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O AMIGO AO LADO

O colunista solto no mundo interessa-se pelo escritor aprisionado, seu vizinho de página

Por Redação

em 21 de setembro de 2005

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Caro Luiz,

Há quatro edições somos vizinhos de página. Me deu uma vontade enorme de dialogar diretamente com você e de tornar o nosso eventual diálogo uma coisa pública. Confesso que às vezes sinto uma certa vergonha, pois percebo que os meus dilemas e elucubrações de eterno navegante são banais se comparados com a tua condição de preso e com a seriedade das tuas colunas. Mas, apesar de viajar tanto pelo mundo, também tenho em mim muitas prisões, carrego comigo minhas barras de ferro onde quer que eu vá. Por outro lado, Luiz, vejo que mesmo enclausurada a tua cabeça é muito, muito livre.
Tenho um amigo que era guerrilheiro, fazia parte das Brigadas Vermelhas na Itália, nos anos 70. Ele passou dezoito anos preso, muitos deles em isolamento. Eu o conheci dois meses após a sua libertação. Ele me perguntava todos os dias: ‘Henrique, o que você acha de mim?’. Comecei achar que era narcisismo e disse a ele: ‘Você é muito meu amigo, eu já repeti muitas vezes o quanto te admiro. Por que insiste tanto nesta pergunta?’. Ele me respondeu que, estando em contato com pouquíssimas pessoas durante muitos anos, ele perdeu completamente a noção de quem era.

SÓS NA MULTIDÃO
Presos ou soltos, nós, seres humanos, somos muito cegos e sós. Quase nunca conseguimos transcender os nossos estreitos limites para enxergar os outros – e a nós mesmos – sem projetar o nosso próprio vulto na face alheia e a cara dos outros na nossa. Como dizia Sartre ironicamente: ‘O inferno são os outros.’ E, por isso, sofremos tanto, perdidos e atordoados no labirinto escuro e gelado que não sabemos se é nosso ou alheio.

Mas esse jogo perverso de identificação é emanado pela mesma força, mágica, maravilhosa que nos permite amar. E, quando amamos, não somos mais nem cegos nem sós. Como é lindo e reconfortante encontrarmo-nos nos outros, beijar uma boca que é boca como a nossa, mas que é outra – e que se confunde com a nossa. Ou amar um amigo, um filho, um irmão que é nosso, que é nós, mas que é, antes de tudo, autonomamente si mesmo. Você não acha que o amor liberta?

Daqui de Londres, daqui dos meus olhos, daqui do meu corpo e da minha mente tudo isso parece imensamente banal, mas também infinitamente sublime. Tudo incessantemente parece oscilar entre dois pólos opostos. Linda e dolorosamente misterioso. Como você vê tudo isso daí da tua cela? Tão separados e tão diferentes um do outro, a gente se encontra aqui nestas páginas, dois brazucas falando a mesma língua, existindo no mesmo mundo ao mesmo tempo. Foi uma ótima idéia do pessoal da revista colocar as nossas colunas uma ao lado da outra, contrapondo a ausência de gravidade na minha vida com a clausura na tua. Somos dois lados de uma mesma moeda e – mesmo envergonhado – me sinto bem, confortável aqui na minha página, ao teu lado. Mês que vem vou ao Brasil. Gostaria muito de te visitar. Será que você topa?

Um abraço,
Henrique.

Henrique Goldman [henrigold@yahoo.com], 40, é cineasta, vive há mais de uma década fora do Brasil e tem vários amigos espalhados pelo globo.

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