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por Steven Allain
Trip #220

Dane Reynolds, o surfista que tornou-se herói ao abrir mão das competições

Dane Reynolds, o surfista mais empolgante em atividade no mundo, tornou-se quase um herói ao abrir mão das competições e caminhar na contramão

Dane Reynolds redefiniu o surf no século XXI. Unindo um revolucionário jogo aéreo a doses igualmente brutais e ambíguas de força, fluidez, abandono e espontaneidade sobre uma prancha, o californiano é hoje o surfista mais talentoso do mundo. Palavra do supercampeão Kelly Slater. O brilhantismo de Dane não se mede pelo número de manobras que traz em seu repertório ou pelo histórico no cenário competitivo. Sua grandeza está no conjunto da obra. Nas linhas que escolhe para desenhar paredes líquidas. Na agressividade crua com que destrói seções ou as sobrevoa. No estilo imprevisível que transborda radicalidade poética.

Assistir a Dane surfar é como ver um artista em seu apogeu. É descobrir que a perfeição existe da maneira mais imperfeita e improvável possível. Em terra, ele é quieto e modesto, quase misterioso. Avesso aos holofotes, quando não tem para onde correr – em um campeonato ou grande evento – não esconde o desconforto. Não que seja inseguro: Dane simplesmente preferia estar em outro lugar.

Suas entrevistas são sempre uma incógnita – às vezes, reveladoras, outras vezes, enigmáticas. Três anos atrás, no Havaí, perguntei se ele sonhava com o título mundial. Depois de uma longa pausa, respondeu: “Vamos surfar, parece que o mar melhorou”. E assim terminou a conversa: fomos para a água e nunca voltamos ao assunto.

 

“Rankings e troféus significam pouco para mim. Quero aprender, quero fazer coisas, coisas com um propósito”

 

Meses depois, tive a resposta: o sucessor natural de Slater anunciou que não almejava o mesmo destino. Tornar-se um dos maiores ícones do esporte em todo o mundo não era pra ele. Remando contra a maré, aos 26 anos de idade, Dane disse chega. A notícia que sacudiu o mundo do surf, pouco mais de um ano atrás, veio na forma de uma carta publicada em seu blog. Honesto e corajoso, seu texto “Declaration of Independence” (declaração de independência) explicava, em 1.600 palavras, por que ele decidiu largar as competições e seguir seu próprio caminho. Apesar de privada de letras maiúsculas e com pontuação duvidosa, a carta é articulada e reveladora.

“venho sendo pressionado por várias pessoas e pela imprensa a escrever algo como um pronunciamento oficial sobre minha saída do circuito mundial. Minha arregada. Minha pirueta. (...) três marcas me apoiam e me permitem surfar todos os dias e viajar e comer e ter uma casa para morar. Em troca as represento de uma maneira positiva. (...) ao aceitar seu apoio eu assumo certa responsabilidade. Alguns pensam que essa responsabilidade é competir. É colocar uma lycra de competição e destruir meus adversários. Mesmo que seja através de um critério inconsistente e unidimensional onde o resultado raramente está ligado apenas à performance. Talvez esse seja o apelo. Eu não sei. Eu até gosto de competir. Mas será que acredito na competição? O suficiente para dedicar uma grande parte de minha vida para isso? (...) aventura acima da responsabilidade. Suicídio de carreira! Potencial desperdiçado. Talento jogado fora. Eu sei o que vão dizer. (...) mas rankings e troféus significam pouco para mim. Quero aprender, quero fazer coisas, coisas com um propósito, quero ser produtivo. Viajar. Novas experiências. Novas sensações. E, principalmente, explorar os limites do surf de alta performance. (...) este pode ser o fim de um candidato ao título mundial. Mas é também um recomeço.”

Se por um lado sua inédita declaração de independência foi duramente criticada por parte da imprensa especializada – que o acusou de ser um preguiçoso hipster que só queria mamar nas tetas da indústria sem assumir sua responsabilidade de atleta –, por outro, Dane tornou-se herói instantâneo para milhares de fãs em todo o mundo. Afinal, não há nada mais atraente do que um rebelde sábio e desinteressado. Ao virar as costas para as competições, a fábrica de ídolos programados para vender bermudas, Dane virou o surfista dos surfistas. Um cara anti establishment. Anticomercialismo. Anti-status quo. Um herói do underground. Um surfista de verdade.

Sua atitude genuína e indomável, unida a seu surf espontâneo e criativo, transformaram-no em um dos maiores ídolos que o surf já viu. E ele nunca venceu um campeonato. No fundo, Dane é apenas um homem de talento excepcional que preferiu conduzir a carreira de uma maneira diferente. E, se conseguiu que seus patrocinadores o apoiassem nessa empreitada, isso por si já é um feito que não anula o raciocínio que o levou a desistir das competições. Ao contrário: sua posição financeira privilegiada (especula-se que seu salário supere US$ 1 milhão por ano) lhe proporciona um escopo bem mais amplo de possibilidades. O que haveria de errado nisso?

Atualmente, Dane abre uma trilha virgem para surfistas profissionais. Diferente de qualquer freesurfer pago para produzir fotos e vídeos, sem competir, ele não segue uma rotina frenética de eterno viajante. O freesurfer comum vive em busca da onda perfeita em paraísos longínquos e exóticos – sempre com a obrigação de retornar com conteúdo para seu patrocinador – e dificilmente passa mais de duas semanas no mesmo lugar.

Dane repudiou tudo isso. Ele preza sua rotina tranquila na Califórnia, gosta da comida caseira da namorada e de longos passeios com seus três cachorros. Seu profundo conhecimento da costa de sua cidade natal, Ventura, permite que fique em casa e mesmo assim surfe muito. Poucos surfistas locais possuem um entendimento tão extenso sobre qual combinação de maré, ondulação e vento transformará uma onda ruim num tubo perfeito. Dane é mestre em decifrar essas nuances.

Não fosse pelos vídeos publicados quinzenalmente em seu blog, aguardados pelo mundo do surf como último capítulo de novela, ninguém saberia que o surf mais contemporâneo do planeta está acontecendo longe dos holofotes, numa pacata cidadezinha da Califórnia.“Dane pode não agradar a todos no mundo do surf”, explica o talentoso fotógrafo Morgan Maasen, seu amigo. “Mas encontrou um caminho próspero e confortável que alimenta a alma e dá sentido a sua vida. Isso é mais importante do que qualquer título mundial.”

*Steven Allain é diretor editorial da revista Hardcore

Vai lá: www.marinelayerproductions.com



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