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Lança-perfume é isso aí!

Lenço na boca e boca no chão

Por Redação

em 21 de setembro de 2005

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Parece claro que quanto mais se acentuam os tons da globalização mais as diferenças entre povos, culturas e suas nuanças se fortalecem. Os Mc Donalds de Farroupilha podem até se orgulhar de fazer Mc Chickens idênticos aos da loja da Henrique Schaümann, mas ligue para qualquer assinante da lista telefônica da cidade gaúcha e veja se o sotaque mudou, ou pergunte se ele abandonou sua cuia de chimarrão…
É curioso como, a medida que tudo tende a ser uma coisa só, nos apegamos mais e mais às diferenças que formam nossa identidade…
Mas, por melhor que seja a explicação, tenho dificuldade para enquadrar um fenômeno que descobri no fim de semana passado em Santa Catarina. Explico: Ao que parece, o lança-perfume está na moda de novo. Caiu nas graças da classe média alta das grandes cidades do Estado. É óbvio que não se trata de um fenômeno isolado. Muito especialmente no período pré e pós-carnaval, as grandes cidades brasileiras descobrem um dos únicos traços reais do Mercosul. Milhares de caixas de Universitário com seus tubos de vidro fino e rótulo verde e preto infestam ruas e salões de festas de inúmeras cidades de vários Estados do Brasil.

DISCRETO CHARME

Um certo charme, fruto do design da própria embalagem, do fato de ser um produto industrializado, de uma espécie de tradição que reza que no passado era uma espécie de brincadeira amplamente aceita e disseminada entre a sociedade, deu ao lança perfume, uma espécie de salvo-conduto.

A impressão que se tem, é de que, mesmo entre as pessoas mais esclarecidas, se trata de algo de menor importância, uma coisinha leve, uma indulgência menor, como deixar o filho adolescente dar um golinho no copo de uísque do pai.

Assim, alimentar uma rede de tráfico passa a ser um detalhe menor, quando se vê um monte de gente boa começando a noite com lenços molhados com o líquido no nariz, partindo em seguida para aspirar pela boca direto do tubo, e perdendo completamente o controle depois de algum tempo.

Numa festa grande que presenciei, vi pelo menos dois fulanos caindo de cara no chão, depois de uma aspirada mais profunda. O primeiro deu sorte. Caiu meio de lado, amparado pelos amigos, levantou-se rápido, e saiu andando iludido, com um sorrizinho no canto da boca, como quem conseguisse vencer os próprios limites da consciência, deixando para trás as tensões do mundo social e regressando rápido, sem maiores prejuízos. O segundo, ao contrário do nosso pequeno Thimoty Leary de salão, teve menos sorte. Caiu de boca literalmente. Não teve sequer tempo de se livrar do tubo de vidro. Perdeu dois dentes da frente, fez um corte profundo nas costas da mão e não deve ter achado graça nenhuma quando passou o efeito tuim.

Não acho que quem busca alterar seu estado de consciência dessa forma, deva ser julgado moralmente. Nem mesmo por um juiz de Direito.
Nos casos mais agudos, acho que devem ser oferecidas ajuda médica, e principalmente psicológica.
O que me parece lamentável, porém, é que pessoas se matem, ou pior, que ganhem dinheiro, em conseqüência da ignorância dos pobres coitados que não têm a menor idéia do que estão fazendo com as próprias vidas.

NA REAL

Assim, vejamos no que é possível ser útil:
O CEBRID, órgão ligado à Universidade Federal de São Paulo, formado por especialistas em medicina, sociologia, farmácia-bioquímica, psicologia e biologia, cataloga o lança-perfume (e seu primo pobre de fabricação caseira, o cheirinho da Loló) na categoria dos solventes. A mesma seara das colas de sapateiro, cujos usuários, em geral mais pobres, a mesma classe média que compra universitário, vê com um misto de pena e repulsa
.
Feito basicamente de cloreto de etila, o lança gera um curto período de euforia sucedido de depressão, alteração da visão e da audição, e em casos mais agudos queda de pressão arterial, surtos de convulsões e inconsciência.

Essas drogas tornam o músculo cardíaco mais sensível à adrenalina. Há casos na literatura médica de síncopes cardíacas e de morte de adolescentes, provocadas não só por quedas em função da perda dos sentidos, mas também por complicações cardíacas.
Se mesmo com essa informação as pessoas continuarem dispostas a tentar a sorte, de verdade, sem nenhuma dose de julgamento moral, não tenho nada contra.

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