por Fernanda Danelon
Trip #167

Ex-secretário de Assistência e Desenvolvimento Social de São Paulo coloca as mãos na massa


Ex-secretário de Assistência e Desenvolvimento Social de São Paulo, Floriano Pesaro trocou seu gabinete pelas calçadas, sujou as roupas para a e adotou o olho no olho para lidar com pessoas que a maioria finge não ver. Conseguiu, assim, diminuir consideravelmente o número de desabrigados e mudar a vida da cidade para melhor

texto fernanda danelon  foto nelson Mello

O sujeito arregaça as mangas da camisa bem cortada para sujar as mãos na poeira da calçada. Os vivos olhos azuis encaram o par de tristes olhos negros. Floriano enfia o nariz na cara de seu miserável interlocutor para falar abertamente sobre o que ninguém quer dizer: a deprimente realidade de quem vive nas ruas.

Floriano Pesaro, ex-secretário municipal de Assistência e Desenvolvimento Social, há muito rompeu as barreiras da desigualdade - e da burocracia - para criar oportunidades aos moradores de rua de São Paulo. À frente da secretaria, tirou 2 mil crianças da sarjeta ao desenvolver um modelo inovador de gestão social através dos programas São Paulo Protege e Ação Família e da campanha Dê mais que esmola, dê futuro.

 

Barriga no balcão 

Floriano enxerga o invisível. Ou vê o que ninguém quer ver. Quantas vezes nós já passamos por mendigos dormindo na calçada, eclipsados por cobertores puídos e escuros, sem ao menos nos dar conta desse cenário lamentável? Assim, o que faz com que o moço bem-nascido tenha optado por deixar a tentadora carreira de empresário na rede de lojas do pai para se embrenhar pela vida política de Brasília, com um salário três vezes menor?

Treze anos se passaram desde então e o gestor público não titubeia ao se dizer realizado por ter encontrado o seu caminho. "Sempre gostei de lidar com as pessoas. Minhas funções na empresa do meu pai eram no escritório, mas eu gostava mesmo era de trabalhar no balcão, conversando com as pessoas, entendendo seus problemas, o que era quase uma sessão de análise", conta. "Quem é comerciante, quem lida com o povo sem ser político, sabe que você tem que estar com a barriga no balcão, conhecer os clientes pelo nome, perguntar pela família, para ter sucesso. E, desde a escola, procurava entender a sociedade em que eu vivia. Foi na faculdade de ciências sociais que o sentimento político transformou-se em consciência política."

Sociólogo formado pela USP, o então rapaz de 27 anos embarcou recém-casado para a capital federal, onde, durante o governo de Fernando Henrique, criou o Fies (Programa de Financiamento Estudantil), que ajudou 160 mil alunos a se formarem. "Fui à Colômbia conhecer os programas de financiamento do ensino superior privado e trouxe o modelo para cá. Depois implantamos o Bolsa Escola, programa nacional de transferência de renda, que deu origem ao Bolsa Família do atual governo", diz.

Floriano está nas ruas. Faz questão de andar pela cidade, estar em contato direto com o público para quem ele dedica o seu trabalho. Conhece pelo nome muitos dos habitantes que dormem no nível do chão de concreto. Foge do tradicional isolamento do político clássico, e ressalta: "Quando você é dirigente público tem uma tendência, criada pelo próprio instituto burocrático, de ficar refém de seu gabinete. E você pouco a pouco vai perdendo a sensibilidade, vai criando uma crosta que te isola da sociedade. Eu sempre soube disso e nunca gostei de trabalhar em gabinete. Então, eu tinha uma secretária executiva que tocava a parte burocrática, a Paula Galeano. Assim saí da burocracia e fui para as ruas. Isso fez com que eu pudesse rapidamente captar as demandas, os anseios, as preocupações e negligências dos sem-casa e imediatamente colocar tudo isso dentro da burocracia".

 

Três anos, três meses e quatro dias

São Paulo tem 3,4 milhões de pessoas pobres, que vivem com até meio salário mínimo. Desses, 1,4 milhão é de miseráveis, estão abaixo da linha de pobreza, segundo a Fundação Seade. Parte desse contingente imenso vai parar nas ruas. São 12 mil pessoas dormindo ao relento. Para criar oportunidades de emprego e moradia aos desabrigados, Floriano buscou a integração entre o poder público e organizações não-governamentais. A articulação em rede proporcionou um conjunto de ofertas e produtos mais atrativos do que os encontrados no submundo urbano. "Ao perceberem que podiam contar com a mesma renda obtida nas ruas, que é em média R$ 150 mensais, muitos aderiram aos programas espontanea­mente, sem precisar de imposição, fiscalização nem o policiamento do prende e arrebenta", conta ele. "É uma questão de custo de oportunidade. Afinal, ao contrário do que disse o ex-diretor da Facul­dade de Medicina da Bahia [Antônio Dantas declarou que "o baiano só toca berimbau porque tem uma corda"], somos todos dotados de inteligência, ricos ou pobres", conclui.

Floriano gosta de dizer que ficou na Secretaria de Assistência e Desenvolvimento Social por exatos três anos, três meses e quatro dias. Saiu porque resolveu candidatar-se a vereador pelo PSDB, partido ao qual está filiado desde sua fundação, em 1988. "Deixei a secretaria por força da legislação eleitoral, que o obriga a sair da função pública seis meses antes do pleito. O parlamento, que é a caixa de ressonância da sociedade, precisa representar os mais diversos espectros dessa sociedade. E hoje posso garantir que a Câmara de São Paulo não a representa. Do ponto de vista de seu conteúdo, a Câmara paulistana está entre as piores do Brasil. E eu entendo que São Paulo merece mais. Estou indo para a eleição com uma idéia fixa, que é a defesa do desenvolvimento social na cidade a partir do desenvolvimento local e sustentado."

 

Sonho sim. Utopia não

Casado há 13 anos com a psicóloga Maria Eugênia, Floriano tem dois filhos. Rodrigo, de 12 anos, e Fernando, com 8. Ambos nascidos em Brasília. "Esses três anos à frente da secretaria foram me dando uma certa aversão às expectativas materiais. Hoje entro no shopping e penso: caramba, será que eu preciso de tanta roupa? Criei um certo desapego às coisas materiais. E eu passei isso para meus filhos. Pelo menos uma vez por mês eles iam a um abrigo comigo. Uma vez levei o Rodrigo naquele albergue embaixo do viaduto Jacareí, em frente à Câmara Municipal. Ele ficou impressionado quando viu os cerca de 300 moradores de rua que estavam ali. Quantas crianças de classe média já viram essa realidade? Acho que isso tem um impacto na formação de conceitos como o da justiça social. Porque ou todo mundo trabalha por isso ou nós vamos viver sempre num estado de choque, de violência, de frustrações", acredita o ex-secretário. E arremata: "Meu sonho é viver em uma cidade que não tenha gente pobre e miserável, que a gente consiga elevar essas pessoas do ponto de vista econômico, cultural, educacional, que a gente possa viver com mais eqüidade. E não é um sonho utópico, é plenamente possível. Não quero acabar com os pobres, quero acabar com a pobreza".

Floriano não dorme bem. Especialmente nos últimos anos, dormiu muito pouco, cinco horas por dia. "É muita ansiedade, eu vivo angustiado. Não é fácil cruzar as margens dos rios, ir pro Grajaú, Parelheiros, Campo Limpo e ver as condições em que as pessoas estão vivendo, no meio de ratos, com as crianças doentes por brincarem nos córregos contaminados. Mas eu sou uma pessoa feliz. Tudo isso que eu fiz nesses 13 anos, fiz com muito tesão, muita garra. Eu amo o que eu faço." Mas, então, como relaxar? "O momento em que eu fico mais sossegado, numa certa paz de espírito, é quando estou em casa, com minha mulher e meus dois filhos. A gente se tranca em casa, os quatro, pra jogar ou ver um filme junto. Esse é um momento de profundo relaxamento intelectual, quando me sinto em paz."

 

*Quem é o morador de rua brasileiro?

    O Brasil fez recentemente uma pesquisa inédita para traçar um perfil da população em situação de rua. Resultado de uma parceria entre a Unesco (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura) e o Ministério do Desenvolvimento Social, a pesquisa foi divulgada em abril e revela que a maioria dos moradores de rua brasileiros trabalha e tem parentes nas cidades onde vivem. O levantamento, inédito, inclui 23 capitais e 48 municípios com mais de 300 mil habitantes. São Paulo, Recife, Belo Horizonte e Porto Alegre não estão no estudo. Quase 32 mil pessoas com pelo menos 18 anos de idade foram identificadas como moradores de rua nas cidades pesquisadas.
Os principais fatores que levaram essas pessoas às ruas, segundo elas mesmas, são o vício do álcool e drogas. O desemprego e, em seguida, os conflitos familiares são outras razões que teriam levado os entrevistados a morar nas ruas. 

    Segundo a pesquisa, 72% dos desabrigados afirmaram trabalhar. A maior parte deles coleta materiais recicláveis e consegue gerar uma renda entre
R$ 20 e R$ 80 por semana. Apenas 16% disseram pedir esmolas para sobreviver. E 52% têm ao menos um parente na mesma cidade onde vivem. Quase 90% dos moradores de rua não recebem atendimento de programas governamentais e 82% são homens. Desses, 53% têm entre 25 e 44 anos. 70% dormem na rua e 22% em albergues. A pesquisa aponta ainda que 80% fazem ao menos uma refeição por dia.

 

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