Kaique Brito: humor e crítica social nos vídeos do TikTok

por Dandara Fonseca

Fenômeno nas redes sociais com seus vídeos dublando discursos de políticos, o soteropolitano de 15 anos fala sobre humor, haters, racismo e a cobrança para ter opinião sobre tudo

Quando algum membro do governo faz um pronunciamento polêmico ou um discurso absurdo viraliza nas redes sociais, é hora do estudante Kaique Brito brilhar. Em vídeos curtos, o soteropolitano de 15 anos dubla falas que considera problemáticas e usa a ironia para tratar de problemas sociais como racismo e  machismo. 

Kaique já tinha um grande número de seguidores no Musica.ly – aplicativo comprado pelo TikTok –, mas foi em abril de 2019, quando postou um vídeo no Twitter dublando um áudio sobre racismo reverso, que ele se tornou uma celebridade na internet. "Fui dormir com 10 likes e, quando acordei, o post tinha mais de 10 mil. Nenhum vídeo meu tinha chegado a esse número", conta ele, que hoje coleciona mais de 180 mil seguidores no Twitter e quase 100 mil no TikTok. Entre as personalidades que acompanham os seus vídeos estão o diretor Kleber Mendonça Filho e a apresentadora Maisa. 

Apesar do sucesso, não são poucas as críticas que ele recebe, especialmente ao dublar discursos de políticos como o presidente Jair Bolsonaro ou a ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, Damares Alves. "Como meus vídeos tem um teor social, quem não concorda vai querer falar", diz. "Inclusive, as críticas vêm principalmente de adolescentes da mesma idade que eu, que simplesmente não querem falar de assuntos como racismo."

No papo com a Trip, Kaique conta quem está seguindo no TikTok e fala sobre política, haters e a cobrança para repercutir todos os assuntos: "Às vezes eu não tenho uma opinião 100% formada. Eu tento falar só sobre o que eu sei o mínimo. Quando as pessoas falam sobre política em si, eu tento me inteirar, estudar, mas prefiro ficar calado para não falar nada de errado."

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Trip. Como surgiu a ideia de gravar os vídeos? 

Kaique Brito. Eu sempre gravava, mas não postava. Em 2016, comecei a postar regularmente vídeos no YouTube, copiando youtubers que eu sempre gostei. Só que o canal nunca foi para frente, porque não tenho muita paciência para vídeos longos, meu lance são vídeos pequenos. Depois comecei a postar o dia todo no Musica.ly, aplicativo que virou o TikTok. Lá eu postava vídeos  gravando músicas, com efeitos especiais, mas ainda sem uma pegada social.

Seus amigos e família já falavam que você era engraçado? Sim. Eu não gravava só vídeos de humor, mas todo mundo falava que os que eu fazia eram engraçados e eu nem percebia. Tanto que, por muito tempo, continuei gravando vídeos dublando músicas, fazendo vídeos de edição especial e nem me ligava.

Quando você percebeu que estava ficando conhecido na internet? No Musica.ly eu já tinha uns 26 mil seguidores, mas era algo mais fechado, para quem gostava mesmo dos meus vídeos. Percebi que estava realmente bombando quando eu postei no Twitter meu vídeo sobre racismo reverso no ano passado. Fui dormir com o post com 10 likes e acordei com 10 mil. Foi muito bom, nenhum vídeo meu tinha chegado a esse número.

Como surgiu a ideia do vídeo? Uma amiga mandou em um grupo o link do vídeo de uma menina falando sobre racismo reverso. Eu vi inteiro, com dor, mas vi. E na hora pensei em dublar esse áudio no TikTok, mas fiquei preocupado se as pessoas iam entender a ironia ou achar que estava concordando com ela. Gravei e, quando mandei para meus amigos, eles falaram para postar no Twitter. A partir de então, gravo quando vejo um discurso que eu acho que dá para tornar engraçado, porque às vezes é até absurdo demais. E normalmente, quando alguém fala alguma besteira, as pessoas já me marcam e falam que é a minha hora, que é o meu momento.

“Quando as pessoas falam sobre política em si, eu tento me inteirar, tento estudar, mas prefiro ficar calado para não falar nada de errado”
Kaique Brito

Tem gente que não entende a ironia dos vídeos? Sim, isso aconteceu muito nesse primeiro vídeo mais crítica social. O primeiro perfil do Instagram que repostou foi um perfil de bolsominions. Eles acharam que eu estava concordando com o que a menina estava falando e todo mundo ficou rindo, achando engraçado. E quem seguia esse perfil e entendeu que era ironia ainda me mandou hate. Inclusive, se você for nesse vídeo no Twitter e descer nos comentários, tem gente me falando a mensagem daquele vídeo, só que as pessoas não entenderam que era ironia. 

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Você já se interessava e falava sobre questões políticas e sociais? Na escola, desde sempre esses assuntos eram debatidos. Com a minha família também, em casa. Em 2018, especialmente na época das eleições, eu militava o dia inteiro nos status de WhatsApp. E são assuntos que eu falo até hoje com os meus amigos. Então essas questões sempre fizeram parte da minha vida, só que agora mais do que nunca. Até porque quem fala comigo nas redes sociais fala praticamente sobre isso. Eu posto uma coisa nada a ver e as pessoas enfiam assuntos políticos e sociais. 

E você tem uma posição política? Eu tenho 15 anos, não sei de tudo sobre tudo e as pessoas querem que eu saiba. Eu tuíto sobre qualquer coisa e perguntam se eu não vou falar sobre certo tema que está nos trending topics. E às vezes eu não sei, não tenho uma opinião 100% formada. Eu tento me comunicar principalmente pelos meus vídeos, é a forma que eu me sinto mais confortável para me expressar. Falando com palavras sérias, falando como uma pessoa crescida, não sei muito.

Te cobram muito para falar sobre tudo? Sim, sobre coisas que eu nem sabia que existiam. A pessoa resgata um discurso absurdo que alguém fez anos atrás, que eu nunca nem tinha visto, e pedem para que eu grave uma dublagem. E eu só penso: o que é isso? Eu tento falar só sobre o que eu sei o mínimo. Tem assuntos, como economia, que eu não entendo muito. Eu penso e gravo muito mais sobre assuntos sociais que vivencio no dia a dia, como racismo, machismo. Quando as pessoas falam sobre política em si, eu tento me inteirar, tento estudar, mas prefiro ficar calado para não falar nada de errado.

Quais foram as coisas mais legais que aconteceram depois do reconhecimento? No primeiro dia em que meu vídeo hitou no Twitter, muita gente que eu gostava me notou. Maisa, Nilce, Felipe Neto, pessoas que sempre acompanhei. Fora isso, fui convidado para um evento que a Netflix fez, o Tudum, e muita gente que gosto me conhecia. Tipo, a Gretchen me conhecia. A Gretchen. Acho que esses dois acontecimentos foram muito impactantes. 

E você tem muitos haters? Como lida com as críticas? Quando fui criando a minha comunidade de seguidores, eu via umas críticas, ficava com o pé atrás, mas eu sempre soube que todo criador de conteúdo passa por isso. É uma coisa tão genérica, esses mesmos comentários que fazem para mim fazem para gente que eu gosto. Eu evito ler, mas quando leio e me afeta um pouco converso com os meus amigos e esqueço na mesma hora. 

As críticas aumentaram quando você começou a fazer um humor mais social? Elas surgiram aí. Na época do Musica.ly eu não lembro de hate nenhum. E no TikTok também não, porque ali você segue quem quer assistir. Quem você não quer, é só passar o vídeo para cima. Já no Twitter, quando o meu vídeo bombou, veio muita gente. Como meus vídeos tem um teor social, quem não concorda vai querer falar. E é bem polarizado. Mesmo que nem tudo que eu faça seja sobre política, mesmo quando trato de um tema social que deveria ser a opinião de todo mundo, como racismo, as pessoas comentam. 

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“Minhas críticas vem principalmente de adolescentes da mesma idade que eu e que simplesmente não querem falar de assuntos sociais”
Kaique Brito

Você quer seguir produzindo conteúdo audiovisual? Esses dias eu estava fazendo testes vocacionais do Google, porque minhas matérias preferidas sempre foram inglês, matemática e física, nada ver com o que as pessoas acham que eu sou. Mas com o tempo fui percebendo que só me identifico com o audiovisual, ou algo que envolva internet, que sempre gostei muito. 

Muita gente via o TikTok como uma rede mais jovem e com vídeos com um humor menos politizado. Você tem percebido uma mudança no conteúdo? Sim, com certeza. Antes era 100% um humor do dia a dia, mas agora muita gente tem conhecido o aplicativo, então automaticamente vai conteúdo diferente para lá. Tão chegando vídeos mais sociais, adultos, e tem espaço para todo mundo. Tem uns vídeos de idosos que eu amo acompanhar, são muito engraçados e muito legais.

Como tem sido o isolamento social? Mudou muito minha rotina, inclusive estou morrendo de saudade de ir para a escola. Por meu público ser principalmente adultos, com mais de 18 anos, eles me imaginam no estereótipo do adolescente que odeia escola, não quer ir. Claro que tem dias em que eu fico assim, mas sempre fui o CDF da turma, ainda sou. 

Por que você acha que seu público é mais velho? Meu público é mais adulto por conta dos assuntos que eu falo. Inclusive, minhas críticas vem principalmente de adolescentes da mesma idade que eu, e que simplesmente não querem falar de assuntos sociais. E também de bolsominions mais velhos. 

Quais são suas dicas de pessoas para seguir para quem está entrando no TikTok? O primeiro é um cara chamado @J3py, os vídeos dele são incríveis. O TikTok é um aplicativo em que você grava e pode postar na hora, mas ele tem todo um trabalho de câmera. Também tem a @Chenderwla, que tem um plano de fundo rápido, super legal. A Laura grava vídeos com assuntos sociais também, o user dela é @Laurinhapace. E também tem as pessoas de efeitos especiais. O melhor é um cara que é russo, o user é @edenvaturi. Sou viciado nos vídeos dele.

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