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No ápice

Morre o brasileiro que encarou o desafio de atacar o cume do Everest sem cilindro de oxigênio, sem guia, sem telefone

Por Redação

em 18 de maio de 2006

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Na madrugada desta sexta-feira, 19 de maio, o alpinista brasileiro Vitor Negrete, 38, entrou em contato com o apoiador que o auxiliava no ataque ao cume do Monte Everest iniciado na segunda-feira.

 

Era a primeira notícia do montanhista paulista desde a quarta-feira passada, quando, por um telefone satelital, a 8.300 metros de altitude, comunicara ao apoio notícias preocupantes: seu depósito de mantimentos no acampamento dois fora assaltado e seu colega, o alpinista David Sharp, havia morrido.

 

Sem guarnições para a descida, com a bateria do celular no fim, sem parceiro e nem guia, Negrete partiu para a etapa decisiva. Sozinho, pela face norte tibetana, Vitor chegou ao teto do mundo em 2005 com a ajuda de oxigênio suplementar. Desta vez, realizou um feito inédito entre os brasileiros: conquistou o topo sem o cilindro de ar.

Durante a descida, o montanhista entrou em contato por rádio com o sherpa e pediu socorro. O apoiador encontrou Negrete e o levou ao acampamento três, prestando o socorro possível. Às duas horas desta manhã (horário do Nepal), acolhido dentro de uma barraca, o alpinista brasileiro morreu.

Segundo informações da assessoria de imprensa, o corpo de Negrete será enterrado no Everest.  

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A decisão do ataque de ontem se deveu a uma janela de bom tempo prevista para durar até esta sexta. Mas aconteceu num momento crítico da expedição da qual participava, organizada pela Asian Trekking Logistics.

 

Primeiro houve um descompasso na aclimatação entre ele e seu parceiro, Rodrigo Raineri, que em 2005 chegou a 50 metros do cume e voltou por questão de segurança. A dupla da Try On Go Outside se equilibra com a força do primeiro e a técnica do segundo, mas Rodrigo, com problemas na garganta, voltou ao acampamento-base e pretende se recuperar para subir no dia 25, quando é prevista uma nova janela de bom tempo.

Depois, ao chegar ao acampamento dois, Vitor encontrou o malásio Ravi Chandran que, com os dedos das mãos congelados, desceu às pressas na tentativa de evitar amputá-los. Em seguida chegou a confirmação da morte do inglês David Sharp, 34, que estava desaparecido e tentava o cume sem companhia.

Ambos faziam parte do grupo de 13 pessoas organizado pela Asian Trekking Logistics. E, como se tudo isso não bastasse, ao voltar ao acampamento dois para os preparativos finais para o ataque, constataram que os equipamentos e mantimentos da expedição haviam sido roubados.

“Não sei o que mais de má notícia pode chegar, mas mesmo assim eu continuo” garantira Vitor por telefone, com voz determinada enquanto se ouvia a crise de tosse de um companheiro ao fundo.

A tal janela de bom tempo deve promover um tráfego intenso de alpinistas rumo ao cume. Isso pode parecer absurdo, não mais do que haver assaltantes a 8000 metros de altitude, mas é um fato já relatado no livro Ar Rarefeito, de John Krakauer, na fatídica temporada de 1996.

Pensando nisso, a expedição da Adventure Consultants, empresa fundada pelo neozelandês Robb Hall, um dos protagonistas da história de Krakauer e morto naquele ano, preferiu adiar o ataque para amanhã.

Nesse grupo está Ana Elisa Boscarioli, 40, cirurgiã plástica paulista que faz sua primeira tentativa no Everest. Ano passado Ana se tornou a primeira brasileira a fazer um cume acima dos 8000, conquistando o Cho Oyu, 8201 metros, lá mesmo na Cordilheira do Himalaia.

Com essa credencial ela contratou os serviços da empresa neozelandesa, dos mais competentes e caros, para concluir o projeto de ser a primeira mulher brasileira no topo do mundo. Ela e a única mulher no grupo, iniciado com nove integrantes dos quais cinco seguem na tentativa feita pela face sul, a do Nepal.

Além dos três brasileiros, o casal Helena e Paulo Coelho segue na linha purista, sem patrocínio, guias ou oxigênio, e tenta pela oitava vez alcançar o ponto mais alto do planeta, uma aventura que apesar das preces à Deusa da Montanha, feitas na Pudja, a cerimônia budista para pedir licença e proteção aos alpinistas, continua fazendo muitas vítimas.

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