(Continuação…)
Fomos levados até o DEIC, no prédio da Brigadeiro Tobias. D. Pintado, tira que me capturara, nos conduzia, auxiliado por outro policial magro. No terceiro andar, chegamos à sala da equipe. Os olhos do policial faiscavam e prometiam dor. O magrelo mandou que nos despíssemos. Como me demorei, minhas roupas foram rasgadas. Nossos pulsos e pernas foram envolvidos em bandagens de pano. Eu sabia, não queriam deixar marcas. Nós se-ríamos pendurados no pau-de-arara. Tremi por dentro. Mendigo de mim, estendi a mão à minha senhora. Uma compaixão indescritível escorreu pelos meus olhos.
Entre duas escrivaninhas, lá estávamos, meu companheiro e eu, nus e amordaçados, pendurados como frangos assados no espeto. Um cano escavava buracos por trás de meus joelhos e por cima de meus cotovelos. Fios ligados a geradores elétricos estavam enrolados na glande de meu sexo e enfiados em meu ânus. E lá vinha o choque. A cada girada de manivela o choque socava o corpo todo num único golpe. O sexo queimava, tudo ardia. Eles queriam que disséssemos onde estavam aqueles que fugiram. Eu não sabia. E, mesmo que soubesse, não poderia dizer. Eu não resistia, não suportaria nem agüentaria. Apenas estava vivo enquanto a vida parecia me fugir ao longe.
Então chegaram os outros tiras que haviam levado os colegas ao hospital. Havia cerca de vinte homens na sala me batendo. Dois subiram nas escrivaninhas para melhor chutar minha cara e pisar na minha cabeça. Eu colhia no ar que ainda conseguia respirar toda força de minha duração. Não sabia se estava mais perto ou se já terminara a caminhada e não necessitava seguir mais. Qualquer esforço soava inútil. Seguia, querendo ou não, qual fosse impossível parar. Os segundos, maiores que as horas, se decompunham em decadência e desmoronamento. Naveguei perdido contra as sombras que se demoravam como um mar infinito.
Sobreviver é preciso
Caminhai em territórios desconhecidos. Mares e marés remontaram e a vida se foi, completamente. Acordei alta madrugada. O xadrez era enorme. A primeira consciência foi de dor. Tudo doía. Estava meio descentrado, desconfiei até que estivesse morto. Algo me oprimia, não conseguia me mover. Os olhos não abriam. Por baixo das pálpebras vi que estava amarrado. Os pulsos e tornozelos, nu. Engoli minha solidão com sangue e pessoas impossíveis. Um resto de mim queria reagir. A maior parte queria ser absorvida pelo tempo, absolutamente.
Estiquei a pálpebra, descansei da idéia, remotamente vivo. Telinho estava próximo. Olhava-me. Havia dado idade de menor de 18 anos. Pegaram mais leve com ele. Estava inteiro. Grunhi que me desamarrasse. Pedaços de sangue saíram da minha boca para minha cara. Recusou-se. Se o fizesse, os tiras haviam ameaçado: fariam o mesmo com ele. Xinguei, ou melhor, tentei xingar. Cuspi. Ele entendeu, arriscou-se a me desamarrar. Disse que eu estava feio na foto. Meus pés e minhas mãos eram uma ferida só, em carne viva. Haviam arrancado as unhas das mãos e dos pés, batendo com palmatórias nas pontas, enquanto estava pendurado. Minha cara era um hematoma.
Alguma coisa amortecia. Uma dor fina substituía todas as dores. Uma sonolência, pensei que estivesse morrendo. Minhas camadas diferenciaram-se, superpostas, invertendo-se. O mundo se rasgava sobre rochas e me embriagava de sua intensidade. Algo de subterrâneo fluía constelações e brilhava em meus olhos perdidos de surpresa. Estava feliz, já não sofria. Festa de fogo crepitava, calorzinho gostoso desembainhava-se, envolvendo-me. Quie-ta, uma luz meio mole me suspendia. Eu sobreviveria, como o vermelho vivo das primeiras flores
*Luiz A. Mendes, 51, está preso há 30 anos ? lembra do primeiro dia como se fosse hoje. Seu e-mail é mendes@revistatrip.com.br
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