por Sergio Dávila
Trip #166

Como os norte-americanos vêm reagindo à nova realidade de uma moeda fraca depois da crise

 

por Sérgio Dávila*, de Washington

 

É como se o valentão da escola, loiro, de olhos azuis e querido por 11 em cada 10 menininhas, levasse um cacete daquele moleque inteligente, mas esquisitão, franzino e de pele transparente, a quem ninguém nunca deu muita bola. Nos últimos meses, o dólar vem levando surras periódicas do euro. Em 2002, você conseguia comprar um euro com 86 centavos de dólar; hoje, é necessário 1,6 das verdinhas para uma nota da moeda européia.

Se "zeitgeist" é o espírito de uma época, quem melhor traduziu o da atual em Wall Street foi um documentarista que parece um dos ZZ Top e um comerciante que se veste como um dos Blue Brothers do musical homônimo. No fim do ano passado, Clayton Patterson e Billy Leroy (os figuras da foto à esq.) jogavam conversa fora na loja de antiguidades do primeiro, um dos marcos underground de Nova York.

Fica ali no pedaço da Houston onde o Village, o East Village, o NoLIta e o Lower East Side se encontram, na área mais legal de Nova York. Patterson contava que voltou de uma viagem pela Europa e ficou abismado ao perceber como a moeda de seu país não valia mais nada. Os dois resolveram colocar uma placa de brincadeira na loja: "EURO's only", somente euros, com o "s" em minúscula provavelmente acrescentado depois, mais o símbolo da moeda.

Foi o suficiente para estourar um dique de sentimento que estava no ar, mas ninguém tinha captado. Logo, um comerciante de bebidas do Village ganhou fama ao avisar que preferia receber em euro. Então, noticiou-se que a übermodel Gisele Bündchen fazia o mesmo em seus contratos - embora depois disso pessoas ligadas a ela tenham negado, voltado atrás e negado de novo.

O fato é que, assim como a invasão do Iraque, os sucessivos golpes nas liberdades individuais e o aumento do sentimento antiamericano no mundo, a desvalorização do dólar será também uma das heranças perversas que oito anos de George W. Bush deixarão no país. Não só em relação ao euro: há poucas moedas no mundo que não tenham se valorizado diante do dólar recentemente.

 

Bush vs (dollar) bill

Incluído aí no pacote está o brasileiro real. Quando pensei em mudar-me para Nova York, em 1997, o dólar e o real estavam emparelhados. Quando finalmente me mudei, em 2000, comprei as verdinhas a R$ 1,8. No fim de 2002, com o frenesi que tomou Wall Street por conta da eleição de Lula, US$ 1 chegou a bater em R$ 4. Hoje, a cotação é menor do que a de dez anos atrás.

A curto prazo, uma moeda fraca melhora as exportações do país, pois deixa mais baratos os produtos que os Estados Unidos vendem para fora, o que ajuda na balança comercial. O problema é que, segundo várias correntes de economistas, com o passar do tempo a força de uma moeda acaba traduzindo a força de uma economia. E a economia norte-americana vai mal. Há um debate incessante sobre se já estamos ou não numa recessão - tecnicamente, o que só acontece quando há o crescimento negativo da economia por dois trimestres consecutivos -, mas é consenso de que o cenário é de crise.

Bush recebeu das mãos de Bill Clinton em 2001 uma economia pujante, com um superavit de US$ 230 bilhões e previsão superavitária de US$ 5,6 trilhões na década seguinte; hoje, o republicano entregará a seu sucessor (ou sucessora) um país com saldo negativo de meio trilhão de dólares e
US$ 2,3 trilhões no cumulativo previsto para os próximos dez anos. Por quê? A "crise do subprime", detonada por dinheiro empregado irresponsavelmente em financiamentos imobiliá­rios duvidosos, ajudou.

Mas muitos esquecem que duas guerras em andamento, do Iraque e do Afeganistão, são um ralo de dinheiro, que pode escoar até US$ 3 trilhões no total, segundo o Nobel de Economia Joseph Stiglitz. Era no que eu pensava recentemente quando comprava "travesseiros" em Sintra, nos arredores de Lisboa. Conhece o doce? Como todos em Portugal, são feitos com ovos moles e amêndoas, mas numa combinação e num formato inesquecíveis. Custam 1 euro cada. A vontade é de comer uma dezena.

O problema é a fatura do cartão de crédito. Aqui nos Estados Unidos, os quadradinhos de plástico funcionam como o limite do cheque especial no Brasil. Quanto melhor o crédito da pessoa, mais ofertas de cartão ela recebe dos bancos, com limites mais generosos. Esse é o dinheiro que o consumidor médio usa para emergências, extravagâncias ou para torrar mesmo. Os americanos devem hoje US$ 1 trilhão no cartão - ou US$ 9 mil por família.

Isso, aliado ao dólar fraco, os afasta dos travesseiros de Sintra - e da Europa em geral. O resultado é um isolamento maior de um povo isolado por natureza - e geografia. Já ouvi de americanos frases como "para que ir até Paris se você pode ver a Torre Eiffel em Las Vegas?", referindo-se à triste réplica do monumento francês que a cidade dos jogos tem. Americanos mais isolados são um problema mundial.

Quanto mais os 300 milhões de habitantes do país mais poderoso do mundo souberem do resto do planeta com quem dividem espaço, melhor para o resto do planeta. Parte do desastre que é a condução da Guerra do Iraque e da invasão daquele país advém dessa ignorância aplicada nos níveis mais altos do governo. Ou seja, o dólar fraco pode colocar um sorriso de satisfação e vingança em muitos rostos não americanos espalhados por aí - mas a longo prazo a surra no valentão pode ser pior para todos.

 

*O jornalista Sérgio Dávila é correspondente do jornal Folha de S.Paulo em Washington

 

 

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