Por Redação
em 21 de setembro de 2005
Era dia de visitas na Penitenciária do Estado. Eu tomara banho cedinho e fizera barba. Estava ali, passando meu uniforme novo que guardava somente para os dias de visita. Estava quase pronto para receber minha mãe. Fazia questão de estar no meu melhor possível, ela merecia. Estendi meus olhos ao longe, através da janela, a pensá-la.
Sou filho único. Só tinha minha mãe por mim. Ela, evidentemente, só tinha a mim por ela. Meu pai jamais participou desse afeto. Era estrangeiro. Tinha um ciúme dessa relação… Parecia absurdo. Dona Eida dizia que era por isso que ele me espancava tanto. Sempre que nos via em nosso mundo de amor particular, caçava um jeito de bater em mim.
Visitava-me quinzenalmente, era meus olhos no mundo. Tudo que ela via lá fora de interessante e importante, guardava para me contar. Como sabia, eu ia querer detalhes. Anotava tudo, memorizava, e vinha já pronta para falar as coisas inteiras. Ela me trazia a paz de árvores espessas, sentimentos como ventos alongados.
Conhecia quase todos livros que eu lera. Sempre que considerava um livro bom, passava para ela depois de ler. Podia esperar. Na outra semana ela viria com ele lido. Prontinha (minha mãe era pequenina: 1,42 metro de altura, suas duas mãos cabiam na palma da minha mão e seu sapato era número 32) para discuti-lo comigo.
Sempre foi minha maior interlocutora. Assistia as mesmas novelas que eu somente para ter o prazer de comentar comigo. Nossos encontros eram de verdade. Nós nos tornávamos mais amigos que mãe e filho. Não havia afagos, carícias, estranhamente. Havia, antes disso, respeito e dedicação total. Visitou-me 20 anos na prisão sem falhar. Jamais me deixou em falta de nada.
Sempre me educou com a verdade. Sexo, por exemplo, ela nunca mentiu. Sempre respondeu como sabia. Não sabia muito. Provavelmente eu sempre soube mais que ela. Mas falávamos francamente.
Lembro-me, a título de ilustração, que, numa dessas festinhas de aniversário de crianças, eu conversava com uma garotinha de minha idade. Teria uns 5 anos. Disse-lhe que a criança nasce da barriga da mãe, e não é a cegonha que trás. Foi um escândalo na rua! Dia seguinte, havia um grupo de mães, brigando com minha mãe por haver me ensinado aquilo.
Claro que a poupava da minha vida na prisão. Ela bem que vinha especulando, mas eu disfarçava e a tirava do assunto. Essa parte de minha vida só dizia respeito a mim. Então os assuntos eram sempre relativos às coisas lá de fora. Ela me passava verdadeiros relatórios sobre o que acontecia no bairro, na rua e na família.
Às vezes, ficamos malhando a família e meu pai era sempre a vítima principal. Ela chegava e eu já perguntava o que ele tinha aprontado naquelas semanas. Então ela desabafava.
Chegava a chorar às vezes. Discutíamos também. Ela apelava, quando não tinha mais argumentação, e chorava. Então, totalmente desarmado, eu cedia. Não antes de registrar o fato. Era covardia dela.
Nós nos amávamos diferentemente. Nos sorrisos, no olhar molhado e na dedicação extremada. Tudo era consistente e sólido como dedos fechados. Um amor que se refazia a cada quinzena, na prática.
Eu a amava com todas as possibilidades que alguém tem de amar alguém. Amava triste, arrependido por tudo. Eu a fizera sofrer demais. Olhar aquela carinha redonda de lábios finos e seus olhos tão sofridos dava a maior vontade de chorar. Amar como eu a amava ciente de que eu fora e era a causa de sua dor e de quase todo seu sofrimento me deixava abaixo de nada. Uma dor incendiada de fogueiras e luz inteiramente consumida.
Então, naquele dia, esperava minha mãe. Desci para o pátio, tranqüilo, e fiquei andando com um amigo, aguardando que ela chegasse. Não demorou muito, e minha matrícula foi colocada na lousa. Era ela, pontualíssima, como sempre. Era uma das primeiras visitas a entrar na Penitenciária. Também, me visitava a mais de década, todos a conheciam e a protegiam. Inclusive funcionários e funcionárias.
Levei-a para minha cela. Acomodei-a na minha cama. Coloquei o travesseiro em suas costas e lhe servi um copo de água. Um torpor, algo vago derramava-se em mel de seus olhos. Quando conseguiu relaxar do esforço para chegar até ali, então iniciou o diálogo.
Percebi que ela estava diferente. Havia algo de nuvem e sol em seus gestos lassos. Queria contar algo especial que acontecera nas semanas, mas era algo sério. E, com certeza, tinha algo a ver comigo. Irradiava uma emoção áspera que reverberava pelos cantos de sua boca. Me coloquei na posição de ouvinte atento e escutei:
– Eu fui roubada, sábado passado, na feira lá da rua!
– É, mãe?! Puxa, como foi isso? Machucaram a senhora, sabe quem foi? Que filho da puta! É lá do bairro? Minha visão se estreitava; minha mãe era sagrada e havia que ser respeitada mesmo que a ferro e fogo.
– Não, meu filho, tudo bem, já foi, passou. Vou te contar como foi.
E lá veio a história toda. Escutei febril, não era possível que houvessem abusado. Aquela gente lá do bairro não podia ter ultrapassado.
Ela fora fazer a feira para a semana. Estava com o dinheiro contado. Teria que economizar, pois demorava o dia do pagamento.
Pegou um menino que estava com um carrinho de mão, para acompanhá-la enquanto comprava as coisas. Era o ‘carreto’, eu mesmo fizera aquele trabalho, em minha infância, durante anos. E naquela feira mesmo. Ela falava e eu lembrava os carrinhos de rolimãs e caixotes que montava. Bucólico lembrar.
Estava até contente porque, como sempre, viera no final da feira para pegar as coisas mais baratas, e conseguira. Comprara tudo o que necessitava para a semana com o pouco que tinha.
Quando foi dizer ao garoto a direção em que seguir, percebeu que este havia fugido com suas compras. Ela fora roubada, irreversivelmente. Chorou, desesperou-se. Não tinha mais dinheiro para fazer novas compras para a semana.
Passou o dia todo deprimida e preocupada. Por fim, pegou algum dinheiro emprestado de uma de suas inúmeras comadres, fez as contas novamente, e pronto. Não falou mais nada acerca do menino. Eu já fizera aquilo muitas vezes, quando fazia aquele trabalho. Era um golpe conhecido, e ela sabia disso. As queixas chegavam lá em casa, às vezes.
No sábado seguinte, foi no mesmo horário fazer a feira. Disse que queria surpreender o menino.
Pronto! Só faltava essa, será que ela prendeu o ladrãozinho? Não, não podia ser! Mas ela tinha todo o direito. O dinheiro dela era suado, estaria certa se o prendesse. Mas será? Havia um preconceito; como a mãe de um preso podia querer prender alguém, sabendo o sofrimento que era?
Encontrou o garoto e o cercou. Antes que ele percebesse o que estava acontecendo. Então fez o que me enchia de razão de gostar tanto de minha mãe, disse a ele:
– Olha, menino, meu filho começou assim como você, e aqui mesmo nessa feira. Ele roubou várias mulheres que confiavam nele, como eu confiei em você. Sabe onde ele está agora? Na Penitenciária do Estado! Não faça mais isso, não dê esse desgosto à sua mãe! Eu podia te denunciar ao guarda ali, mas não o farei. Tomara meu filho pudesse ter alguém que o compreendesse como eu te compreendo. Não faça mais isso! Tá?
E o contratou para fazer um novo carreto para ela. Confiou novamente no menino, fez a feira toda com ele atrás, sem vigiá-lo. O menino levou suas compras até em casa. Depois de ajudá-la a colocar tudo na mesa da cozinha, ela foi pagá-lo do carreto. O menino não quis receber. Ainda disse a ela que sempre que fosse à feira, que o procurasse. Estaria à disposição dela e não deixaria que a roubassem. Ela deu-lhe um lanche e um suco gelado. Ficou conversando por mais uma hora, contando o que sabia de minha vida.
Eu, que temi que ela prendesse o ladrãozinho, não esperava uma tal atitude dela. Era grande. E o menino foi maior ainda. Eu, em meu tempo, quando era reconhecido, saia correndo. Também, as minhas vítimas queriam bater e prender, não aconselhar.
Nossas conversas seguiram para outros caminhos, mas essa história me marcou e, acho, ao menino também.
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