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Incoerência

O colunista Luiz Mendes não entende como foi parar no meio da ?Guerra contra o PCC?

em 28 de agosto de 2006

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Agora há pouco, após ler o jornal, me senti muito triste e infeliz, como há muito não me sentia. A incoerência e a cegueira das pessoas que se metem a determinar as coisas neste país, particularmente em São Paulo, é de causar depressão profunda. Havia acabado de chover, então fui à mata próxima (moro na periferia de Embu das Artes), ver as coisas crescendo. Após a chuva, o mato parece feliz e assim agradecido, logo após a raiz, há sempre delicados brotos verdinhos, quase água.

Assim zen, amansado pela natureza em orgasmo, voltei para casa tendo em mente escrever sobre o que me entristece. O que seria de mim, não houvesse esse exercício diário de ser, escrevendo? Os ódios drenam energias que pingam intermitentes, gerando revolta surda, longe de qualquer idéia de solução. Meu coração, já desfeito em lágrimas e refeito em preces, soterrado nas curvas do tempo, fica sem saber.

Não sei o que fazer, mas o que estou vendo é o fim da picada. Os jornais relatam e contabilizam mortes efetuadas pela polícia, dividindo as vítimas entre os que tiveram passagens pela polícia e os que não tiveram. Os primeiros, sempre pertencentes aos quadros do PCC. Os demais como simpatizantes, endividados e comandados. Aos primeiros, está justificada a execução. Aos demais, consideram que em “alguns” casos houve exagero policial. Mas até aí, está compreendido e até liberado, porque na “guerra” contra o PCC vale tudo.

Milhares (senão milhões) de pessoas, como eu, cometeram atos estúpidos na vida, foram presas, cumpriram penas e estão aqui fora. Trabalhamos, pagamos impostos (e é descontado na fonte, nem chance de sonegar temos), sustentamos, criamos nossas famílias e exercemos a cidadania.

Pela linguagem utilizada nos jornais, estamos condenados à morte justificada. Os policiais que nos matarem necessitam apenas provar que fomos processados por qualquer tipo de roubo ou tráfico. Antigamente, nós, egressos das prisões, permanecíamos suspeitos até que pudéssemos provar o contrário. Hoje nem isso nos é permitido. Nossa morte será arrolada num grande processo que ao fim se chamará “A guerra contra o PCC”. Tudo será plenamente absorvido e devidamente esquecido. Atualmente, só quem não teve passagem pela polícia tem direito a que sua vida seja respeitada. Talvez estivéssemos mais seguros na prisão, aqui somos alvo.

Os jornais julgam aberrante o fato de presos que, em princípio foram segregados para que não ameacem a sociedade (cai a máscara da recuperação social), continuem a ameaçá-la, mesmo presos. Quer dizer: todo gasto com muralhas, grades, guardas armados, pavilhões, “cursos” de formação de guardas (é em torno de 15 milhões o custo para construir uma penitenciária; cada vaga no sistema prisional do Estado custa cerca de 20 mil reais; e o preso custa 640 reais ao mês) e tudo o mais, não adiantou nada. Revoltante, não é mesmo?

Hoje eles são obrigados a admitir que o QG do crime está nas prisões. O que deve ser uma humilhação. Descobriram que a fonte que alimenta o crime das ruas está nas prisões. Sabem que, antes de deterem o controle das ruas, é essencial ter o controle absoluto das prisões. O que é impossível, principalmente porque esse método já provou não funcionar. Como controlar o incontrolável? Acaso a genialidade humana é controlável? A cultura do abandonado, berço da cultura do crime, produz meios, cria espaços e faz, independentemente de todos os esforços em contrário. Ninguém acreditava que uma organização criminosa, a partir da prisão, pudesse parar a terceira cidade do mundo. E, só por hipótese, se eles desenvolvessem poderes paranormais e se falassem por telepatia? Segundo cientistas altamente conceituados, como o dr. Rhine, criador da parapsicologia, ao ser humano, para comunicar, basta concentrar e pensar.

O homem não se derrota com contenções, pressões e confinamentos cada vez mais isolados. Assim se cria monstros, e monstros ferozes. Quanto maior o grau de dificuldade, maior será o empenho humano de superá-lo. O homem é um devir, uma luta por superação. Vencer desafios faz parte da natureza humana. Porque estão presos, não deixaram de ser humanos, e isso nunca é levado em consideração. Parece que todos estão agindo por paixão. ministros, secretários, gritam apaixonadamente. O ano é eleitoral, o que influencia quase tudo; vidas não contam. Conta apenas o voto.

A única forma de parar o homem é o convencimento racional. Veja a quantos anos as nações mais poderosas do planeta estão atrás de um homem e uma pequena organização, as atrocidades que já cometeram por conta disso, e nada. No máximo conseguem deter alguns de seus ataques, mais nada, além de oprimir milhões de pessoas por isso.
Já sabem que a coisa foi formada dentro da prisão e que precisam combatê-la lá dentro. Parabéns! Até que enfim!!! Mas erram novamente, e, desta vez, fragorosamente. De nada adiantaram todas essas mortes, todo esse sofrimento das famílias, todo esse susto social e toda esta guerra. Querem cadeias mais vigiadas por aparelhos eletrônicos; mínimo contato com carcereiros e, principalmente, a supressão de visitas (querem que seja uma vez por mês e somente parentes de primeiro grau).

Está mais do que claro que é a miséria (física e moral) que produz a violência. É a miséria que facilita o recrutamento. Não há o menor investimento no egresso das prisões. A quem ele poderá recorrer? Amigos, tios, primos, cunhados, irmãos de criação, sua única esperança de apoio ao sair, não os pode ter. Está impedido de recebê-los em visitação. O medo da inteligência do preso provoca o seu isolamento.

Um cidadão desempregado demora, em média, cerca de um a dois anos para conseguir uma recolocação, segundo pesquisa. E quem sai da prisão, como é que vai fazer, nesse tempo, para se alimentar, vestir, dormir e cuidar de sua família? Não se fala, em momento algum, em levar cultura, educação, cursos profissionalizantes, trabalho, opções ao presidiário, para que ele possa construir outros caminhos, como eu continuo construindo.

Projetos, eu sei, existem aos montes. Eu mesmo tenho dois em tramitação na Secretaria dos Assuntos Penitenciários. Está claro que é preciso acalmar para agilizar. Mas a continuar no diapasão presente, só me resta ficar triste e lamentar. Minha parte tenho feito.

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