INTERNET ANXIETY
Em que medida esta nova forma de comunicar interfere e altera as relações humanas?
Por Redação
em 21 de setembro de 2005
A bola da vez é a internet. Não propriamente suas maravilhas tecnológicas que nesses quatro ou cinco anos de existência ativa no Brasil, já foram mais do que dissecadas. Hoje, o que aparentemente ganha espaço nas discussões é em que medida esta nova forma de comunicar interfere e altera as relações humanas. É exatamente aí que começa um terreno extremamente amplo e fértil, sobre o qual tem se dedicado pouca reflexão. Não é necessário, por exemplo, nenhum estudo científico de larga escala para se projetar aumentos imensuráveis nas taxas de ansiedade contra as quais as pessoas terão de lutar. Há pensadores respeitáveis que consideram a ansiedade hoje o maior flagelo que assola a humanidade, um gerador de frustrações, traumas e outras formas de infelicidade de dimensões planetárias. São estes mesmos intelectuais que atribuem à propaganda, à força da mídia e à rapidez da troca de informações a origem desta sensação de que por mais que se consiga saúde e beleza, riqueza material e interior, relações afetivas e familiares de boa qualidade, desenvolvimento profissional e social, jamais se estará completo, pois há alguém, em algum lugar, conseguindo algo melhor, que não está ao nosso alcance.
Há quem arrisque projetar, por exemplo, a aparição de novas profissões por conta da virtualização do mundo. É claro que não estamos falando de ‘webmasters’, técnicos em e-commerce ou gerentes de ‘fullfilment’. Trata-se dos humanizadores, uma versão cibernética e evoluída mixando o que faziam no passado as agências de casamento com as técnicas de psicanálise e de assistência social. Seriam profissionais com a missão de devolver às pessoas a qualidade de vida que só as relações humanas (pelo menos até hoje) são capazes de proporcionar. Assim, os personal trainers do futuro devem cuidar para que a cabeça e o coração estejam saudáveis, já que, do corpo, vitaminas, cirurgias e exercícios há muito se encarregam de cuidar.
Soube recentemente de um profissional contratado por um salário considerado altíssimo para os padrões brasileiros, com a função de devolver ao contratante alguns valores que o mundo dos negócios na área financeira e tecnológica lhe tirou. Operando contratos de investimentos internacionais a partir de um escritório equipado com sistemas de vídeo-conferência por fibra ótica, a pessoa que procurou os serviços deste profissional havia conseguido realizar algumas das mais importantes fusões de megaempresas do país, participara da criação dos fundos de investimentos mais arrojados do mercado nacional e realizara uma fortuna que já passava com folga a primeira centena de milhões de dólares.
Ocorre que, para efetivar este império, o sujeito passou alguns anos tendo apenas que pensar, surfar pelos sites financeiros, ler relatórios e emitir mensagens e ordens, não precisando nem tendo tempo para se relacionar com amigos, família, mulheres, nem mesmo outros seres vivos como cães, árvores, montanhas ou a água do mar.
A saída, depois deste longo período de desconexão do chamado mundo real, foi contratar alguém que lhe apresentasse a pessoas, que o levasse para viagens e o colocasse em contato com uma nova teia de relações pessoais.
Paradoxalmente, a primeira e brilhante iniciativa do socializador profissional foi introduzir seu cliente numa ‘barca’ de amigos que viajavam ao México com o objetivo de surfar numa determinada praia perto da fronteira com a Califórnia. Vinte dias depois, o cliente retornou e pagou feliz o cachê de seu contratado acrescido de bonificação de 30% que ele chamou de ‘success fee’, e principalmente acompanhado de um sorriso de felicidade e gratidão que o surf virtual jamais havia conseguido lhe proporcionar.
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