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MALUF, DUDA E OSCAR

Por Redação

em 21 de setembro de 2005

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O editorial de primeira página publicado ontem pelo JT é de arrepiar couro curtido. Qual será a disposição dos governantes eleitos daqui por diante? Arrumar a casa de verdade ou cozinhar o galo? Se o quadro desenhado no editorial mencionado provoca apreensão, de outro lado há um certo alívio considerando-se a vitória com razoável vantagem de Mário Covas em São Paulo. Em que pese o fato de que ninguém exerce poder e a política impunemente, o embate entre ele e Maluf consistiu na mais pura e clara batalha entre alguém que conserva caráter e alguma decência (e que deseja entrar para a história como estadista e administrador que protagonizou períodos importantes) e um fulano que tem muito pouco a perder, cuja imagem ligada a eventos duvidosos e comportamentos questionáveis confunde-se com a própria história do país.
O fato das pessoas mais simples terem percebido e reagido à manipulação de marketeiros e ao fingimento descarado do candidato mostrou que o acesso ao consumo não foi o único sinal de sofisticação e evolução observado entre a faixa mais pobre do Brasil. Há, felizmente, uma nítida batalha pelo conhecimento, uma vontade de deixar de ser manobrado, de influir e exigir respeito.
Maluf, que insistia no último debate em sarcasticamente atribuir sinais de senilidade ao oponente (ironicamente apenas alguns meses mais velho que ele próprio), foi obrigado pelo povo que sempre manobrou, a deparar-se com a dura realidade. À beira dos setenta anos de idade, teme não ter forças para continuar lutando em eleições futuras pela manutenção de um país de desgraçados. Pior que isso, teme que em quatro anos poucos se lembrem dele, uma demonstração clara de que pouco há de duradouro, até na opinião do próprio, em sua biografia.
Se Maluf deixa o pleito mais queimado que panela de pobre, há outras tristes figuras que saem dele igualmente chamuscadas.
Duda Mendonça, o pequeno duende fabricante de fantoches tenta entender o que teria acontecido. Afinal, os filmes tinham boa fotografia, as bandeiras caprichavam no lay-out, as frases colocadas na boca do candidato foram bem ensaiadas, as montagens de photo shop saíram boas no outdoor… o que teria feito a receita da poção mágica que transforma sapos em príncipes desandar? Os setenta milhões que enfiou no bolso nestas eleições certamente vão ajudá-lo a passar por este momento difícil que, aliás, deve durar pouco, já que a consciência, o órgão geralmente mais afetado nestas horas, parece ter-lhe sido amputada há tempo. Talvez reste a ele uma vaga na produção do programa do Ratinho, onde segundo consta, também vale tudo para sensibilizar o eleitorado.
Falando em tristes figuras, não se pode esquecer de alguém que jogou no lixo uma carreira brilhante para dizer o mínimo. Oscar ‘do basquete’, como foi rotulado, depois de reluzir em olimpíadas, jogos panamericanos, tornar-se um dos orgulhos do sofrido esporte nacional, seduzido sabe-se lá porque, posa de papagaio de pirata, aceita que lhe seja enfiado goela abaixo um discurso que beirava a boçalidade e põe a perder a admiração que conquistou a custa de décadas de trabalho árduo com a bola nas mãos. Sai da eleição derrotado, esgarçado, visto como o candidato de um neurônio só, reforçando o velho preconceito que tanto tentou afastar de nossas vistas, o de que atletas são menos privilegiados intelectualmente.
Que tudo isto sirva para alguma coisa. De preferência para alertar os vencedores, incluindo FHC e Covas, de que a época em que bastava abrir uma porteira para que o gado seguisse resignado para o abate está ficando para trás.

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