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Não chegou ao fim

em 21 de setembro de 2005

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A mídia coloca a violência que ocorre aí fora de tal modo que me preocupa seriamente. O que vou fazer eu, um homem de 49 anos, alquebrado por 29 anos de prisão, acostumado à monotonia da cadeia e louco por um pouco de paz, em meio a tanta violência? Serei assaltado ou morto na primeira esquina que dobrar? E meus filhos pequenos, como protegê-los? Será exigido de mim um comportamento de santo para permanecer aí fora. Ao menor vacilo, serei reconhecido – e a chave da cela pode até ser jogada fora.
O que vou fazer? Se queriam me assustar para que eu não saísse de casa e ficasse assistindo TV e lendo jornais, conseguiram. Só que não sou nem um pouco rico. Muito pelo contrário. Necessito ganhar a vida, sustentar meus meninos. Preciso sair à luta.
Admito. É o cúmulo: um presidiário temendo a violência da liberdade. Soa até abusivo. Passei a maior parte da minha vida preso por ter sido violento em minha adolescência. Agora maduro, depois de 29 anos de prisão, perto de sair, confesso-me assustado. Passei décadas lutando contra meus impulsos, disciplinando minha agressividade, educando minhas vontades e instintos. Virei um homem de cultura. Passei anos ensinando, tornei-me professor. Vivo a aconselhar compa-nheiros mais novos, incautos, sobre a importância do estudo e da educação. De repente, querem me convencer de que o mundo lá fora é uma selva e que eu devo estar preparado para enfrentá-lo a ferro e fogo.

Sonhos esmagados
Será necessário me prover das armas, que alijei de minha natureza, na luta por me tornar um cidadão sociável? Estou convencido de que violência é a ausência de educação. Tenho certeza de que o homem educado não invade, não se apressa. Pelo contrário, valoriza-se no que produz. Orgulha-se em oferecer o melhor de si. Sabe do que é capaz e acredita em si mesmo. Transforma-se em operário da causa humana. Tenho lutado para me orientar por tais convicções esses anos todos. Agora querem me levar a questioná-las.
Viver é, sem dúvida, tentar compreender o que acontece em torno de nós. Venho entender e penso que talvez eu tenha me entupido de teorias e esquecido como sempre foram duras as lições da vida. Será que terei novamente meus sonhos esmagados?
Às vezes não consigo dormir pensando nas responsabilidades que tenho dentro desse mundo assustador. Depois, penso: tudo o que posso fazer é agir de acordo com minha consciência. Minha paz não pode depender do que não depende de mim. Tudo o que posso fazer é sair e tentar a felicidade, sem medo.
No fim, há de dar certo. Se não der, é porque, provavelmente, ainda não chegou ao fim.

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