HERRAR É UMANO
Um dos feitos mais esperados, por exemplo, foi a amplamente anunciada cobertura da chegada do novo milênio, pela rede de televisão CNN.
Por Redação
em 21 de setembro de 2005
Os americanos fizeram absolutamente tudo o que a ciência, a tecnologia e o esforço humano permitem para que o evento de transposição do milênio fosse algo compatível com o que eles mesmos acreditam ser o altíssimo nível de excelência, que a civilização humana atingiu nestes dois mil anos, sem contar o período fora do calendário cristão. Mais uma vez, tudo o que conseguiram foi comprovar o lado falível e insignificante de nossa própria condição humana.
Um dos feitos mais esperados, por exemplo, foi a amplamente anunciada cobertura da chegada do novo milênio, pela rede de televisão CNN.
Acredito que pouca gente no Brasil tenha se dignado a assisti-la. De fato, tratava-se de algo grandioso. Não é todo dia que se vê câmeras e correspondentes falando ao vivo, dos quatro cantos do mundo. Larry King, que ancora um dos mais respeitados programas de entrevistas do planeta foi o apresentador escalado pela CNN para dirigir o espetáculo. A bordo de um bem engomado smoking com os inevitáveis suspensórios a postos, King acionava e desativava repórteres e câmeras colocados em Londres, Tóquio, Rio de Janeiro, Nova Iorque, Cairo, Bangkok e em outras dúzias de lugares mais ou menos exóticos, como o maestro de uma orquestra de câmeras e microfones
RIDÍCULO
A tecnologia não falhou. Orgulhoso, King informava de quando em quando, que nenhum avião havia caído, que as luzes continuavam acesas e que o bug do milênio não ameaçava nada nem ninguém. Ocorre porém, que mesmo capaz de se defender dos próprios monstros que sua tecnologia criou, com 2000 anos de era cristã nas costas, o homem não conseguiu superar a condição tão bem descrita por Raul Seixas, a de um bicho ‘ridículo, limitado e que só usa 10% de sua cabeça animal’. Nosso lado patético dava as caras a cada segmento de transmissão da CNN e não contente, deixava claro que a fraqueza humana não poupa nacionalidades, raças ou religiões. Uma das primeiras cenas de transmissão por exemplo, deveria ser a chegada triunfal de duas enormes canoas conduzidas por esbeltos representantes dos nativos MAORIS da Nova Zelândia, supostamente o primeiro ponto do planeta a receber os raios de sol do milênio. Empedernido, Larry King narrava em tom apoteótico, o remar ritmado dos fortalhões de peitos nus e caras tatuadas, ao som de uma orquestra sinfônica que tocava solene na praia.
GORDINHOS
Eis que poucos metros antes de tocar o solo trazendo o novo milênio, uma das embarcações é colhida de surpresa por uma onda menos avisada. Larry fez o que pôde para evitar o riso, diante de 20 nativos visivelmente fora do peso tentando desviar a canoa que insistia em passar o reveillon submersa. Como que tentando mudar de assunto, King direcionou as câmeras da CNN para a Índia, onde se encontrava a postos nada menos que o Dalai Lama, um dos mais importantes líderes espirituais do planeta. Depois das pompas devidas, Larry saudou solene o Sacerdote com uma pergunta à altura da ocasião: ‘Sua santidade, na chegada deste novo milênio, o senhor vislumbra a possibilidade de uma era de paz e entendimento entre os homens?’ Tudo o que as centenas de milhões de espectadores ao redor do mundo viram, foi um velhinho de cabeça raspada franzindo a testa e olhando desamparado para os lados murmurando: Hã? Hã?, lutando com seus problemas de audição e a pouca intimidade com os satélites.
Errar é humano.
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