por Tom Cardoso
Trip #165

Visto como símbolo de comida saudável, o frango tornou-se um dos vilões da alimentação

Visto por décadas como símbolo de comida saudável, o frango tornou-se um dos maiores vilões da alimentação natural, um suposto Frankenstein criado à base de hormônios e antibióticos por uma indústria impiedosa. A Trip ouviu os vários lados da questão e visitou uma granja e um abatedouro para descobrir o que há de verdade e mito nessa história

 

A campanha promete fazer barulho. Na comunidade “Viva o hormônio do frango”, no Orkut, 20 adolescentes convocam meninas de todo o país para que comam frango sem parar. Não, eles não foram contratados pela indústria da carne de frango. O inte­resse é puramente hormonal: segundo o dono da página, Felipe Freitas, a cada asa de frango devorada pelas garotas, mais chances elas têm de chegar à puberdade. “Os produtores têm usado hormônio para inchar os frangos. Ou seja, quanto mais a menina come frango, mais sinuosas são suas curvas!”, alerta Felipe, animadíssimo. Não se sabe quem é mais poderoso hoje, o mito do uso do hormônio em carne de frango ou a indústria da avicultura, que fez do Brasil o maior exportador mundial do produto, com 500 milhões de frangos abatidos por mês (cerca de 30% da produção nacional), distribuídos por 150 países.
Os meninos não devem se assanhar. Não há no Brasil o uso de hormônio na produção da carne de frango. “Realmente, não faz parte de nenhum processo natural que um pintinho nasça e engorde 2,5 kg em apenas 45 dias. Por ignorância ou simplificação, as pessoas acabam atribuindo esse rápido crescimento à injeção de hormônios de crescimento nas aves, mas isso não é verdade, os motivos são outros”, afirma o biólogo Sérgio Greif, mestre em alimentos e nutrição pela Unicamp. “Os hormônios de crescimento são substâncias protéicas que, se eventualmente fossem usados nas dietas, não teriam efeito farmacológico, pois seriam destruídos pelas enzimas do sistema digestivo das aves. Portanto, além de proibido no Brasil desde 1976, é economicamente inviável”, afirma o médico veterinário Cláudio Bellaver, pesquisador da Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária).

SABOR ARTIFICIAL
O melhoramento genético feito durante décadas, os avanços na nutrição, o controle ambiental e o tratamento de doenças são, segundo os especialistas, os grandes responsáveis pela velocidade com que o frango engorda e é abatido para consumo. A tecnologia só não conseguiu manter o sabor do frango. O uso de antibióticos nas rações de engorda, estes sim empregados e permitidos, deu ao frango atual um gosto artificial, muito distante do frango consu­mido antigamente, criado no fundo do quintal ou em pequenas granjas. Outra preocupação do consumidor atual – e, principalmente, do mercado externo – é em relação ao bem-estar animal. Como abater 500 milhões de frangos por mês e ao mesmo tempo diminuir o sofrimento do animal durante a criação? A União Européia, por exemplo, já editou instru­ção normativa que impede, a partir de 2012, a importação de animais criados em sistemas que não levem em conta o bem-estar animal.

APERTO NO GALINHEIRO
A indústria garante que está fazendo sua parte. Algumas empresas já estão suspendendo a inclusão de antibióticos na ração nos sete dias que antecedem o abate. Outras aumentaram o espaço nas granjas – um aviário convencional abriga hoje cerca de 14 a 16 aves por metro quadrado – e diminuíram o tempo de luz artificial. Mas nada que convença a ativista Nina Rosa, ex-modelo e produtora de moda, vegetariana convicta (“não coma nada que tenha rosto” é sua bandeira) e inimiga número um dos produtores de qualquer tipo de carne. Diretora do instituto que leva o seu nome (www.institutoninarosa.org.br), um dos mais conhecidos órgãos
de defesa dos animais do país, Nina tem feito barulho desde que tornou popular o documentário A carne é fraca, que exibe cenas sangrentas de maus-tratos de animas por parte de produtores.
“Os frangos são criados em cativeiros, em espaços
mínimos que chegam a quatro aves por uma folha de papel A4, uma verdadeira tortura. E tem a debicagem [processo cirúrgico de corte e cauterização do bico das aves que evita, por exem­plo, que gali­nhas cometam canibalismo e arranquem suas penas], crueldade que é prática comum nos criadouros”, ataca Nina. Além disso, como mostra o documentário e foi comprovado por esta reportagem, os pintinhos que nascem prematuros ou “com defeito” são triurados e ajudam a
compor a ração que será comida pelos pintos saudáveis.
“Eu sei que o do­cumentário A carne é fraca, além de ter feito muita gente deixar de comer carne, incomodou a indústria, pois empre­sários chegaram a se juntar para veicular uma
propaganda em resposta ao meu filme, com o título A carne
é forte”, lembra a ativista.
Pesquisadores e especialistas acham importante a pressão feita por institutos de defesa dos animais, mas enxergam alguns exageros por parte dos ativistas. “Como um frango que recebe todos os tipos de maus-tratos consegue atingir 2,5 kg de peso em 45 dias? Se o animal atinge esse desempenho, é porque está recebendo todos os cuidados técnicos quanto à sua nutrição, à sua sanidade e ao seu manejo de produção. Um animal que não tenha sido bem nutrido e tenha tido problemas sanitários não terá um bom desempenho”, afirma Antônio Mário Penz Júnior, professor do departamento de zootecnia da UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul). “As pessoas estavam acostumadas ao frango de quintal, ao ‘frango da vovó’, que levava seis meses para abater. Hoje, é abatido em 45, 47 dias, em escala industrial, que é a única maneira de o alimento chegar a milhões de pessoas ao preço de R$ 3 o quilo”, explica Pedro de Felício, Ph.D em produtos de origem animal da Unicamp.
Para quem se recusa a comer frango com antibiótico, mas por outro lado não consegue viver de vegetais como Nina Rosa, o mun­do não está perdido. A Korin Agropecuária produz desde 1995 o cha­mado “frango verde”, livre de antibiótico e de qualquer farinha de origem animal. Na produção, as diferenças são mais sutis: a densidade nos aviários cai de 16 aves por metro quadrado para 11, por exemplo. “Foram muitos anos de pesquisa até chegarmos a esse modo de produção, que concentra preocupações com as
ca­deias ambiental e social“, explica o gerente de produção animal Luiz Carlos Demattê Filho. O frango verde ganhou ares in­dus­triais: são 400 toneladas de carne de frango abatidas por mês pela Korin.

AO GOSTO DA VOVÓ
A própria empresa tratou de investir no frango orgânico, este sim produzido “ao gosto da vovó”, alimentado com rações naturais, feitas com milho e soja orgânicos. As galinhas vivem cerca de 90 dias e são criadas sem luz artificial, passam o dia no pasto, e a densidade nos alojamentos é de apenas cinco aves por metro
quadrado. Dar vida livre à galinha custa caro ao consumidor. O frango orgânico tem preço de filé-mignon: R$ 12 o quilo. Para muitos especialistas, é preciso tomar cuidado ao encarar os produtores de frango orgânico como heróis e os produtores convencionais como grandes vilões. “Os românticos acham que o frango ou qualquer
alimento pode ser produzido no fundo do quintal de suas casas. Para os que têm quintal, até poderia ser. E para os que moram em São Paulo, Tóquio ou Pequim? Quem produzirá para eles? Essas mesmas pessoas deveriam pegar uma calculadora e ver como podem e devem ser produzidos os alimentos para que todos, em teoria, tenham acesso a eles”, diz Antônio Mário Penz Júnior.
Para o biólogo Sérgio Greif, não há estudos precisos que comprovem que o frango orgânico é mais saudável do que o convencional, pois, ao contrário dos criados em escala industrial, os orgânicos têm acesso à parte externa, o que cria maior possibilidade de contato com pássaros silvestres, que transmitem a gripe aviária, por exemplo. Em 2006 a Embrapa recomendou que os aviários fossem fechados, temporariamente, para evitar o risco de contaminação. “Os maiores absurdos que ouço a respeito provêm daqueles que defendem que a carne de frango criada de determinada forma é melhor do que a carne de frango criada em sistemas
intensivos. Estes sim, além de propagarem inverdades de forma proposital, posam de bonzinhos e lucram com isso”, afirma Greif.
Nina Rosa, por exemplo, não quer nem saber de frango convencional, verde ou orgânico. “A madame paga US$ 50 pelo quilo do frango e diz orgulhosa para a vizinha: ‘Esse franguinho não so­freu’. Como não sofreu se foi assassinado para ser comido por ela?”

Morte e vida galinácea

Repórter e fotógrafo vão a campo para revelar como os frangos são engordados, eletrocutados e degolados. Mas terminam o dia em uma churrascaria

 Sempre fui um carnívoro inveterado, daqueles que dão prejuízo a churrascaria. Mas, paradoxalmente, sou incapaz de matar uma formiga. Não sei como, mas criei um mecanismo que faz com que eu nunca ligue a costelinha de vitela à vitela. O mecanismo foi para o espaço quando assisti no YouTube ao famoso documentário idealizado por Nina Rosa, A carne é fraca, com cenas impactantes de maus-tratos em animais capazes de transformar até mesmo Obelix num comedor de alface. Para conferir as denúncias do documentário, fomos a campo, eu e o fotógrafo Dimitri Lee, para ver como funciona, sem truques e maquiagem, uma grande empresa produtora de frango.
Chegamos a Guapiaçu, interior de São Paulo, cidade vizinha a São José do Rio Preto, onde está localizada a sede da Sertanejo Alimentos, uma das dez maiores produtoras de frango do país, com 200 mil aves abatidas por dia. Não pudemos acompanhar com detalhes a primeira parte do processo, quando as aves sãos soltas em galpões de 2.000 m2, na proporção de dez fêmeas para cada macho. Não por censura da empresa e sim por respeito aos machos, que precisam de uma certa dose de concentração para fazerem seu trabalho, que rende à Sertanejo Alimentos cerca de 170 mil ovos por dia, somando todos os núcleos das matrizes. Desses ovos, 96,5% são destinados à incubação.
Na incubação, a preocupação com a higiene é total. O repórter e o fotógrafo bateram recordes pessoais de banhos to­ma­dos no mesmo dia. Foram dois – um durante a reportagem e outro à noite, no hotel. Mas valeu a pena: há uma certa emoção, misturada com pena, de ver os pintinhos, depois de 21 dias de ges­tação,  nascendo, prontos para uma vida curta, de 47 dias no máximo. Nos incubatórios da Sertanejo, nascem 4,8 milhões de pintinhos por mês. Os que nascem prematuros ou com defeito são jogados sem muita cerimônia numa outra bandeja e viram ração para os pintos sobreviventes.
De lá, devidamente vacinados, eles partem – com um dia de vida – para as granjas, uma espécie de spa ao contrário, onde vão, devidamente vigiados, comer e dormir durante cerca de um mês e meio, até chegarem ao peso ideal para o abate, cerca de 2,6 kg (há casos de frangos comilões que chegam a 4 kg). A reportagem visitou um galpão com 40 mil frangos, com 16 dias de vida. Nada parecido com a cena traçada por Nina Rosa, de quatro aves num espaço equivalente a uma folha A4. 

CHEIRO DE SANGUE
Quarenta e poucos dias depois, é chegada a hora. A viagem até a forca é o momento mais angustiante das galinhas, que são apertadas em caixas enfileiradas dentro de caminhões. A viagem pode durar horas, dependendo da distância das granjas para o abatedouro. Por pressão dos ativistas, os produtores são obrigados a “descansar” as galinhas por pelo menos duas horas antes do abate, que dura aproximadamente um minuto. Numa esteira, as galinhas são colocadas de cabeça para baixo, recebem um choque de 40 V (para diminuir a agitação e aumentar a eficiência da degola) e passam por dois discos afiadíssimos. Apenas 0,3% sobrevive ao corte e, quando isso acontece, uma funcionária, com uma faca em mãos, dá a sentença final. A morte biológica só se dá três minutos depois, quando o sangue é totalmente escoado.
Depois de morta, a galinha é entregue às máquinas. Uma arranca as penas, outra corta a cabeça, outra expõe as vísceras. Num enorme pavilhão, com centenas de empregados, a galinha começa a ser retalhada. Tudo é aproveitado. O cheiro de sangue é insuportável. Uma hora e dez minutos depois de ser degolado, o frango já está congelado, embalado, pronto para o consumo. São cinco da tarde e, esfomeados, repórter e fotógrafo partem para a churrascaria mais próxima. A carne é fraca. (Tom Cardoso).

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