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Há vitória na derrota

Perto de Rafinha, até Pereira é um vencedor

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Créditos: Murillo Meirelles


Por Redação

em 21 de setembro de 2005

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Rafinha gostava de Bon Jovi. Admitia sem muita culpa desde o ginásio, vejam só. Como guitarrista que se considerava, via em Richie Sambora uma espécie de “Steve Vai melódico, que só não bate o Eddie Van Halen”.

E o próprio Bon Jovi era para Rafinha um exímio vocalista, ótimo letrista que esconde a qualidade atrás da imagem de galã. “Coisa das gravadoras”, acreditava. Vestia coletes de couro justos em seu corpo baixo e estufado para, sem admitir nem para si mesmo, parecer o astro.

Lembro que levava para o colégio sua guitarra, indo do Paraíso até Santo Amaro de ônibus, só para impressionar as meninas que, ainda em 95, preferiam os roqueiros cabeludos. No pátio tirava da sacola adesivada a guitarra Jackson branca e arpejava desplugado para as moças demodês.

Essa guitarra é uma das melhores, não é famosa por preconceito.

Às vezes se empolgava:

É americana. E guitarra americana é sempre boa.

Pobre diabo. Mentia a procedência do instrumento para impressionar. O adesivo na traseira do corpo dedurava: made in Korea. Com tão breve retrato já se pode supor – Rafinha era um coitado.

E foi em nossa festa de formatura do colegial nossa primeira despedida. Apertado no paletó, gravata com guitarras estampadas, bebeu em menos de dois minutos meio litro de Natu Nobilis. A bebedeira pareceu chegar nele antes de abaixar a garrafa.

Nas horas seguintes bebeu, no mínimo, outra metade. E no meio tempo investia seu papo ébrio, seu hálito inflamável e seu olhar sutilmente estrábico nas garotas. Era a última chance de beijar alguma, qualquer uma, colega de sala. As mais bonitas tiravam seu braço dos ombros sem responder ao “tudo bem”?.

As mais feias davam mais pelota, mas viravam as costas assim que ele tentava um beijo pondo a língua para fora. Depois das duas, Rafinha sentou-se ao lado da mesa de frios, piscava lento, e devorou em poucos minutos, garanto, 18 mini-hot-dogs. Até aí, nada demais. Mas, para engolir os petit-juk-foods, Rafinha preferiu dois copos longos de drinks açucarados de menta.

O resultado foi quase expressionista: de pé na entrada da pista de dança, segura no corrimão da escada e vomita um jato de hidrante. O cheiro chega nas narinas próximas antes de o líquido bater ao chão. E belas jovens têm suas meias calças respingadas pela feroz bile de Rafinha. Sem equilíbrio e de olhos fechados, escorrega nos degraus e em seu próprio vômito. Cai sentado na poça cheia de pedaços de salsicha, muitos ainda com a capa vermelha. E com o queixo no peito solta o jato derradeiro, desta vez encharcando seu colo e mais de um metro a sua frente.

Rafinha abre os olhos, e a pista toda o olhava. Ninguém se move, exceto as meninas sujas de seus dejetos que gritam e tapam a boca como quem ameaça aderir aos jatos gástricos. Rafinha pisca devagar uma vez, duas, e fecha os olhos. Levanta um braço e canta devagar o hit de Bon Jovi: “Keep the faith, keep the faith. All you gotta is keep the faith”. Cai no chão molemente.

Alguém falou:

Do chão ninguém passa.

Anos se passaram e não vi ou ouvi falar de Rafinha. Mas, juro, lembrava dele quase todo dia. Em alguma piada maldosa, como exemplo de desgraças adolescentes ou simplesmente como um coitado inesquecível. Quando em um estádio, pouco antes do show do Bon Jovi, vejo Rafinha. Está magro, claramente um ex-gordo, mas magro. Cabelo curto, espetado. Camisa do Slayer nova, do último disco. Calça jeans justa, sobrancelha cerrada e, pasmem, de braço dado com a namorada.

Rafinha?!

Pereira? Não acredito!! ? e abre o sorriso de roedor que tanto zombei no passado.

Outros diriam, sílaba por sílaba, Ir-re-co-nhe-cí-vel.

Estava quase idêntico para mim. A pretensão ingênua lhe dava uma aura luminosa, muito além dos quilos a menos que tinha e da moça bonita ao seu lado. Conversamos por cinco minutos. Disse pouco de mim, escutei quase todo o tempo. Rafinha era, de fato, guitarrista. Conhecia os maiores do heavy metal nacional pelo apelido. Nos bastidores de bares decadentes e festivais da prefeitura, Rafinha emplacou como membro de um dos mais requisitados covers de Bon Jovi no país. Mostrou fotos na carteira, com mulheres diferentes, vestidas de preto. Um dos retratos causou riso em todos.

Rafinha sem camisa, de frente para um espelho, exibindo seu físico pimpão. Em cinco minutos me disse todas as suas conquistas. Comprou uma outra guitarra, ESP, americana mesmo. Morava fora da casa dos pais só com a grana dos shows. Estava na terceira namorada e tinha razoável graduação em uma luta marcial híbrida. Além disso, era importante, estava nos bastidores do show graças à sua recente amizade com, pasmem, Richie Sambora. E naquele dia, em especial, um roadie gente boa deu a ele um ácido inteiro. “Coisa boa, direto de Frisco.”

Quase (não tão quase…) tive inveja dele. E nos despedimos rapidamente, certos do reencontro depois do show. As luzes se apagaram e o público grita. Desci para a frente do palco com a máquina fotográfica, e Rafinha fritava na lateral do palco, encostado na porta dos bastidores.

Mais de uma hora de show e o tédio só não veio pela visão que tinha. Rafinha na porta da coxia era a tradução de um jovial e limitado roqueiro oitentista, delirando de ácido, com o status da credencial no peito. Levantava os braços sabendo que milhares e milhares olhavam para ele. Ajoelhou-se duas vezes, fazia “air guitar” dublando pra valer o solo de Richie Sambora. Beijava a namorada e berrava alguma coisa com a garganta puxada. Quando o show chega a duas horas. Bon Jovi anuncia:

This song is one of my favorites: “Keep the Faith”.

Estava longe, mas vi Rafinha arregalar os olhos. Pulou em um pé só no primeiro acorde aberto. Parou em posição de sentido quando a letra começou. Pela primeira vez Rafinha pareceu diferente. Seus ombros tomaram força e foram para trás. Parecia homem e feliz como nunca. Abre os olhos e corre a vista de um lado para o outro do estádio. O refrão chega e Rafinha dispara. Corre na direção do público. Passa do lado de Richie e nem olha. Segue firme sem virar o rosto.

Bon Jovi, sim, olha Rafinha, como todos os seguranças agora. Pensei na minha câmera sem filme. E pula, juro, pula deitado e com os olhos crispados. Podia ser o ácido ou a música, mas Rafinha não lembrou do recuo enorme entre palco e público. Seu stage diving inconsequente foi quase infinito. Sorria voando e sorrindo deu com a cara no cano largo que marcava a fronteira. Inexplicável, como toda ação do dedo de Deus, rodou em piruetas dramáticas por cima da grade e caiu no meio da clareira humana que, insisto, inexplicavelmente surgiu no meio do gargarejo de moças histéricas. Não vi mais seu rosto.

A clareira logo se fechou com alguns tombos e histeria feminina. Vi teens descontroladas pulando como sapas, usando Rafinha estatelado como degrau. Bon Jovi desce do palco e vai ao público. Desce no recuo da imprensa e faz pose ao meu lado. As moças que pulavam agora sapateiam. Gritam como se estivessem em chamas. E o tumulto se fez onde deitava Rafinha.

Horas depois soube, ele morreu. Traumatismo craniano e lesões múltiplas. Não chorei. Não precisava. Morreu feliz o rapaz, e soube morrer como o mais triunfante dos coitados. Talvez fosse só a certeza lisérgica que o fez pular. Mas sentiu-se no topo, e do topo também ninguém passa. Pulou para a morte por engano, com a melhor das intenções. É assim que morre um grande loser.

Quase (quase é exagero!) tive inveja dele.

*Pereira é loser, mas não gosta de Bon Jovi.

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