Logo Trip

Mentiras e inverdades 2

Guia prático de manipulação

Por Redação

em 21 de setembro de 2005

COMPARTILHE facebook share icon whatsapp share icon Twitter X share icon email share icon

Por conta do texto sobre ética e credibilidade no esporte, publicado aqui há duas semanas, recebi alguns comentários interessantes. Entre eles, uma crônica bem-humorada que remete ao conceito ‘o caminho é o destino’, a forma de se fazer é tão importante quanto o feito em si.Toca o telefone.Do outro lado ouço a voz inconfundível do meu amigo Gerson, alpinista paraguaio.Gerson: – Cara, você não vai acreditar. Vou voltar para o Everest. Dessa vez sem oxigênio.Pablo: – Mas você não falou no início do ano que ia escalar várias montanhas pela Europa…Ele me interrompe.- Eu ia, mas tenho que ir pro Everest agora. Tem 2 rapazes paraguaios que subiram uma montanhazinha na Argentina e agora cismaram que querem subir o Everest sem oxigênio. Fora um casal atrevido que está tentando há alguns anos e está quase chegando lá. Não posso deixar a concorrência passar na minha frente. Senão, eles é que serão chamados para dar palestras, entrevistas. E aí como é que ficam meus negócios, a editora? Fui o primeiro paraguaio a escalar o Everest e isso me deu a maior fama. Fora a grana. Eu tenho que ser sempre o primeiro!!- Ora, deixa eles…- Como deixa eles?? Tá louco?!? – Calma, calma… não precisa gritar… É que eu acho que eles estão querendo subir o Everest por amor à montanha, ao alpinismo, e não fazer da escalada um negócio…-(nervoso) Amor à montanha? Vai tomar no …! Isso é coisa para viados, frescos. Isso não existe mais. É igual a jogador de futebol. Não existe mais amor à camisa. Hoje o negócio é grana. Eu tenho uma reputação a zelar!! E a grana que eu ganho com os patrocínios, as palestras, o assédio da imprensa, das pessoas?? Eu, que sempre fui detestado pelos outros alpinistas, não sei por que, hoje me sinto querido pelas pessoas. Como é que fica tudo isso? Decidi mudar de assunto.- Mas será que você consegue escalar o Everest sem oxigênio? É bem mais difícil.- Eu sei, eu sei, mas já montei todo o esquema. Vou fazer igual às outras vezes.Contrato uns alpinistas bons, que até pagariam para ir ao Everest, e eles fazem tudo por mim. Serão meus… como diria… meus secretários. Secretários não, pois não vou pagar porra nenhuma. Irão como… meus escravos. Rá rá rá. Taí, gostei. Nem eu me agüento.- Me explica.- O babacas carregam as mochilas, instalam as cordas fixas, montam e abastecem os acampamentos, enfrentam as avalanches, as gretas e tudo o mais. Aí, quando tudo estiver pronto, eu vou lá e subo pela corda. É cume na certa. E ainda por cima, eu é que fico famoso. Nas entrevistas coletivas, só eu que falo. Aí consigo mais patrocínios e os caras ficam chupando o dedo. Não é uma puta idéia?!?- E é fácil conseguir alpinistas que aceitem esse papel??- É claro que é!!! Nesse país, com grana se consegue tudo!!! No começo até que tentei levar amigos, companheiros de escalada, você sabe disso. Mas os caras são fo…! Não entendem de negócios. Têm visão curta. Não entram no esquema. Então desisti.- Mas agora, no Everest, você não vai ajudar seus companheiros? – Companheiros, não!! Escravos, já falei! Afinal, eles estarão lá para me servir.- Desculpe, Gerson, seus escravos…- Vou dar uma ajudazinha, né. Só pra ninguém ficar me difamando depois, que eu não sou de nada. Guio a via uns metrinhos e pronto. Vou como ídolo, não como alpinista. Eu não posso me cansar. Vou ficar no campo-base, descansando. Você sabe que esse negócio de escalar cansa, ainda mais na altitude. – Mas você vai ficar sem fazer nada no campo-base?- Como nada?!? Aí que entra meu talento, meu chapa. Eu sou um homem de marketing, meu rapaz. De visão! No Paraguai chamam isso de ‘empreendedorismo’. Eu fico na base enviando um monte de e-mails para a mídia. Invento um monte de coisas. Falo de tempestades enormes, perigos assustadores, atos heróicos… ah, eles adoram. Os caras não entendem quase nada de alpinismo mesmo! Além de ganhar mais espaço na mídia, eu valorizo a escalada. Esse é o segredo. Aí, quando eu volto para o Paraguai, chovem convites para entrevistas, para palestras. Sempre deu certo. – Ê Gerson, sempre levando vantagem em tudo, hein! Mas, me conta, e se os caras que você está levando não conseguirem montar a via direito. Sem oxigênio no Everest é fogo.- Como você é ingênuo!! Eu já pensei em tudo, meu caro. É claro que eles estarão COM oxigênio. Só eu que não. Não posso dar a chance de nenhum deles dar uma de espertinho e chegar lá em cima sem oxigênio antes de mim. Não vou dividir essa glória com ninguém.- Mas, e se, mesmo assim, você não conseguir?- O quê? Tá duvidando de mim? – Pô Gerson, não precisa se exaltar. Desculpe…- É claro que eu consigo!!!!! Se for preciso, eu pego a garrafa de um deles e durmo com ela!!!!. Quem vai saber?!? Quem vai provar que usei oxigênio?!? Depois, na volta escrevo um livro contando a minha versão e pronto. Entro para a história!!! Rá rá rá… Aí, vou ficar mais famoso que aquele navegador brasileiro, o Amyr Klink. Não vejo a hora.- Mas, e se um deles, na volta ao Paraguai, contar para alguém que você usou oxigênio, que você subiu pelas cordas?- Duvido. Primeiro que eu sou muito mais famoso que eles e tenho muito mais contatos na mídia. Tenho até assessoria. Ninguém vai acreditar no cara. Depois, eles sabem que, se contarem, perdem a mamata. Nunca mais levo o cara pra montanha nenhuma. E ainda ameaço processá-lo. – Mas assim não vale. Uma expedição é COM ou é SEM oxigênio. Só um não usar é malandragem. Subir sem oxigênio subentende que você tem que participar de tudo sem oxigênio, sem ninguém COM oxigênio trabalhando para você. Você tem que ajudar a instalar as cordas fix…- Deixa de ser burro. Isso é papo de alpinista romântico. Eu não quero nem saber. No Paraguai todo mundo faz isso. Ninguém é ético. Quanto mais esperto, mais o cara se dá bem. É o caso dos políticos. Das meninas que rebolam para ficarem famosas. O negócio é ficar famoso, fazer um monte de palestras e se dar bem, tá entendendo?!? E ver a cara dos outros alpinistas roxos de raiva, rá rá rá. Essa é a melhor parte!!- Mas os alpinistas paraguaios são éticos, têm escrúpulos…- Escrúpulos?!?!? Lá vem você de novo com esse papo furado!! Eles têm escrúpulos, tá, e daí?!? O que é que eles ganham como isso?? São todos uns pobretões, que são obrigados a manter um empreguinho de merda para escalar montanha. Eu não, sou um profissional!!! Eles não são chamados para dar palestras, entrevistas, não têm ninguém assediando eles. O povo me adora!!!… Bem, pelo menos, deveria adorar.- Mas eles querem servir de exemplo para as novas gerações de alpinistas que vem aí.- Esse romantismo já era, meu chapa!! Servir de exemplo? Eu sou o melhor exemplo. Exemplo de esperteza. Rá rá rá. Eu sou a prova viva do caráter do nosso povo. Que com criatividade, com jeitinho se consegue tudo nesse país. Brasileiro pensa que tem jeitinho, mas o jeitinho paraguaio é muito melhor. Rá rá rá. Além do mais, eu adoro ferrar com os outros alpinistas… meus concorrentes.- Como assim?- Há uns anos tinha uns caras metidos que queriam ser os primeiros paraguaios a subir o Everest. Pedi pra ir junto, mas eles não gostaram de mim e não me deixaram ir com eles. Pô, isso não se faz com um cara tão legal como eu.- E o que você fez?- Passei na frente deles. Pensa que sou otário? Enquanto os babacas gastaram o maior tempão organizando uma expedição, contratando sherpas e essas coisas que enchem o saco, eu fui mais esperto e entrei numa expedição comercial. Os gringos prepararam todo o terreno, eu fui lá e subi. E ainda voltei para o Paraguai falando que eles eram amadores e eu que era profissional, rá rá rá. Você tem que ver a cara deles. Rá rá rá. Entrei para a história e ainda ferrei com eles. Ficou superdifícil para eles conseguirem patrocínio, depois disso. Foi uma jogada de mestre, reconheço!!!!- Mas a mídia não ficou sabendo que era uma expedição comercial, que você foi como turista? Como cliente?- Claro que não. E lá eles entendem alguma coisa de alpinismo? Falei que fui convidado por uma expedição estrangeira e os caras acreditaram. Essa é a vantagem de ser alpinista. Eu sei como manipular os jornalistas paraguaios. – E por que os outros alpinistas paraguaios não fazem o mesmo?- Porque são burros. Só pode ser.- E foi fácil a subida? Seu companheiro paraguaio de escalada – Beethoven – escreveu um artigo em que ele afirma que você utilizou oxigênio a partir dos 7200 metros de altitude, o que é, convenhamos, uma vergonha.- Rá rá rá. Se precisasse, usaria desde Katmandu. Só pra ferrar com os caras. Rá rá rá. Eu tinha que ser o primeiro!! Eu sou foda!!! Usei oxigênio a partir dos 7200 metros, mas quem é que pode provar? Talvez os guias, mas duvido que alguém os encontre.- Mas oxigênio a partir dos 7200 metros? Nenhum alpinista faz isso. Só turista, daqueles bem leigos. Um alpinista americano, francês, alemão, jamais faria isso.- Eu sei. Mas que se dane. Meu companheiro paraguaio de escalada usou a partir dos 8000 metros. Falei pra ele que era arriscado. O cara veio com esse papo de ética… Taí, foi tão ético que morreu uns anos depois tentando fazer uma escalada de verdade. Babaca. – Foi assim no pico M3?- Claro. Eu sou esperto. Depois do Everest escalei um monte de montanhas famosas mas bem fáceis de subir. Isso gerou muita mídia. Com a fama que eu consegui, obtive bons contratos de patrocínio. Você sabe que patrocinador é igual à mídia em nosso país, não entende nada de alpinismo. Aí, eu contratei dois alpinistas estrangeiros, daqueles bem feras, mas sem grana, e eles me levaram até o cume. Nossa!!! Além da grana que sobrou do patrocínio… lembre-se que fui 3 vezes… choveu entrevistas e palestras depois disso. E vendi um montão de livros. Ainda mais que fiz o maior terrorismo. Espalhei que era uma montanha assassina, a mais difícil do mundo e os caras engoliram. Eles precisam desse tipo de histórias. Rá rá rá. Virei um fornecedor de histórias fantásticas para a mídia rá rá rá.- E na Torre Brolero?- Rá rá rá. Foi mais fácil ainda. Enquanto os caras montaram a via, superdifícil, fiquei na base manipulando a mídia. Fiz aquele terrorismo todo… Depois, subi de corda de cabo a rabo. Rá rá rá. E na volta só eu que apareci, que dei entrevistas…- Poxa, Gerson, você é esperto mesmo, hein!! – Não te falei? Eu sou mais esperto que todos eles juntos!! E inaugurei um novo esporte no Paraguai, o cordismo, e os caras ainda me criticam. Rá rá rá.- Mas se você vai como alpinista-turista, o que é que você fala nas palestras?- Alpinista-Turista? Rá rá rá. Gostei!!! Tá vendo?? Os alpinistas paraguaios me criticam, mas fui eu criei novas categorias de alpinistas. Os secretários, os escravos e o alpinista-turista. Rá rá rá. Essa foi boa!!- Me conte das suas palestras.- Fácil. Eu falo de planejamento, de trabalho em equipe e de como esmagar a concorrência, custe o que custar. Assuntos que os empresários adoram ouvir. E você sabe que eu acredito nas minhas histórias, me emociono e choro. Aí, os ouvintes adoram. – Mas se não é você que planeja a expedição…- (Puto) COMO NÃO? – Calma, não precisa gritar.- Assim você me ofende, porra! Você acha que montar todo esse esquema não dá trabalho? – Mas os alpinistas paraguaios não te respeitam. Além de você não subir as montanhas difíceis como um alpinista de verdade faria, dizem que você inventou histórias, exagerou feitos, alterou fotos. Enfim, dizem que você é uma fraude. – Ué, tudo que é paraguaio não é falsificado???? Rá rá rá.- Pô, fala sério.- Eu não quero nem preciso do respeito deles. E eles não podem provar nada contra mim. Ninguém estava lá para ver!! Eu fiz tudo de caso pensado!! Pensa que sou burro?? É a minha palavra contra a deles, que são uma cambada de babacas. Aliás, são uns ingratos. Quem é que divulga o alpinismo no Brasil? Além do mais, quem é que faz palestras nesse país? Eu ou eles? – Mas, e a ética do esporte?- Esporte? Quem está falando em esporte aqui? Eu tô falando de negócios, entendeu?!?!?!?- Mas já tem jornalistas investigando seus feitos. Eles são espertos, vão acabar descobrindo a verdade. – E descobrirem que foram enganados todos esses anos? Que foram trouxas? Eles vão preferir esquecer esse assunto. O que eles querem é vender jornais e revistas. Eu chego no Paraguai e dou minhas fotos só para os jornalistas amigos. Daquelas que dão capa. Eles adoram. Aí os caras que me criticam fica sem as fotos, vem o editor deles e cráu neles. Ficam todos bonzinhos. – Mas…- Cara, o negócio hoje é grana, é business. Com as minhas histórias eu criei toda uma indústria em torno do alpinismo. Virei empresário da montanha. Os lojistas me adoram, os sites de aventura precisam da minha colaboração. Quem é que vai falar mal de mim?? Fora o fato que vai ser muito difícil conseguir provar algo contra mim. Você sabe que é tudo muito técnico, difícil do público leigo entender…- Mas isso não é desonestidade ???- F…-se!!!!!! O Paraguai precisa de ídolos e eu virei um ídolo. Mais que ídolo!!!! Eu sou um herói!!! Ouviu bem?!? Um herói, porra!!!!- Mas um herói mentiroso………- (gritando) DANE-SE!!!!!! Eu sou o maior aventureiro de todos, cara! Ninguém jamais me alcançará. Eu sou demais!! Eu vou entrar para a história desse país! Isso é o que importa rá rá rá rá rá.- Isso é megalomania…- Não quero nem saber, porra!!!!! Eu manipulo a mídia, eu manipulo os patrocinadores, eu manipulo o público, e ainda ferro com os outros alpinistas rá rá rá rá rá. Eu sou foda!!!!!!!!!!!!!!!! Rá rá rá rá.- Mas…- Rá rá rá rá rá… são todos babacas… rá rá rá rá rá rá ráPerna FrancesaTeco Padaratz, quebrando um jejum de seis anos, venceu a 26ª etapa do WQS, disputada em Lacanau, França. Foi a segunda vitória brasileira consecutiva. O mundial de surfe segue com mais uma etapa seis estrelas em Hossegor.Vert em ManausInteresses políticos estão ameaçando a realização do Ecosystem, festival ecológico de música eletrônica no qual se realizará a segunda etapa do Brasileiro de Skate este fim de semana.KitesurfComeça hoje em Arraial do Cabo, RJ, a primeira etapa do circuito Kite Pro Tour 2002.

PALAVRAS-CHAVE
COMPARTILHE facebook share icon whatsapp share icon Twitter X share icon email share icon

LEIA TAMBÉM