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MAMONAS NA MADEIRA

Por Redação

em 21 de setembro de 2005

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‘Cara, eu cheguei em casa e vi a luzinha da secretária eletrônica piscando. Apertei o botão e dei de cara com a voz da Lúcia cheia de amor pra dar, avisando que tinha terminado o noivado e queria me ver. E eu aqui embarcando com meia dúzia de passageiros para Lisboa’.
Se o comentário tem um lado alentador, na medida em que nega o discurso corrente de que a categoria dos comissários de bordo seria monopólio gay, por outro, é extremamente desagrdável reclinar a poltrona minutos após a decolagem e descobrir que as pessoas que deveriam dar o exemplo seriam o principal incômodo naquela viagem.
Não parou por aí. Tive que ouvir compulsoriamente a comissária reclamando da baixa pensão que recebia ‘daquele otário’ referindo-se ao ex-marido. Comentários maldosos sobre os odores eventualmente exalados por um certo passageiro português. Para quem gosta de detalhes, estamos falando do vôo que decolou de São Paulo rumo a Lisboa na quinta feira retrasada, tripulado por uma equipe que, com todo o respeito, não merecia sequer servir balas Chita no Rápido Jauense. Sem qualquer preconceito, é necessário, em nome da boa informação, deixar registrado tratar-se de uma equipe carioca. Acrescente-se, portanto, a todo baixo nível das conversas um volume excessivo e os insuportáveis ÉRRRECHSS e ÉISSESSS de praxe. Não bastasse a equipe sofrível, o cardápio palpérrimo servido não oferecia opção ao bife de carne de aparência questionável. Tentando demonstrar educação e, ao mesmo tempo, ser aceito no reino dos ESSHPERRtos, chamei um dos malandrões e disparei: ‘Por favor, ouvi dizer que vocês teriam peixe como opção de prato quente …’ Atenção para a resposta: ‘Meu iRRmão, é lenda … É só caRRRne meISSHmo’.
Enquanto a TAM não conquista a rota internacional, só resta ativar os head-phones e tentar esquecer o episódio.
Difícil, porém, é esquecer que a imagem do Brasil no exterior depende daqueles pobres diabos que estudaram mal, tiveram treinamento ainda pior e acrditam, de verdade, que se não se esquecerem de chamar os passageiros de senhor, estão dispensados até mesmo de olhar em seus olhos na hora de serví-los.
A imagem do Brasil no exterior é realmente tão confusa e imprevisível quanto uma equipe de tripulantes da VARIG.
Os menos informados ainda se limitam a recitar nomes decorados de jogadores de futebol. Conforme as idades, vão de Zizinho a Romário, passando por Sócrates e (mais na Itália), Falcão.
As pessoas com acesso maior à informação vivem uma autêntica confusão quando a palavra Brasil vem à luz.
A figura do presidente educado, professor da Sorbonne, bate de frente com os 54 assassinatos ocorridos num final de semana comum apenas na capital paulista.
Talentos isolados (e nem por isso menos brilhantes) do esporte, como os campeões mundiais do vôlei de praia, os mestres do jiu-jitsu ou os excelentes surfistas brigam nas mentes dos estrangeiros com a imagem de ‘Gérson’ que grande parte de nossos conterrâneos ainda se esforçam em espalar.
A boa notícia é, porém, apesar de toda a (in) competência dos idiotas brasileiros que vagam pelo exterior, dentro e fora dos aviões da VARIG, o saldo é cada vez mais positivo. A graça e o talento da parte boa do Brasil há muito eliminou qualquer dúvida que pudesse pairar a respeito de sua autenticidade.
Na Ilha da Madeira, um acidente geográfico perdido no oceano a 400 milhas do Marrocos e 600 de Lisboa, vi muita gente lamentando de forma sentida o acidente que levou Dinho e seus Mamonas. Poucos deles, na verdade, sabiam que uma das próximas paradas da banda seria Lisboa.
Muitos conhecem e torcem o nariz para a música ‘Vira’, mas uma parcela proporcional da paixão que a banda despertou no Brasil já havia batido por aqui. A versão brasileira dos ‘Jerkie-Boys’ norte-americanos deixou saudades e fez correr algumas lágrimas na Ilha da Madeira. Mas como a vida continua, vários jornais e revistas por aqui trazem fotos do Max, Ígor, Andreas e Paulo junto às críticas, todas muito positivas, ao novo disco do Sepultura. Felizmente, agora, um verdadeiro som com BRAZILIAM ROOTS.

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