por Totó

Escrevo essas linhas cabisbaixo e resignado pelas mortes dos remadores Everaldo Miranda 42 e Dienefer Loreto, de apenas 15 anos

O remo brasileiro está de luto. Escrevo essas linhas cabisbaixo, resignado e confesso, um pouco revoltado.

Cabisbaixo e resignado pelas mortes dos remadores Everaldo Miranda, 42 e Dienefer Loreto, de apenas 15 anos. E revoltado por tudo que tem ocorrido com o esporte e os esportes em geral no país da copa.

Um detalhe: ambas mortes aconteceram nos meus dois locais de treino em São Paulo. Raia da USP, na Cidade Univesitária, e Yatch Clube Paulista na represa de Guarapiranga. 

Cerca de 3 semanas atrás tive a oportunidade e o privilégio de conhecer a Dienefer na represa. Estava desembarcando o equipamento e começando a montar as pranchas de stand-up race no gramado do clube junto com a minha esposa Patricia quando fomos abordados de forma gentil e graciosa pela jovem atleta, curiosa e interessada nas pranchas, espalhafatosas, cheia de adesivos e numerais de competição que chamam atenção aonde quer que seja.

Ela se apresentou e comentou que estava curtindo remar SUP por pura diversão, mas que não entendia o porque da gente competir com um equipamento com tão baixo desempenho, em termos de velocidade, quando comparado ao caiaque. Velocidade da qual Diefener se destacava junto a categoria junior da Seleção brasileira. Ficamos trocando ideias sobre pranchas, conceitos e experiências de remada por uns 20 minutos, enquanto finalizava meu set-up. Minha vontade era ficar; parecia que a gente se conhecia fazia tempo. Dienefer era falante, e em poucos minutos dá pra criar afinidade com quem rema de verdade, a partir daí certa cumplicidade. Me despedi dela e sai para o treino com a Patricia.

Tinha certeza que a veria novamente, só que não: aquela foi a primeira e última.

No Havaí, os esportes oceânicos, especialmente a canoa polinésia, trazem consigo o conceito da Ohana, da famíla, de estar junto com quem se ama e poder dividir o oceano como uma dádiva. Esse é o real espírito da canoa, do SUP, enfim, dos esportes praticados no oceano em geral. Esse é o espirito que os verdadeiros remadores procuram disseminar no dia a dia. Seja na água doce, cristalina e mortífera de uma raia,  na represa ou no oceano. É assim que são recebidos aqueles que procuram diariamente pelos professores da Raia da USP em São Paulo interessados em mudar de vida. 

Pessoalmente, mesmo não dando aulas acabo sendo referência e procuro tratar a todos como amigos e irmãos. Segunda-feira um aluno recente que está se transformando em atleta me perguntou se eu realmente conseguia remar por uma hora naquela posição, inclinado pra frente, quase deitado. Disse que sim, que a minha técnica ruim me obrigava a remar daquela forma nas provas para obter melhor desempenho, e que ele não seguisse meu exemplo caso quisesse evoluir e manter a lombar nos trinques.

Recomendei que se orientasse com o professor Vinicius Sanches, um mestre da técnica e diariamente à disposição dos alunos. Vinicius e Luis Carlos Guida, o Animal, são os remadores de SUP mais técnicos que conheço. Ambos tem a técnica, o dom, e sabem ensinar.  Vivem disso. São extremamente sérios nos que fazem. 

Animal, o professor responsável pelo turno da fatalidade ocorrida com Everaldo, é tricampeão brasileiro de SUP RACE, invicto por mais de dois anos, entre outras inúmeras conquistas também é tetra-campeão brasileiro e vice campeão sul-americano de Canoa Havaiana,  um verdadeiro fenômeno do esporte.

Estava dando aulas pra se manter. Fosse num país mais sério no trato das políticas públicas e sociais no qual o esporte figura como componente fundamental, estaria sendo tratado a pão-de-ló,  focado em treinar, comer e descansar. Afinal, é o nosso número 1.

Não vim aqui minimizar os fatos, é claro que ambos assuntos merecem rigorosa investigação para determinação das razões e consequencias, inclusive como forma de auxilio no desenvolvimento de novos protolocos de segurança naútica.

Pessoalmente acho que o caso de Dienefer exige mais atenção, enquanto o caso de Everaldo leva a crer na fatalidade. Esse papel é das autoridades competentes e cabe a nós cobrar as respostas.

Agora, te perrrguuuunto (imitando a voz do apresentador que fatura na tragédia): algum veículo de mídia em geral por acaso parou algum dia na Raia da USP pra saber como, quase sem nenhum apoio, esse verdadeiro fenômeno conseguiu tantos títulos e um currículo desse porte?

Ou por acaso se interessou em explorar um pouco mais a história do Baiano, campeão mundial que ganhou um MCDonalds de recompensa? Ou a quantidade de senhores acima dos 60 anos que mudaram de vida a bordo de uma canoa havaiana? Ou dos nosssos atletas paraolímpicos que não cansam de enfileirar títulos e perrengues?

Porra nenhuma. O Brasileiro, da missa não sabe o terço.

No país da Copa a bolsa-atleta oferecida pelo Governo Federal está atrasada há cerca de um ano para grande parte dos remadores. Gente humilde, vivendo numa cidade como São Paulo, com mais de 20 mil reais pra receber e sobrevivendo à base dos sonhos. Puta que o pariu. Desculpa mas não tem como segurar o grito.

Esse grito também é o grito da perda. Da perda do Everaldo. Mais um cara do bem dentro d’agua que seguramente conheceríamos. Cedo ou tarde, não importa. Ali na Raia o amigo do amigo uma hora vai ser seu amigo. É um comportamento previsível,  se o aluno chega arrogante e cheio de si logo  se torna mais simples e humilde, entra no jogo ou sai. Se for apenas um pela-saco, acaba indo embora, naturalmente. Questão de afinidade. Simples assim.

Aí vem o bonde da mídia carniça, tragédia vende notícia, rende emprego, enriquece.

E num dos eventos mais legais do ano passado, o campeonato brasileiro de canoagem velocidade que reuniu mais de 200 atletas e delegações do Oiapoque ao Chuí – literalmente -, num dos eventos de diversidade cultural mais rico que já presenciei, ali mesmo na Raia da USP,  apareceu apenas um canal cobrindo (SportTV, diga-se de pasagem, que fez um trabalho exemplar com as transmissões ao vivo). 

O canal do apresentador-vendedor-de- tragédias poderia ter aparecido nesse mesmo dia, perdeu uma ótima  pauta, de explorar a tragédia do atraso do bolsa-atleta no país que constrói estádios.

O povo, da missa não sabe o terço.

E sem sequer saber a causa mortis do Everaldo, grita nas redes sociais,  estabelecendo tese comum a sepultar mais uma questão: 'faltou segurança, colete no SUP tem que ser traje obrigatório'.

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