Por Redação
em 3 de abril de 2006
Hoje acordei pensando que você pode ser minha. O dia está quente e molhado, ideal para te dizer: espero tuas lágrimas redondas, soltas, a deslizar pelo teu rosto sereno. E que você me olhe consciente. Sabe que estou metido na vida até o pescoço e que vivo contra a parede, também. Sem palavras, sem descansar.
Eu que vim do negro, que estive condenado ao nada e ao nunca mais, viajante da tormenta, obscuro decepador de flores, escondi você dentro de mim sem saber. Nenhum espanto, apenas corte no vácuo para não sucumbir à náusea. E vi em você o remédio que mata o mal que cura, embora eu nunca esteja certo de nada. E trazia um tigre entre os dentes, com meu hálito de fogo. Retalho de sombras que a noite chamuscou.
E se você me preferir, pergunto num arrepio. A lua talvez se quebrasse e então, lavado de luzes recolhidas na distância, lhe daria um nome. Porque nem um nome você tem, e já varres as calçadas, como o vento, levemente. O medo de te perder ou o de você não existir endurecem meus dentes e um soluço escapa dos olhos esgotados. Você é uma necessidade na trama de minhas veias.
Sou apenas um homem. Pequeno, que vê a vida passar sem compreender e cujos passos fugiram de si. Distribuo horas qual fosse dono dos minutos, em fria resistência, enquanto os delírios fogem pelas frestas da janela. Do fundo dos armários examino pensamentos qual flores em extinção. Desentulho a mente de tiranias e escravidões para te cobrir de beijos e passarinhos, enquanto o ar me foge da boca.
Se você não existisse e fosse apenas minha vontade de você, sentimentos guardados do passado cairiam em gotas, como flores de pano. O sol seria apenas um astro de luz estática, e tudo ficaria irrespirável e súbito. Não haveria por quê. O meu desassossego teria um nome e eu não seria mais atormentado. Porque eu prefiro a paz, sem dúvida. A paz que se move em braços guerreiros. De quem descansa depois de vida inteira. Paz como árvores centenárias, talvez a paz doce do escuro, das estradas longas e retas e daquela lua torta, cheia de destinos, que ameaça descer.
Não posso descansar, minha querida. Já me salvei do aniquilamento. Quem me conhece sabe como é duro amontoar todos os homens que fui num único peito do homem que sou. Tudo é grave, de uma simplicidade ácida, a vida tange provando que prossegue, inapelavelmente. E tudo se resume em saber se se fez tudo o que se podia ter feito. E você, jovem lua cheia, índia morena dos olhos mortiços de tesão, qual a medida?
E as exigências brutais da vida? A coexistência impossível e assim mesmo cada vez mais necessária, enquanto a luz do sol lambuza tudo de calor e brilho. A necessidade de estar abruptamente acordado e com os olhos cheios de vida, mesmo quando tudo parece inseguro, como uma noite calada. O dinheiro, esse silêncio a sinalizar o próprio silêncio. Sempre se perde porque a idéia de valor já é perdida.
De realidade temos nós, doce morena. Isto é, esse instante aqui em que se acumulam todos nossos momentos anteriores. Temos o que supusemos ser e no que falhamos em ser. Um coração selvagem mal alimentado pela consciência, dessa nossa fome em existir. Cheios de nós invadimos a vida imaginando que estamos vivendo. Não estaremos, por acaso, sonhando? Onde a certeza de que é agora que estamos lúcidos? Aliás, o que é isso de lucidez, essa idéia tão no vácuo que, se não houvesse a teoria da relatividade, seria preciso inventar só para entender?
Quando de tanto viver já não posso reviver e tudo promete ser palpável como os sentimentos, esses ventos alongados, então e somente então, você aparece. Você me invade, vasculha, e como um barco, quase à mercê das marés, fico à deriva. Nem sempre você me socorre. Às vezes fica a pecar sobre a origem de seus próprios movimentos e me deixa, desarvorado como o náufrago da noite, obscurecido na sombra de mim mesmo.
Alimentei-me de abandonos e atravessei desertos de esquecimentos. Claro que perdi a vontade de gritar por dentro. O tempo é como ferida em carne viva e nenhuma de suas janelas tem cortinas. A gente fica ali, afundando noite adentro, ainda querendo manter o futuro intacto, depois de tantos comprometimentos. Doenças tristes e livros estranhos cercam-me em milhas de silêncio.
Depois de tantos anos vivendo meio como que sangue a escorrer pelas veias, a alma da cara se estampa e vê os outros a sofrer longe e perto. Tenho pena de mim, de você e compaixão por eles. Você me encontrou enquanto eles se perderam. Você que me deixou te acariciar sabendo-me perdido, em ruínas, mesmo quando te preveni.
Estava devastado e sem chances. Você viu coração quando todos mediam o tamanho de minhas antigas condenações. Insegura mas clara, e, acho, pode abandonar o passado e ao relento da vida decidiu me encontrar.
Não me perdi em olhos vazios, o que posso encontrar em você, enquanto o dia se arrastava preguiçoso e quente. Foi rapidamente, a vida sempre me deu inteiro o que necessitava. Sabia que não era possível entender de verdade as pessoas. Vasto demais. No máximo é possível conviver com a parte delas que nos permitem. Você é todas elas. Então, sem medo, concreto até os ossos, sorri tolerantemente para o destino e me alastrei, converso, por entre as estrelas.
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