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O SUICÍDIO DO SURFISTA

Por Redação

em 21 de setembro de 2005

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Dúzias de artigos, entrevistas e matérias vieram à luz nas últimas semanas dando conta da agonia serena que vive Timothy Leary, lutando como um Gracie contra o câncer que devora seu organismo. Na cama, quase inerte, a cabeça de Leary ainda consegue atrair e fazer pensar milhões de outras pelo planeta. A última do Doutor, como foi amplamente divulgado, é um fim apoteótico para sua existência tão intensa. T.L. pretende suicidar-se ao vivo, via internet, dando chance ao mundo de acompanhar seus últimos extertores. Outro ‘hype’ que atraiu a imprensa louca por algo que consiga despertar a massa lobotomica, foi o coquetel de drogas utilizadas por Leary para se manter vivo. O milk-shake incluiria cocaína, morfina e outros compostos.
Faltou porém alguém ir adiante. Um pouco além da surrada introdução ‘o mago da contra-cultura, um dos criadores do LSD’. O pensamento de Timothy Leary, que esteve há alguns anos no Brasil, é um espetáculo certamente bem menos efêmero que seu possível suicídio em rede. Sua capacidade de conectar pensamentos e sua técnica de Michael Jordan na arte da associação livre de idéias garantem ao doutor lugar confortável em qualquer galeria de seres pensantes deste século. Em 1978, Leary atendeu em sua casa a reportagem da revista norte-americana SURFER. A tentativa, já àquela altura, quase vinte anos atrás, era fazer algo que a imprensa deste esporte não consegue até hoje. Nem mesmo nos centros mais civilizados. Tentar refletir sobre o ato de se deslocar na superfície do mar. Tentar livrar o surf do cercado apertado de ignorância que teima em persegui-lo para isolá-lo da parte pensante do universo. Em vez de perguntar a Leary ‘como começou sua carreira?’ ou ‘qual a sua relação com o surf?’, o então repórter, hoje editor da revista SURFER’S JOURNAL, Steven Pezman, partiu para o ataque, provocando um Leary ainda cheio de vida. Quase duas décadas antes da palavra surf virar sinônimo de navegação indiscriminada pelos canais de informação, Leary já disparava o seguinte discurso, respondendo à pergunta de Pezman sobre o conceito de ‘surfista evolucionário’: ‘Tudo é feito de ondas. No nível dos elétrons e nêutrons… Ondas de história, ondas culturais. Quanto mais você pensa sobre o processo de evolução do ser humano, mais você chega à própria estrutura da natureza. É a teoria do quantum. As coisas vem embaladas em formas seqüenciais, cíclicas, móveis e sempre mutantes’.
Leary e Pezman concordaram sobre o fato de que o surfista começa a desenvolver um interessante senso de percepção das ondas e de outros fenômenos da natureza como chuvas, ventos e raios.
‘É claro que uma das coisas excepcionais sobre o surf é que você está lidando com os elementos mais básicos de todos. Há muito pouca tecnologia envolvida. Não há simbolismos. É o indivíduo lidando com as forças do oceano, que por sua vez, dependem do poder da lua, das marés, dos fluxos e deslocamentos das massas. Não é por acaso que muitos surfistas aproximam-se de alguma forma do misticismo. Fazem verdadeiras excursões neurológicas lidando com o infinito e as turbulências. Não só as do mar, mas as de seus próprios cérebros. Eles surfam na verdade, ondas cerebrais. Um jogo cerebral no mundo fluido.
Tenho feito muitas conferências e escolhi uma coisa como meu símbolo: o surf. Gostaria de ter um filme com um surfista no momento em que corta a parede de uma onda forte, se movendo constantemente, bem na boca do tubo. Essa posição para mim, é a metáfora da vida. Uma vida de conciência elevada. Você pensa no tubo como sendo o passado, o surfista como o agente da evolução, num ponto em que se dirige ao futuro mas tendo que manter contato com o passado pois é nele que consegue a força para ir adiante. A onda está quebrando atrás de você e você não pode perder a velocidade exata, senão…
Eu penso que os surfistas são pessoas avançadas. Surfar é sinal de evolução. As pessoas que o fazem tendem a ser saudáveis, o que é um dos maiores sinais de civilização, tendem a ser não violentas, amantes do prazer. Gente boa… viajando, vendo outras culturas, estabelecendo relações de boa qualidade além das fronteiras. Surfistas brincam com o pecado original, a coisa mais chata do mundo: a gravidade. Eles conseguem suspender por alguns segundos ou minutos a chatice da gravidade. Eles experimentam a liberdade pós-terra, pós-vida’.
Se Timothy Leary realmente se matar, ou se morrer naturalmente, pode certamente se considerar equipado com prancha certa, ‘wetsuit’ e toda base para surfar as ondas clássicas que encontrar. Na verdade, quem explorou os becos do próprio cérebro como ele, está pronto para a morte, só mais uma experiência sensorial. Leary poderá estar, daqui a 40 ou 60 anos no fundo de um armarinho escuro, numa rua qualquer do Ipiranga, reencarnado num velho, lendo um livro ensebado e se recusando a levantar para atender o único freguês do semestre ou pode voltar como o próximo Kelly Slater. É muito mais que uma onda.

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