rotina da comunidade LGBT jamaicana

Assassinatos, espancamentos, suicídios e humilhação pública fazem parte da rotina da comunidade LGBT da Jamaica – uma realidade homofóbica que contrasta com a imagem liberal do país

 

O “one love, one heart” cantado por Bob Marley não inclui seus conterrâneos homossexuais. “Let's get together and feel all right” então, nem pensar. A ilha já foi classificada pela revista Time, em reportagem de 2006, como “o lugar mais homofóbico do mundo”. Não é bem assim, em países como Uganda ou Arábia Saudita a situação é bem pior, mas a nação caribenha, que no senso comum é um lugar relax, tem uma realidade tenebrosa (para usar um adjetivo leve) em relação aos direitos básicos dos homossexuais. Trip esteve em Kingston e conversou com ativistas e homossexuais não militantes, e deixa que eles falem:

“Em 2009 um amigo gravou uma festa nossa em Ocho Rios [litoral norte da ilha], onde eu morava. Era uma festa normal, no vídeo [com três horas de duração] não tem nada de mais, o pessoal tá bebendo, dançando, se divertindo. Aparece só algum beijinho, e um ou outro homem vestido de mulher. Meses depois, em uma batida policial na casa desse amigo, a polícia apreendeu o VHS e vazou.” A gravação virou hit instantâneo nas barracas de camelôs do país todo, sob o título “gay tape”. “Seis amigos entre 16 e 25 anos foram assassinados após aparecerem no vídeo, e mais de dez tiveram que deixar a cidade para não serem mortos também.” O relato é de um dos protagonistas da fita, Dwight, um dos que deixaram a cidade – o rapaz de 21 anos escapou de algumas tentativas de assassinato e carrega algumas cicatrizes profundas de facadas. Há mais de um ano Dwight vive nas ruas da capital e faz parte de um grupo de “michês homeless” que trabalha na região de New Kingston, bairro central da capital onde ficam os melhores hotéis e o centro financeiro do país.

“Em maio agora 20 policiais entraram em um clube gay em Montego Bay [segunda maior cidade jamaicana] e espancaram todo mundo. Normalmente eles só desligam o som e acabam com a festa [clubes gays são proibidos, todos são clandestinos]. Mas dessa vez mais de dez pessoas foram parar no hospital por conta das agressões.” Quem conta é Daniel Lewis, porta-voz da J-Flag, maior entidade de defesa dos direitos da população LGBT da ilha. O cartão de Daniel não traz o endereço da entidade, que ele escreve à mão no verso. “É para evitar atentados. Ah, e quando for lá não dê o endereço exato pro taxista, e desça do carro um quarteirão antes ou depois.” A precaução se justifica. O último porta-voz da entidade foi encontrado morto em casa no começo deste ano, com o corpo em estado de decomposição. E outro membro do grupo já havia sido morto esfaqueado há cinco anos. Para evitar o mesmo destino, Daniel dá entrevistas para a imprensa local apenas por telefone e nunca se deixa fotografar ou filmar. “A situação dos gays na Jamaica é assim por vários motivos, mas um dos principais é a religião. Somos um país cristão, e a influência da Igreja é muito forte na política e na sociedade.” (Diferentemente do que alguns imaginam, o rastafarianismo é uma religião minoritária. E mesmo assim também é, digamos, pouco simpática aos homossexuais.)

Sexo gay é contra a lei 

A homossexualidade não é proibida na Jamaica. O que a lei proíbe é a sodomia – buggery –, ou seja, o ato sexual com penetração entre dois homens. Hoje há poucos cidadãos encarcerados pelo “crime”, que é de difícil confirmação e envolve até exames médicos. Mas num passado recente já foi bem pior. “Em 1996 eu estava com quatro amigos dentro do carro, durante o dia, na orla, conversando. A polícia chegou e levou todo mundo pra delegacia. Dali fomos encaminhados direto para a prisão”, conta o blogueiro Michael, que trabalha em uma empresa de seguros e ficou um mês preso por conta desse episódio. “Hoje em dia alguém ser preso assim não é mais tão comum, mas é feita uma confusão muito grande entre homossexualidade e pedofilia. E tem muito gay preso acusado de pedofilia, mas que na verdade não cometeu crime algum, e sim teve uma relação homossexual adulta e consentida. A sociedade tem medo que nós transformemos seu pobres garotos em 'battymans' [gíria local que significa algo como ´bicha´]”, conclui, irônico.

O próprio primeiro-ministro e os mais populares artistas da ilha estimulam a discriminação abertamente

O lesbianismo não é citado na legislação da ilha caribenha, mas isso não alivia muito. “Há muitos 'estupros correcionais', e a maioria de minhas amigas sofre de depressão forte, várias já tentaram se matar”, diz Stacy, dona de um um clube clandestino.

Lésbicas e gays disfarçam sua condição no dia a dia, já que todos concordam que o pior não é a lei, e sim a intolerância da sociedade. Relatos de agressão e assassinatos são assustadoramente frequentes. Quando um gay é “descoberto” em uma comunidade, especialmente as mais populares, a medida mais comum é a expulsão imediata. Uma das duas únicas travestis da ilha – nas contas de Daniel, da J-Flag –, Moyette Morgan resume a posição da maioria da comunidade LGBT: “Estou extremamente cansada. Não consigo dormir em paz uma noite, já tentei me matar cinco vezes... se pudesse, eu dormiria por duas semanas seguidas, não aguento mais”. Moyette, 34 anos, só não sai do país por falta de dinheiro. Gostaria de se mudar para um país “trans friendly” – e cita como exemplos Tailândia, Índia e Brasil.

Primeiro-ministro homofóbico

Nenhum dos entrevistados se mostrou muito otimista em relação ao futuro. A impressão é que a situação está tão enraizada por lá que dificilmente haverá uma mudança num futuro próximo. Boa parte dos artistas do mais popular dos ritmos locais, o dancehall, tem músicas que pregam o espancamento e até a morte de gays – é o caso do ganhador do Grammy Beenie Man. O próprio primeiro-ministro jamaicano, Bruce Golding, afirmou irritado em 2008, em entrevista à BBC, que “jamais chamaria um gay para seu gabinete” – procurada, a cônsul da Jamaica em São Paulo não atendeu aos pedidos de entrevista.

E há esperança? “Não sou muito otimista. Se eu tivesse uma varinha mágica, quem sabe...”, diz, entre melancólico e irônico, o porta-voz da J-Flag. Para Dwight, o michê sem-teto do vídeo que causou seis mortes, nem foi preciso perguntar. Ele passou boa parte da entrevista pedindo insistentemente ajuda a este repórter para conseguir asilo no Brasil.

 

 

 

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