por Daniel Benevides

Entre os 13 transformadores da noite, o arquiteto recebeu o Prêmio Vida Transformadora

A terceira edição do Prêmio Trip Transformadores, que aconteceu nesta quarta, no Auditório Ibirapuera, em São Paulo, foi marcada tanto pela emoção, medida pela forte troca de abraços entre os participantes, quanto pela troca de ideias. Em aproximadamente uma hora e meia, através de vídeos e depoimentos, o público pode conhecer um pouco melhor da vida dos treze homenageados deste ano, pessoas que transformaram profundamente a dinâmica das comunidades às quais se dedicaram, e das situações adversas que enfrentaram, sempre com criatividade e coragem.

Ao contrário dos anos anteriores, o Prêmio dessa vez focou em menos indicados, para que, nas palavras de Paulo Lima, editor da Trip, “a gente pudesse mostrar com mais profundidade o que elas têm a dizer”. Outra novidade foi a entrega do Prêmio Trip Vida Transformadora. “Com tantas pessoas boas e inspiradoras, foi muito difícil escolher quem receberia esse prêmio”, acrescentou Lima.

Começando a noite, e já dando o tom de diversidade do evento, a cantora Inaicyra, do terreiro do Ilê Axé Opô Afonjá, filha de Mestre Didi, apresentou, com sua voz lírica, “Ajale”, música da cultura tradicional afro-brasileira, acompanhada por cerca de 40 meninos e meninas, alunos da Escola Auditório, e seus instrumentos de sopro e cordas.

O primeiro troféu da premiação foi entregue por quem o desenhou, o arquiteto, designer e membro do Conselho editorial da Trip Carlos Motta. “Todas as vezes que eu venho  ao Transformadores, fico com o olho cheio de lágrimas”, avisou. O homenageado era o sertanista José Carlos Meirelles , que dedicou sua vida aos índios da Amazônia que vivem isolados da chamada civilização. Depois de descer do palco, declarou: “Esse Prêmio é um incentivo para as pessoas, isso ecoa em outros setores da sociedade civil, não adianta só dois ou três se envolverem”.

"Antes, era dono da informação quem aprendia e ficava com ela. Hoje, é dono da informação quem aprende e a repassa"

Para entregar o troféu seguinte, o ator Lee Thalor , apresentador do evento, convidou ao palco um dos apoiadores do Prêmio, Paulo Kakinoff, presidente da Audi, que brincou com o homenageado: “é generoso até no apelido”, e o abraçou fortemente, chamando-o de heroi. Anderson Balbino de Souza, o Dando, com seus 25 anos, foi direto em seu agradecimento: “Esse prêmio abre caminho pra novos transformadores em Antares. Com informação somos todos iguais”. Dando é responsável por uma verdadeira revolução digital na favela de Antares, na estrada que leva a Angra dos Reis, zona oeste do Rio.“Antes, era dono da informação quem aprendia e ficava com ela. Hoje, é dono da informação quem aprende e a repassa. Isso é transformador”, completou.

Fundadora da Casa do Zezinho e já homenageada na primeira edição do Prêmio, Tia Dag subiu ao palco acompanhada de Marcos Lopes, o Nenê, uma das muitas pessoas transformadas pelo projeto, hoje escritor  e  educador. Juntos entregaram o troféu para a pernambucanaVanete Almeida, criadora da Rede de Mulheres Rurais da América Latina e Caribe. Simples, mas com forte presença, Vanete disse ter aprendido com as mulheres com quem trabalha a ter, força e coragem e altivez e dignidade,“sentidos que construímos coletivamente”. Agradeceu à Trip, sendo muito aplaudida. E acresentou: “com ou sem prêmio, pensei que a gente que deve sempre pensar em possibilidades e novas saídas, principalmente eu que vim de um lugar sem possibilidades e de muita pobreza”

O documentarista Carlos Nader e também colunista e membro do Conselho Editorial da Trip foi o próximo a subir no palco. “A gente sai bem daqui, a noite em si é transformadora”, disse. E, ao apresentar o homenageado seguinte, o jornalista Caco Barcellos, falou sobre o papel da imprensa "A figura já histórica do Caco Barcellos nos lembra sempre de como o papel da imprensa deve ser  interpretado: discreto, atento -  e implacável."  Barcellos, por sua vez agradeceu “às pessoas que me confiaram suas histórias, segredos, injustiças que sofreram na busca por uma vida melhor” E continuou: “se eu tenho um papel a cumprir é observar e contar o trabalho e a vida dessas pessoas, que são as verdadeiras transformadoras”. E, dentro do espírito da premiação:“troquei ideia com o Ladslau, acho legal as afinidades em outros segmentos, às vezes você está focado  na sua trajetória pessoal e não se dá conta de que aquilo que você está pensando está na cabeça de outras pessoas também”.

Seguiu-se outro momento com a cantora Inaicyra e sua presença algo mística.  Por entre as grandes velas translúcidas que formavam o cenário, ela cantou à capela a música “Iwa Alabo”.

“Me reconheci como ser humano na contracultura, quando queria mudar o mundo com sexo, drogas e rock'n'roll. Hoje a cibercultura traz à tona os mesmo valores que a gente perseguia na época. Mas eu mesmo não sei fazer porra nenhuma, só conecto as pessoas”


Findos os aplausos entusiasmados, Lee Thalor chamou David Feffer, presidente da Suzano Papel e Celulose, marca alinhada com os princípios da Trip e apoiadora do Prêmio desde o ano passado. Ele entregou o troféu  para o criador do GRAAC Sergio Petrilli, que declarou: “Quando a gente começa essa jornada a gente nunca pensa em ganhar um prêmio, mas quando a gente ganha é ótimo. Hoje o GRAAC tem 60 mil pessoas que nos ajudam. Sabemos que o governo é responsável, mas onde não consegue resolver os problemas, essas pessoas arregaçam as mangas e fazem coisas fantásticas. O Brasil tá melhorando, cercando nosso déficits com essas pessoas.”

O gerente de produção gráfica Walmir Graciano, 21 anos de Trip, e a repórter Katia Lessa, a Kakau, entregaram em seguida o prêmio a Claudio Prado, visionário das interações na internet, que lembrou do seu tempo de revolução pessoal, nos 70: “Me reconheci como ser humano na contracltura, quando queria mudar o mundo com sexo, drogas e rock'n'rol. Hoje a cibercultura traz à tona os mesmo valores que a gente perseguia na época. Mas eu mesmo não sei fazer porra nenhuma, só conecto as pessoas”.

Ao chamar o escritor Cristovão Tezza, autor de O Filho Eterno, livro em que conta sua experiência com o filho com Síndrome de Down, a apresentadora Lorena Calabria disse: “para mim, essa experiência transformadora de criar um filho ganhou um novo sentido com esse livro”. Bem humorado, Tezza referiu-se ao videos que eram exibidos com a obra dos homenageados: “Vocês capricharam tanto ali que tenho medo de estragar a festa. Modesto, continuou: “minha mulher que é a verdadeira transformadora, eu só peguei carona, sou um aprendiz de transformador. Esse prêmio lembra a solidão literária como algo que pode provocar profundas transformações na nossa vida. Acho muito legal a ideia de transformação como elemento a ser premiado, porque a estagnação é a morte.”

Presidente da Gol Linhas Aéreas e apoiador do prêmio desde a sua primeira edição, Constantino Oliveira Junior, entregou o próximo prêmio a Ana Moser, criadora do Instituto Esporte e Educação. Depois de subir os degraus para o palco com a agilidade de jogadora, disse: “garanto pra vocês que os prêmios e o reconhecimento dessa fase da minha vida vale mais do que as medalhas, hoje consigo chegar mais perto das pessoas. Minha missão é facilitar o talento das outras pessoas e ajudar com que todo mundo possa encontrar o seu caminho e ajudar para que o Brasil seja um pais de verdade, que a gente merece.” Entusiasmada, depois ainda disse: “dá muito mais energia agora, vendo as outras histórias, é fabuloso. O Brasil tem muitos talentos.”

A cantora Inaicyra voltou ao palco, dessa vez acompanhada pelo violão e voz de Beto Pellegrino e atabaque de Bié. Cantou “Ayaba Osobgbo”.

“A economia deve nos servir e não nós servirmos aos interesses econômicos”

Dr. Miguel Krigsner de O Boticário apresentou o homenageado Ladslau Dowbor, criador de um novo conceito de economia. Foi dele a frase mais aplaudida da noite: “A economia deve nos servir e não nós servirmos aos interesses econômicos”. Com uma sensatez contagiante, lembrou que “se as crianças morrem na miséria não é crise; só se fala em crise quando os bancos quebram.” Depois ainda disse que a premiação é ótima como referência para as novas gerações.

Amigo da Trip das antigas, Luciano Huck saudou o “banho de cidadania e inteligência social que é o Prêmio”. “Todo mundo tem uma historia a contar, basta querer ouvir. Como essa dupla que foi ouvida pelo povo.” Uma animada Joelma e um tímido Chimbinha, da banda Calypso, subiram ao palco para abraçar Huck e receber o prêmio.

Lee Thalor então chamou Marcello Serpa, sócio-presidente e diretor de criação da AlmapBBDO, um dos grandes parceiros do prêmio desde a primeira edição e também membro do Conselho Editorial da Trip, que declarou: “Nosso papel é servir como microfones  e altofalantes parr amplificar a voz dessas pessoas”.

Serpa entregou o troféu a uma muito emocionada Marika Gidali, fundadora do Ballet Stagium, que subiu ao palco apoiada em sua neta. “Minha vida é um processo de trabalho e o prêmio vira parte dele, me empurra para frente e dá vontade de acordar amanhã e continuar trabalhando. Tudo o que eu faço é porque eu queria devolver o abraço que o Brasil me deu.”

O fundador e diretor superintendente da Trip, Carlos Sarli, o Califa, e o diretor editorial da Trip Fernando Luna fizeram as vezes de apresentadores.  Califa salientou o orgulho  e o prazer que é poder homenagear essas pessoas. Luna, por sua vez, chamou o último homenageado, o arquiteto João Filgueiras Lima, o Lelé, criador de projetos econômicos e sustentáveis, feitos com o pensamento voltado para o bem estar das pessoas. Disse: “Num país de nomes tão fortes na aqrquitetura como Niemeyer e Mendes da Rocha, ele só precisa de um apelido pra ser lembrado. Seus prédios são lindos de olhar e muito bons de estar dentro.”

Comedido, Lelé elogiou o prêmio: “Esse formato me permitiu uma aproximação com o escritor fantástico que é o Tezza; essa troca de experiências e de informação é muito importante pro desenvolvimento do Brasil.”

Lelé foi o vencedor do novo Prêmio Trip Vida Transformadora, que recebeu da filha Adriana, após a explicação de Thalor sobre o desenho do troféu, feito por Carlos Motta, que se baseou num meteorito.
 “Isso me inspira não tanto como profissional da arquitetura mas como cidadão. Essa troca de ideia estimula as pessoas a trabalhar mais juntas!”, declarou mais tarde.

A festa, que teve o patrocínio de O Boticário, e com apoio de Gol,  Suzano Papel e Celulose, Audi, grupo INK, Almap/BBDO, Jornal O Estado de São Paulo e  Rádio Eldorado, terminou com a apresentação dos guitarristas Andreas Kisser e Edgar Scandurra, que fizeram um pout-pourri de “Maracatu Atômico”, “Trenzinho Caipira” e “Que país é esse” com acompnhamento do atabaque de Bié. Ao fundo, o Ibirapuera.

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