Mítia – LSD – TV
Por Redação
em 21 de setembro de 2005
O sonho é a forma mais privada de imagem. A mídia é a forma mais pública de imagem. Apesar disso, está cada vez mais difícil distingui-las. No espaço-tempo em que vivemos, a mídia já é tão coletiva quanto o inconsciente.
Proponho um pequeno exercício prático de desregramento de sentidos. Ligue a TV no Jornal Nacional. Desligue o som dela. Ligue o seu CD preferido. Desligue o senso crítico. E se entregue às imagens. Volume zero: um molotov cruza o céu, corta, um príncipe inglês está sambando com uma mulata, corta, cem golfinhos estão mortos na praia, corta, um ovo voa na direção de um presidente, corta, uma orelha humana é implantada nas costas de um camundongo, corta, boa noite. O que pode existir de mais lisérgico?
TUDO AO MESMO TEMPO AGORA
Quem não está confuso, está mal informado. A mídia é o implacável enigma cotidiano que lança a cada segundo o seu ‘decifra-me ou te devoro’ aos seres que ela inevitavelmente devora. Nós. Ainda não nos acostumamos à mágica canibal da mídia. Que o diga toda histeria especulativa sobre o futuro de sua filha caçula, a internet. A que convergência nos levarão todas as estradas da informação? A que encruzilhada nos levará a onipresença de todas as redes?
Proponho um zapping ainda mais expandido. Conexão total. Você fala com a tia de Caçapava pelo telefone, corta, você joga gamão online com um adolescente de Bangladesh, corta, você perde metade do patrimônio com as ações da GloboCabo, corta, você ganha metade do patrimônio com as ações da GloboCabo, corta, você está lendo esta coluna. É, você sim, leitor que deita os olhos aqui nestas palavras, já está agora conectado à Internet. Nem é preciso ouvir o barulhinho irritante do modem. Você já está na rede. Você já está ligado a um dos nós da rede das redes. Papel e tinta também são condutores muito eficazes de realidade virtual. Em última instância, a rede completa seus links na mente das pessoas, não no mundo exterior.
CEGOS NO TIROTEIO
A propalada convergência já aconteceu faz tempo. Dentro da cabeça do usuário. Aos provedores dos meios físicos só resta correr atrás do prejuízo. Ou do lucro. A César o que é de César. Ao nível das idéias, o que deve interessar muito mais que a convergência é a divergência.
Historicamente, o racionalismo ocidental se fundamentou até agora na dicotomia entre fato e ficção, entre realidade e fantasia. Como previram seus maiores profetas, de Ibn Arabi a Marshall MacLuhan, de Guy Debord ao Chacrinha, a mídia vem para confundir e reembaralhar as cartas da razão. As relações mediadas pela tecnologia propõem uma nova divergência, não mais baseada na diferenciação entre verdade e mentira. A dualidade que realmente passa a contar agora é aquela que divide a vida em realidade atual (o aqui agora) e realidade virtual (o não aqui e/ou não agora). Antes da tecnologia telemática, o virtual só era acessável pelo devaneio. Com a mídia, os seres e objetos do plano virtual, sejam eles ‘reais’ ou não, ‘factuais’ ou não, podem ser acessados pelos sentidos.
Por meio da mídia podemos nos conectar a um parente distante ou à Xuxa ou a Napoleão ou a Ulisses. Até agora pela audição e visão. E brevemente pelo resto dos sentidos. Companhias e produtos como Digiscents ou Dataglove transformarão a mídia definitivamente num plano imaginal acessável não apenas pela mente, mas também por todos os sentidos. E a mídia verá florescer exuberante a sua vocação: ser o sonho dos sentidos. Ou o pesadelo.
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