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por Fernando Gueiros
Trip #225

Por que um dos surfistas de ondas grandes mais respeitados do mundo não tem o reconhecimento que merece?

Caçar ondas gigantes e enfrentar o mar em todas as suas formas não é sonho, e sim cotidiano para Edílson Assunção, o Alemão de Maresias. Mas por que um dos mais habilidosos watermen do planeta não recebe o reconhecimento à altura de seus feitos e dos depoimentos entusiasmados de gente como Carlos Burle, Pedro Scooby e Taiu?

Suas pupilas estão dilatadas. Ele acaba de sair do mar e seus olhos continuam mirando as ondas que quebram com força, na casa dos 2,5 metros, em Maresias, litoral norte de São Paulo. “Fui numa que o tubo rodou e deu uma baforada: pshhh! Saí com os lábios e as orelhas doendo, queimando”, conta, sobre uma das ondas que pegou na sessão de tow-in.

Assim começa a segunda-feira de Edílson Assunção, 44 anos, vulgo Alemão de Maresias. Costuma acordar bem cedo, perto das 7 horas, e divide seu tempo entre o mar, sua casa e sua “base”, uma pequena marina onde deixa o jet ski, algumas pranchas e seu bote. Não tem carro – no dia a dia usa uma bicicleta – e, se o dia tem onda, fica na água praticamente o tempo inteiro. Em sua última expedição, por exemplo, para Punta Docas, no Chile, onde puxou Carlos Burle e Rodrigo Koxa em ondas que podem ser as maiores já surfadas na história (o veredicto da XXL, o óscar das ondas gigantes, sai só no ano que vem), Alemão passou de 6 a 7 horas por dia na água congelante. “Ele é um homem do mar”, define Burle. “É um cara preparado como poucos no mundo: rema, surfa, conhece vários equipamentos eé determinado.”

A “base” de Alemão fica em frente à pracinha de Maresias, a poucos passos da praia. Já sua casa fica a cerca de 1,5 quilômetro do mar, no pé da serra, com dois andares e uma edícula nos fundos, onde funciona uma espécie de escritório com pranchas de todos os tipos (SUPs, bolachinhas, Guns afiadas, modelos para tow-in) e também wetsuits, coletes e remos. Numa das paredes está pendurado um pequeno quadro bem antigo com uma foto do surfista Brock Little dropando Waimea; ao lado, Pepê Lopes entuba numa foto clássica; acima, está uma foto de Alemão com seus 20 e poucos anos num tubo.

Cruzando o gramado entre a edícula e a casa, está uma área com mesa, churrasqueira e um forno de pizza. A casa é ampla e confortável – Alemão e Renata, sua mulher, estão aqui há dois anos e agora contam com uma nova pessoa para dividir a área: o recém-nascido Samuel, segundo filho do relacionamento de sete anos dos dois. Alemão também é pai de Clara, 10 anos, fruto de outra relação.

Na sala, entre a TV e uma prateleira de troféus, está um remo polinésio e um quadro que ele ganhou em um campeonato de tow-in, em 2008 no Chile. A extrema habilidade na canoa havaiana, nas provas de remada, no big surf e no tow-in fazem de Alemão um legítimo waterman brasileiro – talvez, o maior deles, apesar de não gozar da mesma fama que seus amigos.

“Nunca ganhei dinheiro com o surf”, afirma. “O esporte me ajudou a chegar nos lugares que eu quis, é isso. Nunca tive carro nem ambições. Nunca imaginei que eu fosse ter uma casa como essa, por exemplo.” A casa em questão foi presente dos pais de sua mulher. Até então, Alemão viveu por cinco anos em um local bem mais simples, do outro lado da praia.

Depois de estar em uma das maiores sessões de surf já registradas na América do Sul e no mundo, ele não acha que tenha chegado ao seu ápice. Tampouco corre atrás de recordes e prêmios: “É lógico que a gente sonha, mas prêmios para tamanhos de ondas são superficiais, não são legítimos. Como se define o cara que surfou a maior em Noronha, no Chile ou em Cortez Bank? Onde a mídia estiver é onde será surfada a maior?”.

Nascido em Vaiporã, no Paraná, o filho mais velho de Cisnando e Edna se mudou para São Sebastião em 1979 com os pais e os quatro irmãos. Cisnando era padeiro e Edna cuidava da casa. Em 1980, o pequeno Edílson era escoteiro e foi acampar em Guaecá, a 7 quilômetros dali. Por lá também acampavam biólogos da USP e um deles tinha uma prancha, uma monoquilha havaiana, que emprestou para o garoto brincar. O amigo mais velho que estava com ele tentou ajudar: “Alemãozinho, a série vem assim, de quatro, seis, dez ondas... Nunca pegue a primeira, tem que escolher direito a que você vai pegar”.

 

"Nunca ganhei dinheiro com o surf. Nunca tive carro nem ambições"

 

Foi o estopim para o menino de 10 anos começar a surfar. Dali em diante, vivia de pranchas emprestadas e surfava em Guaecá. Deixou a escola na quarta série e passou a fazer bicos em qualquer tipo de serviço, de limpeza de quintal a ajudante de pizzaiolo, e viu, naqueles anos, a estrada que terminava na praia de Santiago ser estendida até a praia de Maresias, lugar que, pouco tempo depois, passou a frequentar em busca de ondas mais agressivas.

Alemão chamava a atenção por surfar bem com qualquer prancha e encarar situações críticas com firmeza e coragem. “O cara se jogava, sempre se jogou. É um monstro”, diz o ex-surfista profissional Taiu Bueno, de quem Alemão foi enfermeiro por dez meses em 1991, depois que ele ficou tetraplégico. Taiu ri: “Ele me tirava da cama, me levava pra lá, pra cá, punha na cadeira. Ele tinha um amigo que tinha um Passat e a gente ia pro Guarujá, ia pra Maresias e eu ficava na casa sentado na cadeira vendo aquele marzão pirado”.

Depois, o posto de enfermeiro deu lugar às viagens pelo mundo. “Sempre gostei de desbravar lugares inóspitos, me meter em roubadas”, conta. Após o primeiro contato com o big surf no Peru, onde ficou três meses em 1993, fechou uma expedição ao lado do fotógrafo James Thisted, então da revista Hardcore, para a África do Sul e West Australia. “O Alemão sempre foi muito pilhado e atirado. Pra ele não tem tempo ruim, é um cara que vai pelo feeling”, diz o fotógrafo.

A jornada começou na Cidade do Cabo, de onde foram de carro até Jeffreys Bay. “Tinha umas ondas quebrando sem ninguém e o Alemão não queria nem saber. Se tinha onda, ele pegava a prancha e ia. Na Cidade do Cabo, paramos o carro e entramos no mar geladíssimo. Na primeira onda fiz uma sequência que veio a ser a minha primeira capa como fotógrafo e a primeira do Alemão.”

Na redação da revista, em São Paulo, os editores perguntaram: “Quem é esse Alemão?”. E veio a resposta que viria a ser seu apelido definitivo: “É aquele Alemão de Maresias”. “Quando a gente saiu do mar”, continua Thisted, “encontramos uns caras que falaram que a gente era louco de surfar ali, porque a água estava gelada demais até para os locais e o lugar era infestado por tubarões.”

Esse lado atirado também foi conhecido por Carlos Burle. No outside gelado do Chile, num mar de 80 pés (20 metros), em julho deste ano, Alemão o rebocava com o jet quando disse: “Fica calmo que eu vou pegar a maior da série pra você”. O coração do pernambucano disparou: “Eu sabia que, se viesse a onda, ele ia me colocar nela. Ele tem muito know-how, então, quando falou ‘fica tranquilo’, falei ‘caralho, agora fodeu!’”. Em seguida Alemão o colocou na onda que hoje é tida como uma das maiores já surfadas em toda a história. “A gente estava no limite do limite”, lembra Alemão. Depois da sessão, os dois se abraçaram e fizeram uma prece para agradecer por aquele momento.

Depois de um mês na África do Sul, em 1995, Alemão passou três meses em West Australia, numa caverna em Red Bluff, há 1.500 quilômetros de Perth. Em seguida, o surfista então com 25 anos começava a grande peregrinação pelo mundo do surf: um mês na Indonésia, mais três na Austrália, três no Havaí (onde teve seu primeiro contato com as ondas de Waimea e o tow-in) e, finalmente, sete meses na Indonésia, interrompidos abruptamente no final de 1996.

A idílica vida de freesurfer em meio a ondas, drogas e rock’n’roll parecia não ter fim. “Eu vivia o sonho, mas faltava alguma coisa”, enxerga atualmente. Depois de perder seu patrocínio e ficar sem dinheiro, se juntou com um cara para levar cocaína do Equador para a Indonésia. Na volta, foi preso no aeroporto Simón Bolívar e passou quatro anos em um presídio na cidade equatoriana de Guayaquil.

No início, Alemão dividia a cela de 2,5 por 5 metros com mais um preso. Com o tempo, conseguiu conquistar um espaço um pouco maior. Na primeira semana, viu a polícia matar três que tentaram fugir. Em outra ocasião, foi cercado por quatro presidiários que tentaram lhe roubar e desferiram punhaladas que, segundo Alemão, só não o furaram por um milagre. “Meu desejo era voltar a surfar, ser livre e fazer as coisas direito. Queria mudar minhas atitudes, respeitar mais os outros e olhar mais para as pessoas e para mim. Queria voltar a me descobrir, a ser o Alemão gente fina que a molecada gostava.”

Ao que parece, conseguiu o que queria. Neste começo de tarde de segunda-feira, Alemão volta para a água como se estar na terra fosse estar fora de seu hábitat. Um aluno o espera para ser puxado nas ondas. Alemão entra na água com a firmeza de uma rocha e domina o jet ski com habilidade. “No fundo ele gosta mesmo é de ajudar as pessoas”, diz Taiu. Com orgulho da alma caiçara, ele segue sua cruzada como uma das maiores referências atuais do big surf brasileiro, um verdadeiro “indicator”, como diz o jargão do surf: aquele cara que, quando rema para o mar, se você for atrás deve estar ciente de que alguma coisa muito séria vai acontecer ali.

*Fernando Gueiros é editor da versão brasileira do Red Bulletin, revista da Red Bull

Pacificado

Por Paulo Lima

Comecinho da década de 80. Pouca gente se aventurava nas estradas de terra e areia que, com muito custo, desembocavam na ainda quase intocada Maresias, escondida no litoral norte paulista. Praticamente não havia crianças na praia. Mulheres eram pouquíssimas. Mas um moleque branco e animado batia ponto nas manhãs de sábado e domingo naquele que depois veio a ser conhecido como o Canto do Moreira. De bicicleta, a pé, de carro, lombo de dromedário, o alemãozinho em questão dava um jeito de vir de São Sebastião e se plantar na beirada do mar. Ficava vendo as ondas e rezando para uma prancha se soltar do dono e vir dar na praia.

Quando dava essa sorte, corria para pegar a tábua desgarrada e pular em cima dela para sentir o gostinho de correr uma onda de peito na beirinha. Em dias menos afortunados, se contentava em recepcionar os moleques pouco maiores que ele, que, ao saírem da água, davam de cara com os dentes e os olhos arregalados do alemãozinho. Tudo parte de um grande sorriso cheio de vida. Nessas horas, um pedaço de parafina, deixar pegar uma ondinha na beirada ou mesmo um dedinho de prosa já faziam a cabeça loira daquele molequinho de 11 ou 12 anos fissurado em água salgada desde sempre.

Piazza, Paulinho Vainer, Fantinha, Dandão, Roberval e Renato Elkis, Edu Faria, Taiu, Pacelli, este escriba, entre alguns outros privilegiados que encontraram essas ondas ainda recém-descobertas e a praia vazia e sem casas, invariavelmente achavam graça naquele mascotinho branco. Éramos moleques tanto quanto ele, mas nos achávamos incrivelmente experientes do alto dos nossos 18 ou 19 anos. Gostávamos de dar a ele uma mistura de afeto com desafio e tensão. Entre um teco de parafina e um chute na bunda, empréstimo de prancha e uma frase falsamente ameaçadora, íamos criando o efebo e forjando sua fibra para encarar a vida no mar e no mundo.

Uma das frases que gostávamos de usar para praticar o espírito de porco macho-man adolescente que cultivávamos era mais ou menos assim: “Alemão, fica esperto que senão vamos fazer essa lombinha”. Um riso nervoso se instalava em seu rosto, como o de um bichinho acuado, apelando para a compaixão da matilha de predadores. Felizmente o que se seguia era só um afago na vasta cabeleira loira do molequinho amoroso e sangue bom.

Corte seco para o meio dos anos 90. Dia pesado de ondulação de sul e vento leste. Mais de 2 metros no line-up. Todos no pico com a atenção à flor da pele. Pouca conversa e muito movimento para se posicionar diante das séries rápidas e ocas. Nenhum espaço para brincadeiras ou vacilo. De repente, ouço do meu lado uma voz grossa e brincalhona em tom seguro disparando: “Então, Paulinho, fica esperto que senão vou fazer essa lombinha”.

Olho para trás e vejo aquele mesmo sorriso sincero, rasgado e cheio de carinho, só que agora rodeado por um maxilar quadrado, barba vermelha cerrada e uma caixa de músculos estufados e prontos para entrar em ação. Nosso bichinho de goiaba havia se transformado numa máquina de ler as ondas e voar no mar, com uma intimidade, um senso de colocação e uma naturalidade que poucas vezes vi em qualquer cidadão disposto a enfrentar os sete mares por onde andei.

Aquela versão de Chuck Norris praiana me disse palavras amistosas, me desejou o melhor e partiu para fazer o que sabe como ninguém: tirar as ondas para dançar. Deu um show. Sem arrogância, sem se achar melhor que ninguém, sem esperar fotos, troféus ou cheques.

Algum tempo depois, passei a ver seu nome por aí, sempre ao lado de figuras notáveis, como Taiu, Caixa d’Água, Pacelli, Burle, Formiga, Mancuzzi e outros, e na frente ou por dentro de ondas descomunais. Quando vacilou, indo tirar cadeia no Equador, mandamos um repórter até lá para ver como ele estava. O relato foi dentro do esperado. Alemão havia cativado a cadeia toda, virou pizzaiolo, servia detentos, guardas e visitas. Com sua humildade notável e seu saber intuitivo, tirou o castigo da melhor maneira possível, repensando a vida para reconstruí-la em seguida.

Durante todo esse tempo me perguntei por que um dos caras mais predestinados para dialogar com o mar e dançar com ele um pas-de-deux tão perfeito não conseguiu se beneficiar um pouco mais de seu próprio talento. Por que diabos não tem três ou quatro patrocinadores, uma casa legal, conta gorda no banco e poupança graúda? Teria nascido um pouco antes da hora certa e perdido o timing da geração que passou a ganhar melhor com o surf? Ser filho de gente muito simples pesou? Faltou uma faculdade? Seus traços rústicos, apesar de belos, não o credenciavam para o padrão estético das marcas?

Quando ouço o Alemão e sua fala leve, amorosa, calma, de alguém que parece exalar conforto com a própria existência e um tipo de plenitude que não se vê mais por aí, livre de qualquer sentimento menor ou complexo de inferioridade, penso que, na verdade, o Alemão de Maresias não precisa de mais nada. Apenas de ficar com os pés na água salgada, olhando pras ondas, sorrindo para quem passar. Tenho a impressão de que ele é um dos únicos que pode responder um verdadeiro, monossilábico e sincero SIM diante da caixa de supermercado e de sua indefectível pergunta: encontrou tudo que precisava?



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