Meu nome não é japa: o preconceito amarelo

por Carol Ito
Trip #286

Trabalhador, inteligente, bom em exatas. Dócil, submissa, exótica. Os clichês sobre os asiáticos são muitos, mas os nipo-brasileiros têm rompido o silêncio e colocado em xeque as generalizações

Normalmente vistos como um modelo a ser seguido, é raro ver alguém discutindo a rotina de preconceito contra descendentes de japoneses e outros asiático-brasileiros que moram no Brasil. Mas bastou um episódio como o surto do novo coronavírus – ou Covid-19 – para dar visibilidade a um problema bastante antigo e pouquíssimo discutido: o preconceito contra asiáticos. Marie Okabayashi de Castro Lemos, 23, postou um vídeo no Twitter mostrando o ataque que sofreu no metrô carioca por parte de uma passageira. “Dentre as atrocidades: ‘Quando eu vejo um chinês eu atravesso a rua’; ‘não compraria uma Coca fechada desse povo, porque eles contaminam tudo’; ‘os coreanos, tailandeses e esse resto também são um horror!’; ‘invadem nosso país, roubam os empregos do nosso povo, espalham doenças’”, relatou Marie em seu perfil, no dia 1º de fevereiro. “Estou no sétimo período de direito, portanto, sei quais seriam as melhores formas de agir na situação. Mas nada disso me impediu de travar na hora e chorar muito depois. Me senti completamente impotente”, diz à Trip a carioca, que é neta de japoneses.

Acostumado a receber xingamentos nas redes sociais pela sua ascendência japonesa, o jornalista Leonardo Sakamoto, 42, observa que a questão do preconceito amarelo vem ganhando visibilidade nos últimos meses por conta de uma série de acontecimentos. “O coronavírus colocou isso em evidência, o Bolsonaro vem destilando seu preconceito, temos um descendente de coreanos no Big Brother Brasil [que foi chamado de ‘japonês’ por outro participante do reality show], tem o Keisuke Honda, japonês contratado pelo Botafogo, que recebeu comentários xenofóbicos nas redes sociais. É uma tempestade perfeita, mas o problema sempre existiu”, explica.

Depois de lançar o livro Tormenta – O governo Bolsonaro: Crises, intrigas e segredos, este ano, a jornalista Thaís Oyama, 54, foi alvo de uma reação enérgica do presidente Jair Bolsonaro, que disse: “Esse é o livro daquela japonesa, que não sei o que faz no Brasil”. “Foi uma tentativa de sugerir que o livro foi feito por alguém de fora, uma estrangeira que não entende a realidade política do Brasil”, diz ela, que é neta de japoneses. “Não interpretei como sendo uma afirmação preconceituosa, embora saiba que muitos descendentes a entenderam assim e se sentiram ofendidos, o que é o bastante para que o presidente se envergonhe do que disse.”

Casos como estes ajudam a evidenciar algo que sempre foi recorrente, mas não necessariamente visível. A situação vem mudando com o fortalecimento das discussões de questões identitárias de outros grupos, notadamente das militâncias negra e feminista, segundo Sakamoto. “Quando movimentos sociais começam a levantar questões identitárias e de minorias, outros grupos começam a se identificar. Isso é alimentado pelo lado bom das redes sociais, em que as pessoas têm mais acesso à informação e acabam se conscientizando diante do preconceito.”

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Hoje já existem diversos coletivos organizados pela internet, como o Perigo Amarelo, a Plataforma Lótus, os Asiáticos pela Diversidade e o canal no YouTube Yo Ban Boo, entre outros, que vêm trazendo visibilidade para preconceitos relacionados às ascendências asiáticas. “Nos últimos quatro ou cinco anos, foram criados espaços mais progressistas de debate, onde os asiático-brasileiros conseguiram ter um canal de interlocução sobre vários temas, como identidade de gênero, orientação sexual e discriminação racial”, explica o antropólogo Alexandre Kishimoto, 47, que também faz parte do grupo Estudos Asiático-Brasileiros, um dos primeiros a se organizar na internet, em 2013.

Como maior comunidade japonesa fora do Japão, o Brasil ainda tem muito o que aprender sobre as vivências de seus 1,5 milhão de cidadãos nipo-brasileiros. A Trip convidou representantes da comunidade nipo-brasileira para uma grande conversa sobre o que é ser amarelo no Brasil.

Não tem comparação

“No Brasil, rola muuuito do asiático ser lido como branco. Então, o preconceito que eles passam talvez não deva ser chamado de racismo, porque não tem essa estrutura e nem o histórico de opressão/escravidão etc.” Esse foi o texto que o comediante negro Yuri Marçal postou no Twitter em janeiro, gerando um debate acalorado. Até o youtuber Felipe Neto, que é branco, entrou na discussão: “Asiáticos sofrem preconceito racial. Ponto. Contudo, no Brasil, poucos se importam”, comentou.

Nesta questão, torna-se realmente fundamental que sejam feitas algumas distinções. Por mais que os descendentes de japoneses se incomodem ao ouvir piadinhas sobre a aparência ou costumes, é consenso que nada se compara às vivências dos negros e indígenas, como defende Leonardo Sakamoto: “O Estado e a sociedade foram construídos de forma que esses grupos sejam sistematicamente explorados e tenham seus direitos negados. O preconceito é estrutural e ameaça diretamente a sobrevivência física, mental e social de negros e indígenas”, explica o jornalista.

Não existe, no entanto, um consenso sobre o uso do termo “racismo” em relação a esse grupo e alguns nipo-brasileiros preferem palavras como “bullying” ou “microagressões” para se referir às piadas que escutam no dia a dia. A ativista Caroline Ricca Lee, 29, que é brasileira de ascendência chinesa e japonesa, fez uma escolha política: “Eu não uso ‘racismo’ para me referir às vivências de injúria e agressão que pessoas asiáticas-brasileiras relatam, pois acredito que, no Brasil, não vivenciamos o histórico estrutural de opressão vivido por pessoas negras, e a construção de raça no país está arraigada na antinegritude”, explica. Mas, se não é justo comparar o preconceito vivido por diferentes minorias, é possível falar em solidariedade antirracista, uma pauta recorrente entre os ativistas asiáticos, que defendem uma luta única de todos que fazem parte de identidades minoritárias. A ideia, segundo Caroline, é unir negros, mulheres, indígenas, migrantes, LGBTQIA+ e outros movimentos que buscam a erradicação da pobreza e da desigualdade em uma mesma pauta de democracia e liberdade para todos. “Os sistemas de opressão são conectados, então, é essencial a criação de agendas comunitárias para lutas aliadas”, explica a ativista.

A própria escolha de como endereçar os nipo-brasileiros vem sendo debatida, com o objetivo de ampliar a ideia de solidariedade antirracista. “Prefiro o uso do termo ‘asiático-brasileiros’ para reiterar que somos brasileiros, e não estrangeiros. Além disso, o uso da palavra ‘asiático’ busca criar pontes com outros descendentes. Não faz mais sentido ter uma militância muito fechada”, defende Alexandre. “Como estamos construindo nossa própria linguagem (epistemologia), é essencial prever essas questões com maior importância e respeito. Linguagem é poder”, diz Caroline.

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O mito da minoria-modelo

Existe uma ideia de que os japoneses fazem parte de uma “minoria-modelo”, baseada em estereótipos supostamente positivos, que os coloca como inteligentes, bons em matemática, trabalhadores e honestos. Essa idealização começou a ser disseminada nos Estados Unidos na década de 60 para criar a sensação de que a imigração japonesa teria aderido, com sucesso, ao sonho americano. No Brasil, o conceito foi importado com o intuito de reforçar o preconceito contra as minorias que “não deram tão certo assim”. “É um discurso de meritocracia, que defende que é só trabalhar duro e se esforçar que as coisas dão certo, mas existem privilégios. Os japoneses tiveram certo suporte do governo de seu país e de empresas japonesas de imigração desde os primeiros movimentos migratórios, além de formarem redes de ajuda mútua entre eles. A ascensão social é favorecida por uma série de fatores. O discurso que seria positivo para os nipo-brasileiros é, no fundo, uma forma de reiterar estereótipos negativos para outros grupos”, diz Alexandre.

Entre os japoneses, a forma como esses supostos elogios, tão naturalizados, são recebidos é bastante pessoal e vai de quem se identifica a quem escolhe, até por militância, se afastar dessas generalizações. “Não acho que todos sejam assim, mas a maioria dos japoneses é correta, honesta e dá um enorme valor à família. A civilidade deles me deixa impressionado”, comenta o cabeleireiro e maquiador Celso Kamura, 60, que é neto de japoneses. “Fui elogiado algumas vezes, na maioria delas, com relação à minha disciplina. Fiquei feliz, mas não fez grande diferença, pois a disciplina sempre foi uma coisa normal dentro de casa”, conta o skatista Lincoln Ueda, 45, também neto de japoneses.

A naturalidade de Kamura e Ueda é contraposta pelo jornalista e neto de japoneses Gilberto Yoshinaga, 41, que atualmente mora no Japão e prefere questionar esse tipo de elogio: “Tem gente que adora nipo-brasileiro e fala: ‘Nunca conheci um japonês que não fosse estudioso, dedicado, honesto, trabalhador’. Quando sou elogiado, sempre falo que qualquer um pode ter essas características. Não gosto de puxar sardinha como se oriental fosse superior, a generalização é ruim”.

Essa exaltação do nipo-brasileiro vem de um processo de “branqueamento” que não tem a ver apenas com miscigenação biológica. Alexandre explica: “Existe um branqueamento em que a pessoa, ao ascender socialmente, passa a ser reconhecida como portadora de direitos, ao contrário de quem tem os direitos sistematicamente violados”. No entanto, o antropólogo pondera que, por mais que o asiático se identifique com os valores da branquitude e com os estereótipos sobre o que é ser um “bom cidadão japonês”, ele não deixará de ser alvo de preconceito. “Por exemplo, há dois anos, o atual presidente ficou enaltecendo os japoneses durante um evento, fazendo comparações com refugiados que estavam chegando no Brasil [na ocasião, ele disse: “Alguém já viu algum japonês pedindo esmola? É uma raça que tem vergonha na cara!”]. Dois anos depois, ele muda completamente o tom com a Thaís Oyama, porque ela ousou criticar seu governo. Quando o asiático quebra a expectativa de 'dócil' e 'ordeiro' que se faz dele, o racismo vem à tona.” 

Questão de gênero

Em alguns casos, a questão de raça está sempre evidente, como na conhecida fetichização da mulher japonesa. Se você é nipônica, é provável que tenha ouvido frases como “eu sempre quis ficar com uma japonesa”, “tenho preferência por asiáticas” ou, no limite, tenha se deparado com alguém que só flerta e se relaciona com mulheres como você – essa fixação por asiáticas, inclusive, ganhou a expressão yellow fever nos Estados Unidos.

“Já escutei coisas como ‘meu maior fetiche são as japonesas’ ou que somos ‘gueixas’, delicadas, tímidas, certinhas, submissas”, conta a atriz Jacqueline Sato, 31, que tem o avô  japonês. “Submissa é algo que eu jamais fui ou serei. Assim como não são as minhas tias e a minha irmã. Temos muitas líderes que de submissas não têm nada, vide [a empresária nipo-brasileira] Chieko Aoki, [a artista plástica] Tomie Ohtake, entre tantas outras”, defende.

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O Japão ocupa a posição 121 (de 153 países) no ranking de igualdade de gênero no mundo, atrás, inclusive, do Brasil, que ocupa a posição 92, de acordo com a classificação do Fórum Econômico Mundial, de 2020. Para Caroline, a fetichização e a imagem de submissão da mulher asiática têm um peso histórico que precisa ser considerado: "Antes e durante a Segunda Guerra Mundial, milhares de mulheres asiáticas, em sua maioria coreanas, chinesas e filipinas, foram subjugadas à servidão sexual pelo exército japonês. Depois da guerra, japonesas foram coagidas pelo próprio governo a servirem como prostitutas ao exército americano. São mais de 200 anos de história de mulheres amarelas associadas à servidão sexual. Para mudar esse cenário, precisamos urgentemente discutir a questão da fetichização”, diz Caroline, que fundou, em 2016, a Plataforma Lótus, um coletivo feminista interseccional, voltado a “promover visibilidade, representatividade e inclusão de narrativas asiáticas-brasileiras na agenda feminista e no Brasil”.

A questão apontada por ela é observável em números: em 2019, o termo “japonesa” foi o mais buscado no Pornhub, maior site de conteúdo adulto do mundo (com mais de 100 milhões de acessos por dia, em média).

A jornalista Thaís Oyama, porém, não atribui esse fenômeno à fetichização: “Vejo mais como uma curiosidade natural pelo ‘exótico’, por aquilo que é diferente. Mais ou menos a mesma coisa que acontece com mulheres negras ou loiras. São fantasias construídas sobre algo que se desconhece, ou que é menos conhecido”. Neta de japonês, a cantora Sabrina Hellsh, 39, que mora no Japão desde 2001, percebe uma rejeição ao tipo físico das nipônicas: “Quando era pré-adolescente, muitos diziam que eu teria corpo feio, sem bunda, sem peito, mas essa época passou logo”.

Por outro lado, se você é homem e nipo-brasileiro, certamente já teve seu órgão genital como alvo da curiosidade ou chacota alheia. “Sempre ouvi a piada de que ‘japonês tem pinto pequeno’, mas ninguém fala sobre isso de forma aberta, é um sofrimento solitário, que vai estar presente em maior ou menor grau em todo mundo”, diz um descendente que prefere não se identificar. “Corpos asiáticos são vistos como femininos em oposição à masculinidade do homem branco ocidental”, reflete o estudante de cinema e audiovisual da Universidade Federal Fluminense Hugo Katsuo, 20, em sua pesquisa intitulada: “Pornografia gay e racismo: a representação e o consumo do corpo amarelo na pornografia gay ocidental”. 

Representatividade asiática

No Brasil, o nipo-brasileiro ainda é visto como “o japa”, o estrangeiro, e essa visão também afeta a presença de descendentes asiáticos na mídia, como relata o ator e filho de pai japonês Carlos Takeshi, 59: “Já ouvi de um produtor de elenco que ‘ator japonês marca muito, chama muito a atenção’, e que é por isso que não contratam muitos. Demoraram para aceitar o oriental como brasileiro, mas isso está começando a mudar”, diz. “Percebi que eu recebia muito menos testes do que colegas de ascendências diferentes da minha”, concorda Jacqueline Sato, que, assim como Carlos, atuou em Sol nascente, em 2017, novela da Globo que causou polêmica ao escalar o ator Luís Melo, que não possui nenhuma ascendência asiática, para viver o patriarca de uma família japonesa.

Neste cenário, a apresentadora Sabrina Sato, 39, ainda é uma das poucas personalidades com ascendência japonesa realmente conhecidas pelo grande público e teve que construir seu próprio caminho no showbiz. “Cresci com a certeza de que quebraria paradigmas, por exemplo, me tornar apresentadora de TV, mesmo sem nunca ter visto uma descendente de japoneses nesse posto”, conta.

A falta de representatividade nas produções de entretenimento e publicidade, para além da questão profissional, afeta também a autoestima dos descendentes, principalmente na infância. “A desconformidade física em relação ao padrão branco causa uma série de questões. Na minha vivência pessoal, causou uma autoestima baixíssima, me olhava no espelho e me perguntava porque tinha nascido feio, pois associava beleza com brancura”, conta o antropólogo Alexandre.

E na mesma direção vai Jacqueline: “Quando eu era pequena, quase tudo o que eu via me fazia querer ser diferente. Lembro do desejo de ser loira de olhos azuis. Quando percebi que não poderia ser assim, desejei ter um filho ou filha que fosse”. Ela enfatiza ainda que a discussão vai além da busca por espaço. “Se as telas e páginas tiveram o poder de difundir e reforçar os estereótipos no passado, possuem também o poder de reverter esta situação ao dar espaço e papéis que representam seres humanos, com suas complexidades e camadas”, defende Jacqueline.

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Repressão cultural

Distante das piadinhas e pseudo elogios, a opressão contra os nipônicos já foi institucional no Brasil e começou antes mesmo da chegada do Kasato Maru, o primeiro navio de imigrantes a desembarcar no porto de Santos, em 1908. “Houve debates entre diplomatas, políticos e intelectuais sobre a pertinência ou não da entrada dos amarelos. O discurso do branqueamento, que favorecia a entrada de imigrantes europeus, colocava os chineses como perigosos e cheios de vício e os japoneses como imperialistas, com tendência ao isolamento. E também havia o discurso favorável, de que os japoneses eram trabalhadores e dóceis e poderiam trazer novos conhecimentos”, explica Alexandre. Ele conta que esses debates acerca das características do povo japonês resultaram em uma lei que, em 1934, restringiu a vinda de imigrantes.

Do Estado Novo até o final da Segunda Guerra Mundial, o clima foi de repressão a qualquer manifestação da cultura japonesa, por exemplo a proibição de publicações no idioma, o fechamento de escolas e até o aprisionamento de pessoas em campos de concentração construídos no Brasil, como mostra a pesquisa “Prisioneiros de guerra: os cidadãos do Eixo nos campos de concentração brasileiros (1942-1945)”, da doutora em história social Priscila Perazzo.

Telma Shiraishi, 49, chef do restaurante Aizomê (São Paulo) e neta de japoneses, conviveu com relatos tristes dessa época, embora houvesse certo pudor por parte da família em tocar no assunto: “Eu não fui educada em japonês porque meus pais tiveram traumas da guerra. Todos sofreram perseguição, então, tinham que queimar livro, não podiam falar a língua, qualquer material com referência ao Japão tinha que ser escondido. Eles contavam essas histórias de vez em quando. A gente nunca se estendeu demais no vitimismo, mas isso não apaga essas situações de preconceito”, conta. “O pré e o pós-guerra foram traumáticos para muitas famílias e o assunto virou uma espécie de tabu. Existe o estereótipo de que a colônia japonesa é muito fechada, como se fosse um traço hereditário. Mas não consideram todo o histórico de opressão estatal”, comenta Alexandre.

Eternos estrangeiros

Se o nipo-brasileiro ainda é visto como estrangeiro no Brasil, a situação dos que vão para o Japão em busca de trabalho (os chamados “decasséguis”) também é complexa. “Os japoneses me julgam por meus avós terem ‘abandonado’ o país, porque eles fugiram da guerra. Isso me incomoda muito mais do que as piadas que ouvia no Brasil”, conta Lucas Nagasawa, 25, que mora no Japão há dois anos. Formado em administração de empresas no Brasil, ele trabalha como operador de máquinas em uma empresa que produz embreagens automotivas e conta que, apesar de ser julgado por sua origem familiar, nunca enfrentou problemas no trabalho: “Sempre fui muito bem tratado por japoneses”.

Assim como Lucas, o gerente de operações de vendas de uma grande empresa de tecnologia, que prefere não se identificar, conta que não encontrou problemas nos quase dois anos em que trabalha no Japão: “Não sofro nenhum tipo de preconceito por ser nipo-brasileiro, porque diversidade e inclusão fazem parte da cultura da empresa. Fora do trabalho, a maior dificuldade que tenho é de parecer japonês e não falar o idioma”, diz. Já Claudio Sassaki, 45, fundador da Geekie – plataforma de educação on-line –, visitou o Japão seis vezes e relata uma experiência de reconciliação: “No Brasil, tinha essa sensação de inferioridade por ser japonês. Lá, eu não era o japonês, era o brasileiro. Comecei a entender melhor quem eu era, ter mais orgulho das minhas origens. Mesmo tendo avós japoneses, eu sou brasileiro, fui educado e cresci no Brasil”.

No livro Orientalismo: O Oriente como invenção do Ocidente (1978), o intelectual palestino Edward W. Said explica que “Oriente” não é uma referência geográfica, mas, sim, uma forma de reunir, sob o viés ocidental, diferentes povos e culturas como exóticas, inferiores, fora dos padrões eurocêntricos. Reiterar a noção de que descendentes de japoneses que vivem no Brasil há mais de um século não são orientais, e sim brasileiros, parece óbvio, mas ainda é um esforço necessário.

Créditos

Imagem principal: Adriana Komura

Carol Ito, 27, é neta de japonês. O que mais gosta nas festas da família é que sempre tem misturas como sushi e feijoada. Adriana Komura, 36, é neta de japoneses, designer e ilustradora. Aventurou-se a fazer humanas numa família de exatas e não liga muito pra karaokê.

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