Mítia: Culto à celebridade
Por Redação
em 21 de setembro de 2005

A idolatria nasceu junto com o homem. E a reação a ela também. ‘Não deves fazer para ti imagem esculpida, nem figura alguma que há nos céus ou na Terra (…)
Não te deves curvar diante delas, nem ser induzido a servi-las, porque eu sou Jeová teu Deus, sou um Deus que exige devoção exclusiva…’, diz a Bíblia (Êxodo 20.4), deixando claro para aqueles que seguem o Velho Testamento que Deus deve ser a única celebridade. Ao longo da História, a tendência a cultuar imagens tem se manifestado no homem como um instinto. E o alerta que se repete em várias passagens da Bíblia ou do Corão é uma reação ao fato de que, da escultura ao vídeo, qualquer
representação figurativa pode facilmente se transformar em objeto de adoração.
De Exu a Ratinho. De São Sebastião a Ricky Martin. As tradições proféticas mais ligadas à palavra sempre apontaram o dedo moralista ou moralizador contra a devoção ‘vazia’ do culto pagão às imagens das coisas do mundo. Foi assim na ira de Moisés contra os adoradores do bezerro de ouro do Egito, na fúria dos imperadores cristãos contra os deuses greco-romanos ou na Jihad islâmica contra os gênios da mitologia
árabe. É assim até hoje na guerra ‘santa’ que as igrejas evangélicas travam contra a celebração das entidades ‘demoníacas’ da Umbanda e do Candomblé.

Em um ensaio brilhante chamado ‘O Quarto Iconoclasmo’ (Editora Contracapa),o professor da USP Arlindo Machado nota que ‘a visão das massas populares reunidas ao redor dos aparelhos de televisão é considerada, por um número expressivo de nossos intelectuais, tal qual aquela atribuída por Moisés ao povo judeu reunido em torno do bezerro de ouro’. É preciso tomar muito cuidado em relação a qualquer reacionarismo moral a um suposto excesso de imagens e ídolos no cotidiano contemporâneo.
Mas tanto o atual culto às celebridades quanto as diversas reações a ele deixam clara uma idéia que tenho defendido há anos. A mídia opera exatamente como uma religião. É a rede que nos religa. É a tecnologia que viabiliza a criação de um universo paralelo para tentar explicar ou pelo menos representar o enigma da existência. É o paganismo eletrônico que cultua semideuses arquetípicos, que, na maioria das vezes, são apenas projeções paradoxais da (in)consciência coletiva em imagens simbólicas que, por sua vez, são diariamente reprojetadas nessa mesma (in)consciência. O mundo da virtualidade, o Olimpo, que no passado era acessado por canais etéreos como um oráculo e por alguma representação material como as estátuas de mármore, é hoje conectado aos homens por meio dos portais da mídia. A tecnologia das comunicações – hoje ainda audiovisual mas, muito em breve, táctil e olfativa – está transformando a virtualidade em uma dimensão cada vez mais física e palpável. Não me surpreende a onipresença de ídolos.
Não me causa nenhum espanto a inflação de corpos de aluguel que possam encarnar os desejos de amor ou ódio do público. Faz parte do show. Faz parte das regras do jogo implícito (implícito?) que se estabeleceu entre aqueles que querem consumir e aqueles que querem ser consumidos por meio das ondas eletromagnéticas.

Assim, não quero defender nenhuma fúria iconoclasta contra o Chiquinho Scarpa ou a Adriane Galisteu. A César o que é de César. A Scheila o que é de Scheila.
Mas é impossível não ponderar um pouco. A idéia de celebridade sofreu uma alteração essencial nos últimos trinta anos. Antigamente, ser célebre não significava exatamente ser famoso. A celebridade estava intimamente ligada ao mérito. Fulano de tal era célebre porque havia, sei lá, descoberto a penicilina, composto grandes canções ou ganho o prêmio Nobel de física. Até um orixá ou um deus grego era famoso por seus méritos, suas façanhas. A celebridade de hoje parece ter muito mais a ver com o triunfo de uma vontade que de uma capacidade. A maioria dos famosos de revistas como a Caras ou programas como o Domingo Legal é célebre apenas porque quer ser. Quer muito. O ‘ser ou não ser’ desta Era da Mídia é:
‘Sou famoso porque tenho mérito ou tenho mérito porque sou famoso?’.
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