por Paulo Lima
Trip #191

Em seu livro Karma Pop dá pra entender melhor a simbiose entre Arthur Veríssimo e a Índia

Em seu livro Karma Pop, que chega este mês às livrarias, dá pra entender melhor a simbiose entre Arthur Veríssimo e a Índia. Nosso editor Paulo Lima traduziu essa relação em palavras

Aqui onde estou, existe um point break clássico, uma situação geográfica muito perfeita para o surf. Por conta disso, todos os dias, há dezenas de cabeças na água e outras tantas olhando do alto do cliff, o barranco colado ao pico. Acabo de voltar de lá. Parei a bicicleta e, sem desmontar, fiquei olhando o movimento. Como sempre, havia alguns destaques, figuras que conhecem melhor o lugar, que têm mais habilidade natural ou que treinam mais. Mas entre as mais de 40 almas que contei na água uma parecia estar em outro ritmo. Enquanto todos tentavam se posicionar sem deixar que a corrente os arrastasse, para conseguir entrar nas ondas na velocidade certa ou para desenvolver seus repertórios de manobras, o tal sujeito parecia movido a outro tipo de energia. Praticamente não remava, se movia com leveza maior, parecia entender melhor o ritmo do oceano, mais que isso, fazia parte dele, ia a favor, nunca contra o balanço da água, era parte dela. Não havia ninguém, dentro ou fora do mar, que não percebesse que aquele indivíduo pertencia de fato ao lugar.

Apreciando esse pequeno show, ficou fácil escrever algo sobre Arthur Veríssimo na Índia.

Muitos repórteres estiveram lá. Agora mais do que nunca. É quase uma moda mandar correspondentes a festivais e encontros religiosos daquela parte do mundo. Mas desde a primeira vez em que nosso gonzo de estimação carimbou seu passaporte rumo ao precário e calorento aeroporto de Délhi, no quase remoto ano de 1994, não restou dúvida de que aquele era seu lugar. Não importa o nível de dificuldade. Nem o grau do calor insuportável, o calibre das roubadas, o naipe das diarreias, as tosses, as carraspanas dos guardas com seus sarrafos de madeira, as pimentas cabulosas, os hotéis esquisitos... tudo isso, que já fez muita gente boa e experimentada voltar para casa na primeira chance, é música para nosso querido repórter excepcional.

Arthur se transforma em parte da umidade, seus poros se abrem, uma febre de 40 graus vira mantra para meditações, pimenta de qualquer bitola é refresco, dá um jeito de cinturar para se esquivar da cacetada do guardinha, fica amigo do "Sadhu fumo de corda", aquele que enrola o próprio pinto num cabo de vassoura, e brother do que está com o braço esquerdo levantado há décadas. Olhando as fotos dos seus reencontros com essas duas figuras, pode-se ver claramente: o Sadhu Rexona (como o apelidamos desde o primeiro momento) exulta em rever o camarada brasileiro. A alegria é tão natural, que talvez fosse suficiente para que, por um segundo, se esquecesse de sua promessa permanente e baixasse o graveto em que se transformou seu braço esquerdo para abraçar o tatuado e esfuziante mano Veríssimo.

Não há travesti sagrado, divindade mirim, bovino endeusado, chofer de praça, piloto de elefante, filhote de Hanuman ou qualquer outra figura do infinito panteão alucinado da Índia que resista a esse magneto de gente diferente, maluca, esquisita, genial, heterodoxa, exótica, mágica ou xarope. Ímã de figuras que não aceitam encaixes nem padrões.

Se a Índia fosse um point break, Arthur seria um irresistível cruzamento de Kelly Slater, Picuruta Salazar e Didi Mocó. Um príncipe Namor dos trópicos. Dançaria sobre as águas salgadas como numa animação da Pixar, daria piruetas sobre o mais afiado reef, se transformaria no mais animado e gauche dos golfinhos amestrados dissidentes, um fugitivo do Sea World se esbaldando mar afora.

Relendo as aventuras/reportagens/fuçantinas que publicamos aqui sobre as 17 vezes em que nosso camarada esteve nos domínios de Gandhi, no seu recém-lançado DVD e agora em seu livro, você poderá comprovar: ali, na terra do Ganesh, Arthur é uma vaca sagrada.

Vai lá: Karma pop, 138 págs. Editora Master Books. Preço recomendado: R$ 120.

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