por Gustavo Cabral
Trip #214

Representantes do surf feminino falam sobre a arte de derrubar preconceitos com charme

Nem tudo no surf é praia e boas vibrações. Para as garotas o machismo ainda é um desafio tão grande quanto as ondas. Conversamos com Roberta Borges, Cláudia Gonçalves e Maya Gabeira, três representantes do surf feminino brasileiro, sobre a arte de derrubar preconceitos com charme e graça

Surf é coisa de homem. E quem discorda que prove o contrário. E, bem, desde que a santista Margot Rittscher (falecida recentemente) subiu em sua “tábua havaiana” em 1936, as brasileiras têm provado, cada vez mais. Os números ainda favorecem os machos. Nos rankings atuais da ASP, a Associação dos Surfistas Profissionais, há 150 mulheres para mais de 700 homens.

“O apelo de esportes que envolvem ação, risco e natureza tem ligação com o sentimento de dominar o ambiente e controlá-lo”, explica a psicanalista Joana de Vilhena Novaes. “E a cultura da virilidade tem muito a ver com essa relação com o poder de dominação.”

Seja como for, de geração em geração esse desequilíbrio numérico vem diminuindo, na mesma proporção com que os clichês são derrubados – vide a linda campeã mundial Lisa Andersen, que, já nos anos 1990, quebrou a ideia de que somente mulheres masculinizadas poderiam “surfar como homens”.

Entretanto, muitas questões permanecem. Como é a disputa da mesma onda entre homens e mulheres? Quanto o surfista depende da força? E os desfiles e anúncios com mulheres de biquini, incomodam?

Para discutir essas e outras questões, reunimos três turmas muito diferentes da história do surf feminino brasileiro. Roberta Borges, 49 anos, campeã brasileira em 1985 e hoje fotógrafa e sócia da revista Ehlas, Cláudia Gonçalves, 27 anos, competidora na elite nacional do esporte há quase uma década, jornalista, modelo e sócia de Borges na Ehlas, e Maya Gabeira, 25 anos, especialista em ondas grandes, multipremiada no exterior e filha de Fernando Gabeira, conversaram entre si, cada uma em sua casa – em Porto Alegre, Guarujá e Los Angeles –, sobre preconceito e superação. E para concluir que o machismo está muito além de onde podemos ver.

Por que o surf é um esporte tão masculino?
Maya: Acho que o surf tem uma questão que inibe muito as meninas, que é o ambiente no qual ele é praticado. Conheço muita mulher que, de cara, diz que não é pra ela, que não se sente confortável no mar, que é um lugar de condições adversas.
Roberta: O mar é incontrolável, é preciso aprender a controlar a situação. A Maya é experiente em onda grande, esse ponto que ela colocou, de lidar com a força e com o inesperado, é um dos principais.
Cláudia: A dificuldade do surf é maior que a de outros esportes. Amedronta. Muitas meninas começam, mas acabam desistindo.
Maya: Tenho bastante dificuldade na água com a atitude dos caras. Não é como os tenistas, que fecham uma quadra e treinam em ambiente controlado. A gente entra numa disputa acirrada com profissionais e não profissionais, de todos os lugares do mundo. É difícil uma mulher se colocar ali no meio e sair batendo pé na cara dos outros, entendeu? Brigar pela onda é uma coisa complicada pra mim, até hoje. Fora da água, no ambiente de viagem também é ruim. É difícil ficar em um grupo de meninas. Nesses dois sentidos sinto uma grande diferença em ser mulher, por estar sempre em ambientes masculinos. Não é a coisa mais confortável.
Cláudia: É até amedrontador. Ainda mais no seu caso [de Maya], que enfrenta o universo de onda gigante, tem que disputar mesmo, e na maioria das vezes os caras te olham com cara feia, tipo “o que você tá fazendo aqui?”. Como se você estivesse invadindo o ambiente deles.
Maya: Em onda pequena também. Tem uma quantidade de ondas que entram a cada tantos minutos, as que você pegar, eles não vão poder surfar. Normalmente são legais e deixam você com as piores do dia.
Roberta: Esse é um dos exemplos mais fortes de machismo, quando a mulher disputa a mesma onda com o cara. “Essa mulher vai pegar onda na minha frente?” É como se estivessem sendo humilhados, perdendo para uma mulher.
Cláudia: Principalmente quando você está no maior crowd de homem, treinando. Você está posicionada para uma onda, dois ou três trogloditas remam na sua direção, olhando tipo “você não tem mais remada que eu, você vai mesmo?”. Você tem que remar que nem louca, fechar a cara e dizer “vou, a onda é minha, estou na prioridade e vou!”. Tem menina que se sente amedrontada e puxa o bico. Eles não aliviam, é a hora em que mostram qual sexo predomina. Você tem que se impor, mas tem que se impor mesmo, senão não acontece.

 

“Você está posicionada para a onda e três trogloditas remam em sua direção. Tem que se impor. Mas se impor mesmo”


Vocês sentem que o preconceito vem diminuindo com o tempo?
Roberta: Com certeza. Comecei a surfar em Torres em 1978 e várias mulheres surfavam. Mas, quando saía de lá, às vezes tinha até um pouco de... não exatamente vergonha, porque sempre assumi tudo que fiz, mas era muito estranho uma mulher pegar onda, sabe? Hoje, quando falo que surfo, todos acham bacana. Ninguém achava. Sempre tinha aquela comparação: “Parece um homem”, “Tá se metendo no meio deles” etc. Eu pensei que o movimento do surf feminino seria muito maior, surgiu pouca gente até agora, mas ajudamos a quebrar um monte de tabus. Minha filha pega onda comigo, as amigas dela. Nem falo surf competição, mas lifestyle mesmo.
Maya: Hoje em dia tem mais meninas dentro da água, mais femininas, por esse lado virou um esporte menos masculino. Mas, pelo fato de a sociedade ser machista e de o surf ser um esporte na natureza, ligado à força, o preconceito ainda existe e não sei se vai desaparecer.

Alguma vez vocês ouviram que “surf é coisa pra homem”?
Roberta: Nunca me disseram na cara. Eu sentia com olhares, inclusive das mulheres na areia.
Cláudia: Já me falaram em um palanque de campeonato. O mar estava horrível e a competição foi interrompida porque os homens não queriam surfar. Um falou: “A gente não vai cair, mas joga a mulherada no mar”. Como é que alguém diz isso? Reclamei com ele,que respondeu:“mulher não tinha nem que surfar, não sei nem o que você está fazendo aqui”. Em uma situação que está rolando título, dinheiro, eles não enxergam que as mulheres estão disputando as mesmas coisas que eles.

E o cuidado com a aparência, pesa?
Cláudia: Ah, é uma dificuldade a mais pra mulher. Todo atleta quer dar o máximo, ser o melhor. O surf tem a exposição solar, a água salgada. Quanto mais treino, mais o cabelo fica podre, a pele ressecada e o ombro gigante. E a mulher tem essa preocupação com o corpo, o receio do estereótipo masculinizado. De algumas coisas não dá pra fugir, se seu corpo ficar de uma maneira que você não gosta, paciência. Como disputar uma onda com um homem se você for um fiapo? Na época da Roberta, era mais forte essa história de que mulher surfista é macho, lésbica, feia. Mostramos outro lado do surf feminino, que você pode ser radical, dedicada, e ao mesmo tempo bonita, feminina.

 

“É da natureza do homem apreciar, ver aquelas bundas incríveis. Não é machismo”


Concurso de “miss biquíni” é machista? Em campeonatos para mulheres, cabe isso?
Roberta:
Tem que ter mister sunguinha [risos]!
Maya: Não consigo classificar isso como machismo, é da natureza do homem apreciar, ver aquelas bundas maravilhosas, incríveis, grandes. Junta um monte de atleta cheio de fogo. Elas adoram mostrar aqueles biquínis pequenos, os caras ficam amarradões. Não vejo problema. Só não conseguiria ser aquela menina, ficaria inibida, mas cada um é cada um.
Cláudia: Querendo ou não, é um ambiente que tem muito mais homens do que mulheres, e é um atrativo para o público. Você anuncia um monte de bunda desfilando, lota a praia, a galera até perde a atenção no mar. Virou meio que um símbolo de marcas e do esporte também. Mas tem mulheres e mulheres, as que ficam felizes expondo a bunda, as que entram no mar pra pegar ondas. Cada uma tem um foco. Tem quem ache absurda essa exposição, mas é da cabeça de cada pessoa. Como a Maya, não me vejo fazendo aquilo, mas cada um com seus problemas.

Houve uma marca de surfwear muito criticada por suas campanhas que, nos anos 1980 e 90, mostravam bundas de modelos, sem mostrar seus rostos.
Maya: Me incomodam mais marcas de surf que contratam modelos para estrelar suas campanhas, em vez de usar atletas. Botam mais dinheiro de marketing para contratar uma pessoa que não significa nada pro esporte. Isso não existe no masculino. Pra mim, é errado.
Cláudia: Isso é muito importante. A gente vive do esporte, é a cara da marca, e para fazer propaganda desembolsam uma grana para contratar uma menina que não tem nada a ver com o conceito de surf. Porque acham que a atleta não cabe ali, não tem perfil, não é uma anoréxica ou coisa parecida. Acho um absurdo pagar uma pessoa para estar no lugar de uma atleta que é paga teoricamente para fazer isso.
Roberta: Sempre foi assim e nunca consegui entender. No surf, especialmente. Até um tempo atrás as mulheres não eram tão gatinhas, mas hoje são lindas, pegando onda e tudo.
Cláudia: Como aquele ensaio incrível que a ASP fez com as meninas do tour. Estamos falando das melhores surfistas do mundo. As fotos ficaram sensacionais, qualquer marca poderia usar. Mas só um ou outro patrocinador usa em campanhas. É ridículo.
Maya: Isso é um problema. Um pouco de machismo, mostra que muitas empresas são lideradas por pessoas que ainda têm essa imagem equivocada do surf feminino. Participei da “Body Issue” da revista ESPN [em fotos nuas] porque era uma homenagem ao corpo dos atletas. Quis mostrar que as surfistas podem ter o corpo que precisamos ter para praticar o esporte sem deixar de ser feminina.

A melhor forma de encarar o machismo é ignorá-lo?
Maya: Eu ignoro.
Roberta: Se você quer continuar, se está ciente do que gosta, da sua atitude, você ignora. Senão fizéssemos assim, nenhuma de nós tinha continuado a fazer o que faz.

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