GENTE É TUDO IGUAL
Por Redação
em 21 de setembro de 2005
Uma coisa você aprende depois de vagar pelo mundo: gente é tudo igual. Nas primeiras viagens da sua vida, a tendência é se deslumbrar com as diferenças e babar o ovo dos países e povos visitados. Depois de um ou dois passaportes, você certamente começa a prestar mais atenção nas semelhanças entre o animal bípede que anda pelo planeta, independente da cor e do corte de suas roupas. A noção de raiz também clareia. Fica mais fácil perceber porque diabos você se sente tão ligado a certas coisas, cheiros, lugares, sensações que só consegue encontrar no lugar onde nasceu e cresceu.
É curioso, porém, perceber que, ao mesmo tempo em que seu amor pelo Brasil se consolida e fica mais claro, aparece uma ponta de frustração quando você se defronta com algumas idéias, comportamentos e soluções descobertas e adotadas por outros povos e, que por mais sutis e insignificantes que possam parecer, talvez sejam os detalhes que separam o Brasil de um país perfeito pra viver.
A Nova Zelândia, um país sobre o qual sabemos e ouvimos falar quase nada no Brasil, tem dado aulas de eficiência administrativa e de convivência equilibrada.
É bem verdade que as ilhas que formam este país levam uma vantagem importante sobre a maioria dos outros países, inclusive o Brasil: pouca gente.
Até o observador mais distraído já deve ter atinado que o grande problema deste planeta chama-se gente. Quanto mais, mais barulho, mais sujeira, mais destruição, mais brigas.
A Nova Zelândia inteira não tem muito mais do que três milhões e meio de habitantes. Este dado é fundamental. Sobram terras e recursos naturais. Com uma administração competente, o governo consegue manter a economia pujante, mesmo com o isolamento geográfico óbvio.
A condição social é excelente. O cidadão conta com todos os serviços básicos gratuitos ou subsidiados: assistência médica, seguro-desemprego, financiamentos para casas e, principalmente, educação. Tudo com qualidade e abundância. Com exceção do problema social da dificuldade de ajuste da população MAORI, os nativos descendentes de havaianos que primeiro chegaram às ilhas, não há grandes problemas no país.
A manchete do jornal de ontem, por exemplo, falava do aniversário de 108 anos de uma senhora, com direito a foto colorida na primeira página. No dia anterior, por mais fantástico que possa soar, a manchete tratava da queda do preço da ostra no mercado.
O turismo ‘out-door’ foi descoberto há décadas e a Nova Zelândia capta milhões de dólares por mês de exércitos de japoneses, australianos, europeus, americanos e, mais recentemente, de alguns sul-americanos que vêm saltar de bungee-jump e pára-quedas, despencar de corredeiras em raftings, dropar montanhas de snowboard, pedalar em trilhas verticais, voar de asa-delta, andar em motos especiais ou simplesmente caminhar por trilhas exóticas nas montanhas das ilhas do sul.
O que no Brasil ainda é marginalizado e visto como loucura ou passatempo de desocupados, movimenta uma indústria de milhares de empregos e milhões de dólares. Enquanto isso, em Campos do Jordão, a grande atividade ainda se resume a desfilar de jogging por Capivari ou dar uma volta no lombo de um pangaré.
São dezenas de detalhes, sacadas e soluções que fariam até mesmo Jaime Lerner ou Cássio Taniguchi (por favor, checar) trincar de inveja. Coisas como um país de três milhões de habitantes mandar um nadador à Olimpíada capaz de voltar com duas medalhas de ouro no peito, batendo americanos, russos e alemães. Não seria fácil lembrar de todos, mas alguns pontos merecem ser ressaltados. Um país que absolutamente desconhece poluição de qualquer tipo, tem um sistema seríssimo e bem estruturado de reciclagem em pleno funcionamento.
Há mais de 30 anos foi deflagrada uma campanha para diminuir o uso de sal na dieta da população. Os problemas de hipertensão e males cardíacos diminuíram drasticamente. A alimentação nas ilhas tem sua base nos legumes, grãos e vegetais. A cada 20 ou 30 minutos, filmes excepcionalmente bem produzidos ensinam à população segredos e dicas básicas de como usar carros sem transformá-los em armas letais. Nada de babaquice oficial. Pilotos e técnicos explicam claramente como acelerar o carro na hora de uma ultrapassagem crítica. Imagens de alta qualidade mostram aos motoristas o que é uma tomada de curva.
Noções que jamais foram passadas à esmagadora maioria dos idiotas do trânsito que tornam a vida em cidades como São Paulo cada vez menos possível. Um outro filme digno de Leão em Cannes reproduz um acidente em que uma bela garota de vinte e poucos anos é atirada pelo vidro de seu carro e cai morta diante da câmera a dez metros de distância. Um filme que no Brasil seria embargado por algum deputado pouco esclarecido, mas que por aqui, depois de algumas inserções reduziu o número de acidentes fatais a níveis ridículos. Só uma coisa não dá inveja por aqui. Com toda essa qualidade de vida, a Nova Zelândia se envergonha de ostentar um assustador e quase inexplicável índice: O terceiro maior número de suicídios de jovens do mundo. Gente é tudo igual.
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