Nas nuvens
Bolívia é o pico ideal para todos alpinistas. A seguir, o relato de quem foi, subiu e delirou
Por Redação
em 21 de setembro de 2005

Que vontade de gritar! Assim abria o paudurescente e-mail enviado pelo alpinista e engenheiro de alimentos Vitor Negrete, alguns dias antes de o resto da galera rumar para La Paz. A verdade é que a Bolívia é o paraíso possível para o escalador – além de ser barata, segura e perto do Brasil. Com cerca de 30% do seu território em terreno andino, o país tem mais de mil (yes!) montanhas acima de 5 mil metros, muitas das quais nunca escaladas ou sequer batizadas. A Associação Boliviana de Guias de Montanha leva sua missão tão a sério que seus membros são respeitados até nos fechados círculos de Chamonix, França. Como se não bastasse, as montanhas são muito acessíveis: entre o aeroporto mais próximo e o acampamento base, gasta-se cerca de três horas até o Huayna-Potosi, primeiro objetivo de nossa pequena expedição – já para chegar ao Aconcágua, na Argentina, perdem-se três dias.
Após cerca de uma semana de aclimatação, a equipe da Expedição Bolívia 2002 – formada, além de mim e do Vitor Negrete, pelo alpinista profissional Osvaldo Azimut, pela cirurgiã plástica Ana Elisa Boscarioli e pelo ortopedista Paulo Boscarioli – chega ao local de montagem do acampamento alto, a cerca de 5 100 metros, de onde partimos para a empreitada final. Acordamos à uma da manhã e subimos o glaciar sob a lua cheia – ao fundo, as luzes de La Paz. O ar gelado e cristalino da noite, a grandeza das montanhas à sua volta e o suave e contínuo barulho dos crampons (espécie de sobre-sola de metal com 12 pontas presa às botas rígidas para não escorregar) entrando no gelo compõem uma atmosfera de sonho. É fácil colocar o corpo no automático e deixar a mente divagar.
Parede de 100 metros
O frio aperta forte logo antes da alvorada. Às seis da manhã chegamos ao centro de um semicírculo espetacular. À frente temos uma parede de 800 metros de gelo, repleta de seracs (grandes blocos de gelo de até 30 metros de altura) precariamente equilibrados. À esquerda, uma curva suave e logo depois 600 metros de uma rampa congelada. Atrás é todo o glaciar, com suas mudanças de declive, gretas e sumidouros. À direita, há uma parede de 100 metros quase vertical, levando a uma aresta suave e convidativa. É por lá que, com a ajuda das piquetas, estacas e cordas, nós vamos.
Escalamos a aresta e, depois de algumas curvas e subidas, avistamos a pala, uma parede de gelo de cerca de 400 metros que leva diretamente ao cume. Sinto o cansaço: é só fechar os olhos que o sono vem com força, amortecendo tudo e deixando um leve torpor. Descanso um pouco e penso: Como é que vou subir isso?. A resposta mais sincera seria: Sofrendo.
La Paz, afinal
A parede é tão inclinada que temos que subir de quatro, dando, assim, para apoiar a cabeça nela e olhar o glaciar e o vale ao redor por entre as minhas pernas. Cansados, subimos muito devagar e chegamos à pala com sol a pino. O gelo derrete a olhos vistos e a cada chute, em vez de as duas pontas frontais dos crampons se fixarem na parede, abre-se um buraco de onde o pé teima em escorregar. Após cerca de duas horas subindo, meu ritmo se reduz a uma parada de dois minutos para cada dois metros verticais. À direita, nas pedras, é possível ver as cruzes de ferro marcando os pontos onde aconteceram acidentes fatais.
Por fim, a 6 088 metros, o cume. Chego tão no osso que não tenho forças para comemorar. Sento e fico olhando a vista ao redor, primeiro com o rosto tenso do esforço e depois com um sorriso meio bobo. Ficamos uns 10 minutos por lá e iniciamos a descida, sabendo que cerca de 80% dos acidentes ocorrem nessa etapa. Voltamos ao refúgio às sete da noite, após um ataque de 18 horas. Às dez da noite já estamos em La Paz, onde tomamos o primeiro banho em mais de uma semana e saímos para comer carne e tomar uma cerveja.
E rir solto: a Bolívia é o paraíso!
AC Soares
Vai nessa
Um roteiro completo para chegar fácil, fácil ao céu
Passagem SP – La Paz – SP
Lloyd Aéreo Boliviano: R$ 1 669
Varig: R$ 1 964, ou 20 mil milhas no Smiles
(Fonte: www.decolar.com.br)
Estadia
Em La Paz:
Hotel Rosário (www.hotelrosario.com), US$ 28 por um quarto de solteiro
Hotel Sagárnaga, tel. (519-2) 35 02 52, hotsadt@ceibo.entelnet.bo
Na base do Huayna:
Refúgio Huayna-Potosi, tel. (591-2) 45 67 17 ou 6193 3771, bolclimb@mail.megalink.com
Operadores de alta montanha
A partir de São Paulo, com guias brasileiros e bolivianos: Grade VI (www.grade6.com.br), a melhor operadora de alta montanha do Brasil.
A partir de La Paz, com um operador local: Colibri S.R.L. (www.colibri-adventures.com),
que conta com Alain Mesili entre seus guias.
A partir de La Paz, com um operador internacional: Alpine Ascents International
(www.alpineascents.com), uma das mais conceituadas operadoras de alta montanha do mundo.
Livros
Los Andes de Bolivia, Guia de Escaladas, de Alain Mesili,
Producciones Cima
Encomendar direto em La Paz: tel. (519-2) 20 33 53 ou 7158 2376
350 Pesos Bolivianos, cerca de US$ 50
Bolivia, A Climbing Guide, por Yossi Brain e Paula Thurman, The Mountaineers
Amazon.com, por US$ 16.50
Livraria Cultura, por R$ 62,88
Lonely Planet Bolivia, de Deanna Swaney, Lonely Planet
Amazon.com, por US$ 15.39
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