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NÃO DÁ PRÁ SEGURAR!

Quanto mais aparentemente esdrúxulo o assunto, mais cartas e e-mails de cúmplices, que escrevem com a satisfação de vingados

em 21 de setembro de 2005

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Dois motivos principais me mantém motivado a continuar escrevendo sobre assuntos, à primeira vista insólitos.
Em primeiro lugar, o relevante fato de que quanto mais aparentemente esdrúxulo o assunto, mais cartas e e-mails de cúmplices,que escrevem com a satisfação dos vingados, daqueles que sempre quiseram discutir o assunto mas tinham medo ou constrangimento de fazê-lo em público. Por último, a leitura diária dos jornais, encoraja pessoas de bom senso, a dedicar seu tempo a qualquer coisa que não seja a ordem do dia. Por exemplo, você gostaria que este artigo falasse da Vaca Louca? De Inocêncio de Oliveira? Da cobertura que Celso Pitta alugou em Miami? Da nova cabeçada que Marcelinho deu num adversário? Do novo pedágio da Castello? Qual a real definição de insólito?

Bem, feito o discurso introdutório, e na esteira das dezenas de cartas recebidas por conta dos dois artigos tratando das novas lâmpadas frias que invadiram o Brasil com sua luz de U.T.I.; lanço-me a mais uma tarefa inglória da série ‘Assuntos obscuros’:

O BLUES DA EMBALAGEM

É verdade, quem se presta a ler estes textos com alguma frequência, já notou o quanto eu e o resto do Brasil nos ressentimos de bons arquitetos, designers, urbanistas, paisagistas, designers de luz, e outros profissionais da sutileza.
Aí vai outra categoria paradoxo, na qual temos ao mesmo tempo gênios e idiotas conseguindo disputar mercado em igualdade de condições: Designers de embalagens.

Tenho uma conhecida sexagenária que se vê a cada dois meses amaldiçoando de forma violenta toda esta categoria. É que em geral neste intervalo, a dama que se orgulha de sua independência, é obrigada a descer de seu pedestal de dignidade e auto-suficiência e chamar um homem, raça da qual julgava-se livre desde o climatério, para que usando da força muscular, arremesse o garrafão de água com o bico na direção daquela base onde fica a torneirinha, da qual se serve com o fim de não desidratar sua cansada carcaça neste verão senegalês.
Estes garrafões azuis são tão desajeitados e pesados, que algum Cristo poderia já ter percebido que a simples colocação de uma torneirinha na parte larga da base, não só eliminaria a necessidade de chamar Tamer Chaim para erguer o mastodonte, mas também jogaria no lixo as hoje inevitáveis bases brancas, caras e dispensáveis. Isto sem falar no lacre mais intransponível que as propaladas virtudes de Britney Spears, que fecha o bocal.
Que tal chamar o mesmo genio que colocou as rodelinhas de plástico sobre um furinho no alto das tampas de requeijão, fácilmente removíveis com a unha. Quantos talhos nos dedos e facas tortas não foram poupadas com essa brilhante invenção do design?

BOLACHA MOLE

E os panetones? Quanto mais leve e alegre não seria o espírito de natal se estas jóias do mundo dos confeitos não fossem acondicionadas em caixas, que apesar de caríssimas, não tem em cima nem em baixo, requerem facas de serra para serem abertas, e uma vez rompidas tornam-se tão inúteis quanto bicicleta ergométrica em casa de praia.
Quantos casamentos terão de ser rompidos até que alguém se digne a resolver o insolúvel problema dos anti-higienicos e anti-práticos tubos de pastas de dentes, verdadeiros monumentos ao desperdício?

Last but not least, fica o registro de um protesto veemente contra a indústria de biscoitos, bolachas e assemelhados.
Depois de séculos de embalagens absolutamente insensíveis ao contato humano, alguém resolveu aplicar aquelas fitinhas vermelhas que quando puxadas dão a volta na embalagem, revelando seu conteúdo. Abrir, ficou bem mais fácil, guardar porém tornou-se um suplício, e, a não ser que você costume devorar um pacote a cada refeição, está irremediavelmente condenado a comer bolachas moles e xôxas para o resto da vida, mesmo que copiando o recurso usado pelas crianças com os igualmente infelizes envólucros de sucrilhos kellog´s, lance mão de prendedores de roupa mordendo as pontas dos saquinhos.

Peço a compaixão dos fabricantes, a dedicação dos designers, e o empenho dos leitores enviando outros casos de embalagem-aberração para denúncia.
Afinal, já não bastam Pittas, vacas-loucas, Marcelinhos e Inocêncios para infernizarem nossas existencias?

PALAVRAS-CHAVE
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