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Olhos de fogo

?Um homem velho é alguém invisível. Um ex-presidiário é alguém irreparável?

Por Redação

em 8 de maio de 2006

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Não há certezas. Qualquer idéia sobre certo ou errado é, no mínimo, insensata. Principalmente em termos de comportamento humano. Mesmo a decantada maturidade pode significar apenas que somos capazes de reconhecer nossos erros quando os cometemos novamente. Nada garante nada. Estamos em um mundo de relatividade em que prevalece a luta pela sobrevivência para a maioria. Aqueles que escaparam a esse esforço são exceções e, como tal, não paga a pena raciocinar acerca.

Não sei se porque nossos interesses sempre foram mais importantes que nossos direitos, o fato é que envelhecer é doença grave em nosso país. Muito pior que engravidar. Um homem velho é alguém invisível. Um homem envelhecido, agravado pelo fato de haver sido ex-presidiário, é irreparável. Tenho-os visto nas praças, abandonados e apagados. De cabeça baixa, à mercê das “quentinhas” que lhes oferece a caridade pública.

Os albergues noturnos estão cheios de ex-presidiários. Estão ali aos pedaços. Barbudos, irreconhecíveis, seguem semibêbados, em passos trôpegos sabe-se lá para onde. Sangram desatinadamente, e talvez já nem sintam. Parece, vivem para ser machucados. Olhos de fogo de noites e manhãs não dormidas, despem, em murmúrios incompreensíveis, seus mistérios. Quem são? De onde vieram? Não têm quem os ame, estão matizado na cortina de chuva que corta a luz do poste.

Por um instante é possível pensar de onde extraem aquela capacidade toda de sofrer. Uma palavra viva entala gritos tortos, empalhados na garganta. Encolhem em silêncio, já que a voz é o vazio de sentir que não pode escapar à dor que lhes pertence.

Penso, deveria haver premiação para a capacidade de sofrer de cada ser humano. Aquele que houvesse sofrido mais deveria ser homenageado e reverenciado com a grandeza da generosidade humana. Acho que não deveriam importar nem as razões, apenas a capacidade humana de cada um agüentar a dor. Considero dor valor maior, digno do máximo respeito. Já que não nos ensinaram a vivenciá-la e cada qual desenvolve seus próprios métodos, méritos àqueles que criaram os melhores sistemas e suportaram mais.

Hoje fui surpreendido por um desses muitos choques que a vida nos oferta. Cardosão era malandro do mais alto conceito. Foi um dos primeiros assaltantes de banco no país. Sua quadrilha apavorou gerentes e funcionários dos bancos (não os donos, é claro) das grandes capitais, por alguns anos. Sua foto, seguida do “procura-se”, esteve em todos os aeroportos e rodoviárias do país por anos.

Quando eu era adolescente, ele era uma espécie de herói para mim. Quis ser como ele, assim famoso e respeitado até pela polícia. Não é preciso que se diga que meus valores eram completamente distorcidos, após infância e pré-adolescência preso no Juizado de Menores. Fui conhecê-lo pessoalmente na Penitenciária do Estado, anos depois, já na condição de companheiro de prisão. Era um homem grande, forte e com uma personalidade marcante. Líder natural, sua palavra sempre foi respeitada na prisão, tanto pelos presos como pelos guardas. Construíra sua identidade com a firmeza de suas atitudes.

Convivemos anos, a amizade crescia à medida que fui cavando o espaço em minha volta, já que o buraco em que fora colocado não me cabia. Tudo me faltava, buscava o inexprimível e vivia nebulosamente. Os livros me salvavam a imaginação. Por conseqüência, o coração e a razão se abriram, sugando como esponja o mundo ao redor, ultrapassando guardas, muralhas e grades. A vida, à qual sobrevivíamos, nos espremia, doendo segundo a segundo. Tudo parecia perdido, calor ardente e suor melado que esgotava em febre doentia.

Inauguramos penitenciárias, sobrevivemos a “trocentas” rebeliões, brigas, facadas, tiros, espancamentos e à desesperançada angústia que diluía tudo corrosivamente. Nos perdemos, um do outro, na caminhada de ferro a que a vida nos empurrava. Foram muitos os amigos perdidos. Alguns cuja presença foi essencial para que a lucidez fosse garantida, apesar da insanidade da condição humana.

Quando tudo parecia uma curva onde eu escorregava para o fim de mim mesmo, fui solto de surpresa. Hoje está fazendo exatamente dois anos. Andava pela cidade de São Paulo como faço sempre que tenho tempo, a esmo. Apenas observando os edifícios, carros, namorando as pessoas e olhando aquela que considero minha cidade com olhos de dono. De repente, identifiquei uma careca luzente ao longo da rua XV de Novembro. Ao me aproximar, percebi o narigão se destacando, no meio da rua. Era ele, sem dúvida, o Cardosão.

Caminhei até ele abrindo os espaços, já de braços abertos. Ao me ver, a surpresa, sorriu com os olhos e me abraçou. Senti sua fragilidade. Estava velhinho, arqueado e não parecia bem de saúde, percebi seus olhos marejados. Conversamos nos olhando, comparando o que éramos com o que estávamos sendo, avaliando. Ele estava com 67 anos, saíra da prisão havia cerca de um ano. Não tinha ninguém, seus familiares morreram todos enquanto cumpria penas elevadíssimas. Estava diabético e com problemas graves de coluna.

Convidei-o para que fossemos a um bar comemorar o encontro com uma cerveja, um chope. Não, não podia sair dali. Só então notei que ele tinha um banco por baixo de si. O que estava fazendo sentado naquele banco, no meio de uma das ruas mais movimentadas da cidade de São Paulo? Estranhei. Em um átimo de segundo procurei, com os olhos e todos os radares que a vida prisional me dotou. O choque foi de 220 volts, estremeci. Ele estava ali de segurança da loja, vigiando para ninguém roubar. Seus olhos caíram, a cabeça abaixou e pude sentir toda humilhação que sua condição lhe impunha. Doía nele aquilo e doeu em mim que ele fosse obrigado. Soube, instantaneamente, que estava em sua última alternativa de sobrevivência, atropelando décadas de moral prisional.

Aquele homem cheio de dignidade e orgulho que conheci fora reduzido àqueles escombros. Parecia, agora, quase se arrastar, súplice. Talvez fosse melhor não sobreviver, mas quem sou eu para saber? Minha presença agora o constrangia. Eu era mais um arame farpado que ele teria de passar pela garganta. Tentei disfarçar e saí andando com uma desculpa sobre compromisso inadiável.

Por que tem que ser assim? Por que temos que ser linchados até o fim? O trabalho do parceiro de sofrimento é mais do que digno. Nenhuma censura e que todos os méritos sejam dele por ter aquela coragem; é um guerreiro. Mas por que daquele jeito? Pergunto meio que sem jeito.

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