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O LEÃO E O LOBO

Leia em primeira mão trecho do bate-bola entre Caetano e Lobão

Por Redação

em 21 de setembro de 2005

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Por conta do episódio envolvendo o ex-colunista de O Globo Ricardo Boechat, grampos telefônicos e interesses empresariais dos mais diferentes, a semana passada serviu de maneira extraordinária para que se discutissem os rumos trilhados pelo jornalismo, numa sociedade cada dia mais complexa, competitiva e tecnológico-dependente. Até onde deve ir a relação de intimidade entre jornalistas de opinião e suas fontes? O que é tolerável e o que não é? O jornalista deve se limitar ao papel de espectador ou pode e deve interferir em processos? Opinião deve ou não ser emitida? Quais os limites da ética?
Enquanto isso, numa outra praia, Caetano Veloso e Lobão travavam debate acalorado através dos cadernos de cultura de jornais, colunas de revistas e programas de rádio e tevê, confrontando de forma áspera opiniões divergentes que começaram a ganhar a luz quando os dois artistas se encontraram no programa de Jô Soares recentemente.
Vendo a posição passiva de uma parte importante da mídia diante de uma peleja entre duas figuras de bom naipe na tão sem graça cena cultural brasileira, na qual uma seqüência de desfiles de moda equivale à semana de 22 para o desavisado que basear sua informação pela cobertura mais superficial, optamos na redação da TRIP por tentar buscar um papel ativo.
Quarto de hotel
Promover o encontro entre Caetano Veloso e Lobão é mais que fazer jornalismo. Deixando de lado minha óbvia suspeição, me parece que, aproximando duas figuras de inegável relevância na música e no pensamento nacionais, conseguimos transformar o que apontava na direção do esvaziamento reservado às picuinhas entre artistas num encontro vigoroso – entre uma das figuras mais respeitadas e polêmicas da cultura nacional e um sujeito que, entre outras coisas, teve uma composição gravada por João Gilberto e acaba de peitar toda a indústria fonográfica e boa parte da mídia brasileira alinhada com ela. A seguir, em primeira mão, um trecho da conversa travada entre Lobão e Caetano, numa dessas tardes de inverno, numa suíte do Copacabana Palace, e que estará nas páginas da TRIP no dia 6:
TRIP – Por que você resolveu falar do Lobão na música Rock’n’Raul, Caetano?
Caetano – O ‘lobo bolo’ tampouco é uma mera rima. É a coisa do ouro de tolo.
Porque eu falo nos manos, nos rappers, que dão continuidade a essa necessidade, em grande parte muito saudável, de reproduzir a experiência norte-americana no Brasil. Ou seja, de segurar aquela bandeira.
Lobão – Esse é um momento muito esquisito [da música]. Porque entendo e, ao mesmo tempo, não sei se gosto.
Caetano – O Lobão representa um ponto na geração dele – o ponto em que isso aparece como problema. Porque ele é da geração do rock dos anos 80, mas é o único que a problematizou. Ele foi a crise permanente dessa geração. Então, no ‘lobo bolo’, o bolo da geração 80 é representado pelo Lobo. Eu não podia perder, sou um poeta. Isso é coisa de poeta.
TRIP – Lobão, quando você ouviu a música pela primeira vez, no Programa do Jô, ficou desconfiado dessa ‘homenagem’?
Lobão – Fiquei prestando atenção. É um texto ancorado, cheio de coisas esparsas, que você não entende o significado de imediato. Fiquei olhando pra Regina [Lopes, esposa e empresária de Lobão], para o Caetano e o Jô. Então, estava meio grilado, desconfiado.
Caetano – Você fala na letra da sua música [Para o Mano Caetano] ‘tease me, tease me’. Se sentiu instigado. Eu vi na cara dele, na hora. Mas, depois, o comentário [do Lobão] desmereceu: ‘Só pra rimar com ‘Ouro de Tolo’?’ Está certo, é procedente, porém é um comentário sacana. Um sujeito que faz letra de rock’n’roll não deve se espantar com essas coisas.
Lobão – [Levemente irritado] Pois é, mas o problema é esse, Caetano. Será que sou ‘um sujeito que faz letra de rock’n’roll’?
Caetano – [rapidamente] Você também é um sujeito que faz isso. Não que seja isso. Quis dizer um sujeito capaz de fazer letra de rock’n’roll.
Lobão – Mas eu não sei o que é uma letra de rock’n’roll…
Caetano – [impaciente] Esses aspectos de ser flash, de aparentemente não ser pensada, espontânea, mas com muita força. Existe uma estilística do rock’n’roll que você percebe desde Chuck Berry até o Nirvana.
TRIP – Qual foi o trecho da letra do Lobão que emocionou você, Caetano?
Caetano – O trecho que diz: ‘Chega de verdade’…
Lobão – [completa, sorrindo] ‘…viva alguns enganos’.
Caetano – Achei isso tão profundo, tão certo pra mim e bem pensado! Fiquei impressionado. O trecho é bonito e bem escrito. Então, quando recebi o CD e botei em minha casa, fiquei emocionado ao ouvir as primeiras palavras, o ritmo, a presença do maracatu… E a letra toda, o jeito como ele canta.
Isso é, como eu tinha dito, o melhor do Lobão.
TRIP – Por que o ‘chega de verdade’ tocou você desse jeito?
Caetano – Pensei numa pessoa falando comigo. Esse ‘chega de verdade’, pô, como isso sintetiza tudo! Diz muito a respeito da minha biografia pessoal e artística. O ‘chega de saudade’, do João Gilberto, foi um marco que mantenho como paradigma. E essa minha ânsia permanente de manter a transparência, uma honestidade pública é um negócio sacal. Isso já não é mais saúde. Achei um conselho vindo de alguém que está me vendo sinceramente. Aquilo falou comigo. Estou falando do meu modo de ser, que resulta na minha vida pública através dos meios de comunicação. Não vou mudar, eu sou eu, mas posso melhorar. Senti que ali tem um comentário crítico que é profundo e realmente precisava ser dito a mim. As questões que Lobão levanta… Naturalmente, tenho resposta pra isso tudo. Posso responder tim-tim por tim-tim a todos os itens do Lobão. Mas, chega de verdade [risos].

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