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O AMIGO TRAÍDO

O texto abaixo foi extraído do caderno de um viajante de 29 anos recém-chegado da Europa, cheio de dúvidas e novas sacadas

Por Redação

em 21 de setembro de 2005

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Diários de viagem são raros. Pouca gente tem tempo, assunto ou paciência para escrevê-los.

O texto abaixo é uma exceção a essa regra. Foi extraído do caderno de um viajante de 29 anos recém-chegado da Europa, cheio de dúvidas e novas sacadas:

‘Fui de trem à cidade mais velha da França e uma das mais antigas da Europa. Na estação, um velho amigo me esperava com sorriso estampado. Conheci Henri há mais de 10 anos, perdido na cidadezinha cearense de Aracati, tentando ir à Canoa Quebrada, onde na época só se chegava a pé.

Henri estava lá desde as cinco da manhã, louco pra botar a conversa de quatro anos em dia. Depois de trocarmos a velha mentira solidária – ‘você está igualzinho’ -, o fotógrafo francês pôs-se a contar a angústia e depressão que sentiu ao descobrir que sua mulher brasileira saía com um dos seus melhores amigos. Separação, brigas, disputas pela guarda do filho, solidão, overdose de emoções. Mas o tempo passou, Henri entrou em acordo com a ex e conheceu uma francesinha linda de bochechas cor-de-rosa e seios enormes que vende frutas numa barraca na feira cinco vezes por semana na porta de sua casa. Estava feliz, via o filho quando queria e não sentia mais nada pela ex-mulher. Nem mesmo desprezo. Só um problema: não tinha nada mais para me contar.

Seu trabalho continuava absolutamente o mesmo, seu salário idêntico (com a inflação baixa, nem os números mudaram), a cidade completamente igual. Nada fechou, nada foi inaugurado. Com muito esforço, lembrou-se amarradão de uma novidade pra m contar. Os operários que escavavam um terreno perto do porto pra construir uma garagem encontraram as estruturas intactas de dois navios pertencentes aos fundadores da cidade, os gregos. Os barcos datam, nada mais nada menos, de 500 anos a. C.

Percebi ali uma das razões pelas quais os países mais desenvolvidos têm os maiores índices de suicídios entre jovens. Nada existe para ser feito. Tudo está pronto há séculos, resolvido e acabado. Resta apenas usufruir. Meu talentoso amigo fotógrafo não poderia jamais juntar uma grana e montar sua própria revista. Sua namorada, professora de aeróbica, não tem mercado para trabalhar, a não ser o de frutas e verduras, que a emprega há dois anos. Ambos têm direito a seguro-desemprego de quase US$ 1 mil, auxílio-maternidade, moradia, transporte etc., mas trocariam tudo sem pensar pela sensação que temos de sobra no Brasil: a de que precisam de nós para consertar e construir esse bordel.

‘Cara, eu moro num apartamento legal aqui, tenho TV, vídeo, duas mountain-bikes da hora, ganho uns US$ 1.500 por mês como barman num pico alucinante aqui em Bruxelas, gasto uns US$ 500 e sobra US$ 1.000 para guardar. Fora as loiras que pintam todo dia. O que eu iria conseguir no Brasil com 22 anos?’ A pergunta do garoto brasileiro que mora há dois anos na Bélgica só veio reforçar uma velha tese que carrego comigo: o ser humano não foi feito pra ficar satisfeito. ‘Posso ir com você até o aeroporto? É só pra sentir o gostinho do Brasil. Manda um abração pros meus manos de Itamambuca, fala que foi o Cachorrão que mandou.’ Tá dado o recado.

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