por Felipe Maia

Representante brasileiro na Copa do Mundo de Slam, o paulistanochegou até a semi-final da competição realizada na França

Lucas Afonso não negou o cansaço quando pisou no prédio que abriga a prefeitura do vigésimo distrito de Paris. "Nunca fiz uma viagem tão longa quanto essa", disse. Havia quase um dia, ele tinha saído de sua casa em São Miguel Paulista, na zona leste de São Paulo, para dali chegar a seu destino: a Copa do Mundo de Slam, realizada na zona leste da capital francesa. Com 23 anos, o poeta é o mais jovem representante brasileiro a ter alcançado a semi-final da competição — o troféu dessa vez foi para Amélie Prévost, da província canadense do Quebec.

Nesse campeonato, artistas do mundo todo declamam poemas em idiomas tão díspares quanto o árabe marroquino, o inglês norte-americano ou o hebreu israelense. Cada participante tem direito a três minutos para apresentar um texto de autoria própria sem auxílio de nada além da voz, do corpo e de um painel com legendas em inglês e francês do poema. Um júri composto por cinco pessoas do público dá notas a cada exibição. Passa de fase quem somar a melhor pontuação. "É claro que a questão do idioma divide um pouco a atenção, rola essa dificuldade, mas não é nada que atrapalhe", explicou Lucas.

O poeta chegou à semi-final graças a versos afiados. Ele reclamou os espólios da colonização europeia para cada novo cadeado da célebre "Pont des Arts" na poesia homônima. Em "Yáyá", atacou a violência contra a mulher da periferia na mesma semana em que casos de estupro vem à tona no Brasil. O busão lotado e a marmita fria de tom autobiográfico também tiveram espaço em textos que beiravam a canção. "Eu canto rap, as poesias que eu uso na batalha são minhas músicas", explicou ele . "Essa é a minha linguagem."

Lucas aprendeu a tocar violão quando criança e ainda adolescente se aproximou da cena dos saraus da periferia de São Paulo. Além de escrever poemas e letras, hoje ele é um dos organizadores do Slam da Ponta, em Itaquera, bairro da capital paulista. Segundo suas estimativas, há cerca de cinquenta grupos do gênero em todo o Brasil. Cada um tem seu representante no campeonato brasileiro que, na edição de 2015, teve Lucas como vencedor. Essa foi a terceira participação dele na competição que é realizada desde 2011.

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Nascido nos Estados Unidos na década de 1990, o movimento performático-literário do slam chegou ao Brasil com o ZAP (Zona Autônoma da Palavra). O coletivo foi criado em 2008 pela atriz e MC Roberta Estrela D'Alva, representante brasileira na Copa do Mundo de Slam em 2011. Outro nome importante do movimento é Emerson Alcade. "Quando eu vi ele ganhando o Slam Brasil, aquilo me inspirou demais, me deu uma motivação", lembrou Lucas. "Eu falei pra um amigo: vou escrever poesia para participar disso."

Lucas agora está ao lado de Roberta, Emerson e de João Paiva no rol ainda em construção dos poetas brasileiros que chegaram à Copa do Mundo de Slam. Sem o troféu na mala — um dos lemas da competição é "o melhor poeta nunca ganha" —, Lucas volta ao Brasil certo de que valeu a pena a viagem. "Muito além da batalha, a gente poder se conhecer, entender algumas coisas", disse ele. "Apesar das distâncias, alguns problemas sociais e políticos são muito parecidos em muitos lugares do mundo: os sentimentos são universais."

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