Trip
Jean Paul e Simone
em 28 de janeiro de 2014
Jean Paul & Simone
Ontem estava pensando em duas pessoas, já falecidas, que eu amo muito. Estão no meu cotidiano; eu os reconheço nos outros, na dinâmica da vida e, principalmente, em mim, em meu trabalho, em minha formação e minha reflexão. Vejo-os na evolução crítica de nossa sociedade, nos aprendizados que se fizeram a partir do que eles nos trouxeram. Hoje, há alguma distância no tempo, já dá para valiar o quanto contribuiram Como muitos casos amorosos formados a partir de professor e aluno; eles se conheceram em uma universidade francesa. Logo ele a tomou sob seus cuidados, como se ela fosse frágil e necessitasse de sua proteção. A mulher apenas acedeu.
Ela, talvez a primeira das feministas com prestígio internacional, mulher resoluta, de atitudes firmes, escritora, filósofa e pensadora das mais férteis do século XX. Ele, um dos maiores pensadores do século passado; uma das pessoas que mais influenciaram seu tempo com atitudes políticas e sociais; filósofo, romancista, dramaturgo, professor, escritor. Ambos deixaram um imenso legado à humanidade em peças teatrais que são constantemente montadas em diversos países; romances clássicos; e livros da máxima profundidade (“O Ser e o Nada”, por exemplo). Ele foi o primeiro grande homem do século a ousar recusar ao Prêmio Nobel da literatura como protesto. Assim como John Lennon devolveria, seguindo a linha, à Rainha da Inglaterra, a “Ordem das Jarreteiras”. A maior das homenagens britânicas.
Dela os livros que mais me impressionaram foram “Os Mandarins” e “A Convidada”. Romances que contam como a vida intelectual francesa ressurgiu, após o desastre que foi a ocupação alemã na França, na 2ª guerra mundial. Muitos intelectuais franceses haviam colaborado com o inimigo; outros, por sua vez, transformaram-se em heróis por suas atividades dentro da resistência francesa. Os dois receberam homenagens como resistentes. Fundaram uma revista que seria a base para reagrupar a inteligência francesa dispersada para outros países e dentro da própria França. Ela irá escrever o livro mais importante da grande luta das mulheres pela libertação do jugo da cultura masculina machista, “O Segundo Sexo”. As mulheres de hoje devem agradecer ao gênio e pionerismo daquela francezinha danada, grande parte de suas liberdades atuais. Nós, os homens, alias, toda a humanidade, também teríamos muito a agradecer às idéias libertárias desses dois grandes pensadores.
O Existencialismo tem nele seu maior expoente. E quando extrapola o pensamento ontológico de então, presta enorme favor à humanidade. A modernidade lhe deve suas bases. Não somos uma essência que esta na existência. Somos uma existência que haverá de formar sua essência. Quer dizer: nada esta preso a um círculo de ferro eterno; destino é um engano teológico, como tantos outros. Somos produto de nós mesmos; nós nos fazemos. A tal doutrina dos eleitos é mais uma balela burgueza. Ninguém nasce assim ou assado, nós, na existência, na vida, vamos contruindo o que somos e o que seremos. Tudo funciona por adensamento e camadas sedimentares, como as ilhas de corais no mar. Foi porque acreditei nessa acertiva que me injetei de coragem para muitas das lutas que travei para chegar até aqui. O tempo não para, tudo flui, nada esta imóvel e nós somos essa fluência, essa densidade líquida, por trás de tudo.
A obra dela me fez levantar a cortina da outra metade do mundo: a mulher e a cultura feminina. Amei-a como pensadora e me uni à sua luta dentro e fora de mim. Dai para a frente mulher não era mais apenas sexo, beleza e prazer. O pensamento daquela mulher me comovia, me encantava. Houve um período de minha vida que estive sinceramente apaixonado por ela. Possuia algumas fotos publicadas em revistas em que ela aparecia; eu recortava e quardava. Além de grandiosa inteligência, a mulher era bonita e… gostosa! Estarei sendo machista? Desculpem-me; é o que eu sentia.
A trilogia dele, seus três romances encadeados com os mesmos personagens tão secos, duros e… reais. A discussão da liberdade nesses livros é elucidatória. Alias, eu o considero o papa da liberdade; levou-a até sua última expressão e consequência. Não havia uma causa mundial que fosse justa que não constatasse lá sua assinatura e apoio. Apoiou todos os revolucionários políticos do mundo em seu tempo, amigo de Guevara e dos irmãos Castro; o casal esteve no Brasil e ficou hospedado na casa de Jorge Amado, seu grande amigo brasileiro.
Acho que dava para ficar falando deles o tempo todo aqui, reuni um monte de informações sobre eles. Quando a gente ama, quer saber tudo e entender de tudo que as pessoas alvo de nossos sentimentos sentem e pensam. E eu amava e amo tanto Jean Paul Sartre e Simone de Beauvoir que li tudo o que pude deles. Na prisão cheguei até a ler no original, que, diga-se de passagem, é muito melhor, muito mais fácil de ser entendido. As traduções complicam porque os tradutores, geralmente metidos a filósofos, colocam suas idiossincrasias nos textos. Escrevo sobre eles porque estou com saudades, com muitas saudades do tempo fértil em que os lia, maravilhado e fascinado. Não conseguirei mais aquele entusiasmo, aquele amor total dos primeiros tempos, mas vou voltar a eles esses dias. Quero matar a saudades e enriquecer mais um pouco com eles, não vejo a hora!
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Luiz Mendes
27/01/2014.
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