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Motoboys ? vida loca

O primeiro filme sobre o tema

Por Redação

em 21 de setembro de 2005

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 Eles estão em todos os lugares, são milhares e dependem do que os paulistanos mais evitam na cidade: o trânsito. Você provavelmente já deve ter odiado um motoboy, mas também foi salvo por um deles quando a pressa apertou. A verdade é que pouco foi dito sobre eles até agora.

O documentário Motoboys ? vida loca chega para estimular uma discussão: ?Esse é o fenômeno paulistano mais polêmico da atualidade. As pessoas mantêm uma relação de amor e ódio com os motoboys. É um grupo vital para a sociedade moderna, fiel entre si, independente, rebelde e com sua própria ética e moral?, resume Caíto Ortiz, diretor da fita.
O filme faz parte da 27a edição da Mostra BR de Cinema e também será exibido em Guainases, bairro da periferia de São Paulo.

Giuliano Cedroni, roteirista do filme, ex-diretor de redação da TRIP e ex-entregador de pizza na Califórnia conversou com a gente antes da estréia do documentário:

TRIP
: Como surgiu a idéia de um documentário sobre motoboys? Por que vocês escolheram esse tema?
GC: O Caíto (Ortiz, o diretor do filme) tinha um carro popular, não ligava muito para carros, até que trocou por um importado e começou a ter problemas com motoboys. Eles se incomodam com carros grandes. Aí ele veio com a idéia: ?Precisamos fazer alguma coisa sobre eles?.


TRIP: O que mais te surpreendeu ao longo das entrevistas?
O roteiro mudou muito ao longo das entrevistas, o que às vezes é muito melhor. É diferente de quando se filma ficção. Achava que seriam todos ?cachorros loucos?, mas esse é o meio de vida de muito pai de família.

TRIP: No filme, percebemos que existe um certo orgulho da aventura e risco que a profissão oferece. Ao mesmo tempo, há um desgaste muito grande em relação à rotina.
Quanto mais jovem, maior o fascínio pelo risco que a profissão oferece. Se eles não sofrem acidentes entre os 18 e 25 anos, dificilmente sofrerão após essa idade. Para os mais velhos a profissão é uma falta de opção. A moto é uma garantia de emprego, você compra uma e consegue trabalho.

TRIP: Como você vê essa irmandade entre os motoboys, que é solidária com a ?classe? e ao mesmo tempo acua os motoristas?
Eles vivem uma dualidade. Ao mesmo tempo em que os motoboys são leais e solidários uns com os outros, são rebeldes e desorganizados. Existem dois sindicatos bem desorganizados. É uma falha deles, deveriam se organizar. Se os taxistas decidem entrar em greve, por exemplo, a prefeita conversa com eles no mesmo dia. Eles têm muito mais força.
O psicanalista Jacob Pinheiro Goldberg tem uma citação muito interessante no filme: ?No trânsito de São Paulo não existem inocentes?. Existem horas em que se fica ao lado dos motoristas e outras do motoboy. Eles não sabem que são odiados pelos motoristas. As pessoas me perguntam sobre a conclusão do filme, mas não existe uma.


TRIP: Qual o critério para a seleção dos entrevistados?
Tínhamos que ouvir os motoristas. Quisemos entrevistar profissionais de diferentes áreas, envolvidos com a imagem (J.R. Duran), publicidade (Washington Olivetto)…O trânsito de São Paulo é como a praia carioca: democrática. No engarrafamento, não importa se sou branco, negro ou pobre. Nos créditos, citamos os entrevistados (famosos ou não) da mesma forma, são todos motoristas.

TRIP: Qual a principal dificuldade que encontraram para a realização do filme?
As dificuldades são as do cinema independente: dinheiro e patrocínio. Não cobrimos os gastos que tivemos. Eu, por exemplo, não recebi meu cachê ainda.

TRIP: Qual a dificuldade que encontraram para levantar informações sobre motoboys? Onde encontraram? Houve algum tipo de resistência por parte deles?
Não existe uma pesquisa sobre eles. Encontramos uma enfermeira com uma tese de doutorado na USP sobre acidentes envolvendo motocicletas, dados na CET, DETRAN, Hospital das Clínicas, Polícia Militar. Fazíamos pré-entrevistas com motoboys já conhecidos. De 40 pré-entrevistas, tiramos cinco personagens. No geral, eles são muito desconfiados: ?Quem são esses malucos? O que é documentário??. Estávamos entre um conglomerado de motoboys para fazer as entrevistas e o Marcelo (Marcelo da Silva, um dos personagens do filme) chegou e soltou: ?Documentário? É pra foder ou para ajudar??. A gente pensou: ?Precisamos falar com esse cara!?.


TRIP: Muito pouco foi dito sobre os motoboys. Vocês encontraram intelectuais ou jornalistas que já escreveram ou estão interessados em discutir esse fenômeno?
Partimos do princípio de que se você é paulistano e dirige é especialista no assunto. O Paulo Mendes da Rocha (arquiteto e urbanista) foi incrível, adorou a idéia do documentário. Ele é um âncora, um pensador no documentário. Não houve uma preocupação de buscar jornalistas, intelectuais, mas existem autoridades no filme como o  chefe de ortopedia do Hospital das Clínicas e o secretário de Transporte.

TRIP:Para a motogirl Maria Madalena, um caso particular no filme, a profissão é uma válvula de escape, um motivo para continuar vivendo. Conte um pouco sobre ela, como a conheceram.
A Madalena era motogirl de uma produtora em que o Caíto trabalhava. A história de seu filho surgiu depois de meses. Ela procurou a profissão (após a morte de seu filho) para se matar ?Se eu bater a cabeça tudo bem? mas acabou pegando gosto pelo o que faz.
Tem que ter calma com os depoimentos, esperar as pessoas se abrirem.

TRIP: Vocês tiveram contato com outras mulheres motoqueiras ou esse é um meio estritamente masculino?
Existem muitas mulheres trabalhando. Talvez 5% da classe, não se sabe ao certo. Os motoboys sabem da presença delas. É um trabalho brutal, uma guerra para uma mulher.


TRIP: O que você acha que deve ser feito para amenizar essa situação tanto no sentido de oferecer melhores condições de trabalho aos motoboys quanto para melhorar o trânsito de São Paulo? Que papel cabe aos motoristas?
A primeira coisa a se fazer é mudar a percepção em relação a eles. É preciso entender que eles vieram para ficar, não tem jeito. Acho um absurdo essa falta de conhecimento, é um reflexo da sociedade. Trata-se de uma classe de 300 mil pessoas, que gera um enorme montante para a sociedade. Os motoboys são a graxa humana da cidade. Estão lá, mas não queremos percebê-los, gastar dinheiro com eles. Não dá mais. Quando apresentávamos o filme para possíveis patrocinadores sentimos preconceito, o medo do patrocinador ter sua imagem associada aos motoboys. Como motoristas, devemos ter mais respeito.
O carioca, por exemplo, vive muito bem. No Rio de Janeiro existem 17 mil motoboys (em São Paulo 220 mil motoboys circulam diariamente). Existem cidades na Ásia com mais motocicletas que São Paulo, mas nenhuma com mais motocicletas a trabalho.
Roberto Scaringella, fundador da CET, afirma que a hora de investir em transporte público já passou. Ele acredita que a solução é investir em ferramentas para inibir a circulação (rodízio, pedágios regionais), mas as pessoas serão forçadas a recorrer ao transporte público. E aí?


TRIP:Você acredita que o cinema digital é uma alternativa para o aumento da produção de documentário?
Sim, digital é a solução. O filme não seria possível se fosse feito em película por causa da despesa que isso significaria, além de não permitir a mobilidade que precisávamos para realizar as entrevistas (muitos depoimentos foram colhidos durante o trânsito).

TRIP: Quais os próximos projetos?
Estou filmando um documentário sobre a vida do Joãozinho Trinta, mas ainda não tem data de lançamento.


TRIP: Tem planos de levar esse documentário para fora do país? Você acha que esse é um tema que pode gerar interesse no exterior?
O nosso intuito é exibi-lo o máximo possível em festivais e depois em TVs internacionais. Acho que é um assunto que pode gerar grande interesse fora do Brasil. Imagine, nós assistimos a documentários sobre aldeias no Tibete!


Filme: Motoboys-vida loca
Quando: 21/10, às 22h30 na Sala UOL
            
25/10, às 21 h na CEU Jambeiro
            
27/10, às 22h30 no Cinesec
            
28/10, às 17h15 no Sesc Vila Mariana 

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