apresentado por Banco do Brasil

Taís Araújo, Fernanda Gentil e outros palestrantes inspiradores apontam caminhos para um ”país menos hostil às diferenças” em palestras inspiradoras no Rio de Janeiro

Mais que um evento corporativo, foi uma tarde com sinais de esperança pela abertura para importantes transformações na sociedade. A etapa carioca do Inspira BB, realizada no sábado, 18 de março, na Cidade das Artes, no Rio de Janeiro, reuniu cerca de 1.200 funcionários do Banco do Brasil em torno do tema Mundo em transição: gênero e diversidade, e foi além da conscientização e do engajamento.

Em meio a breves palestras de personalidades como Taís Araújo, Fernanda Gentil, Xico Sá e Viviane Mosé, algumas das risadas mais ruidosas foram provocadas por um episódio emblemático, contado pela carioca Gabriela Carneiro Duarte, 41 anos, piloto de aviação comercial com 9 mil horas de voo. Ela lembrou da brincadeira que fez com um passageiro que demonstrou espanto ao ver que a comandante da aeronave era mulher: "Pode ficar tranquilo, senhor, eu sou trans! Sou operada. Tenho próstata, que nem você". "Na hora, o homem ficou perplexo, com cara de espanto, mas o filho dele, um garoto, morreu de rir da provocação. Os mais jovens encaram tudo com mais naturalidade", comentou Gabriela.

A atriz Taís Araújo, 38 anos, abordou o preconceito racial no Brasil de maneira contundente, mas externou uma percepção semelhante à de Gabriela: "Vejo uma geração de pessoas com 20, 21 anos, não só agitando como ativistas, mas pensando questões da igualdade sem se prender ao discurso pronto, que é o caminho mais fácil. Sei que ainda temos um longo, longuíssimo caminho, mas essa galera me deixa otimista. Disseram que eu era uma 'negra de boutique'. Eu mesma cheguei a cair no mito da 'democracia racial' brasileira, apesar de ter passado a vida por tantos ambientes em que não via meus pares negros tendo as chances que eu tinha, espaços em que o recado era 'você não pertence a este lugar'. Hoje sei bem que, nós, negros, não estamos aqui para servir. Nós estamos aqui para construir este país! Um país menos hostil às diferenças."

Fernanda Gentil, 30 anos, falou sobre "gênero e respeito" a partir de lembranças pessoais e também apontou para a tolerância maior das novas gerações. A apresentadora do programa "Esporte Espetacular", da TV Globo, recebeu grande atenção da mídia especializada em celebridades a partir de outubro de 2016, ao assumir relacionamento com outra jornalista, Priscila Montandon. "Quando contei para os meus pais (sobre o namoro), eles surtaram. Meu irmão, de 26 anos, disse que, para onde meu nariz apontasse, ele iria também. E o meu filho de 9 anos (Lucas, afilhado de Fernanda que ela cria desde o segundo ano de vida) falou: 'Tudo bem, dinda. Ela é muito legal'. Acho que começa agora - e aqui também - uma grande mudança."

Fernanda relevou a atitude de seus pais, separados desde 2010. "Os dois precisavam de um tempo para processar a informação. Não é enfiando goela abaixo, com agressividade, que isso seria absorvido. Eu tive que ser tolerante também."

O jornalista e escritor Xico Sá, 54 anos, lançou mão da expressão "macho jurubeba", consagrada em suas crônicas, para descrever o quanto certos modos e comportamentos machistas soam anacrônicos no mundo atual. "Talvez não seja na velocidade em que a gente queira, mas estamos avançando. Vamos sair da gaiolazinha do 'isso é coisa de homem', 'isso é coisa de mulher'... Não a partir de pessoas da minha geração, mas das mais novas."

Talvez tenha sido por acaso, mas foi o mais jovem dos palestrantes quem emocionou mais a platéia: o engenheiro de produção Hector Amaral, 24 anos, que tem síndrome de Asperger, condição neurológica do espectro autista. Ele contou como foi superando suas dificuldades e conseguiu se formar, aprender a falar dois idiomas e a tocar violão, e se firmar como funcionário do Banco do Brasil. Terminou cantando o clássico "Azul da Cor do Mar", de Tim Maia, e foi aplaudido de pé por todos.

Outro depoimento que sensibilizou a plateia foi o de Michelle Sampaio, 34 anos, gerente na agência de Juazeiro do Norte (CE), que possui um tipo raro de nanismo, displasia diástrófica, que dificulta seus movimentos. "Cresci ouvindo frases como 'você nunca vai conseguir trabalhar com esses dedinhos duros', 'você nunca vai dirigir um carro', 'você nunca vai namorar', 'você nunca vai casar'... Quanto mais eu ouvia isso, mais eu tinha vontade de provar o contrário", contou Michelle, hoje casada, formada em Automação Industrial e em Administração, habilitada a dirigir e casada. "Só depende de você", arrematou ao fim, provocando aplausos e muita vibração da plateia.

Outros funcionários, como Linero, Luciene do Carmo e Bruna Cortella, também trouxeram novos elementos para o diálogo com as transições em curso na sociedade. "Não adianta simplesmente termos a nossa política se não tivermos a nossa atitude", ressaltou o presidente do Banco do Brasil, Paulo Caffarelli, último palestrante da programação. "Temos um caminho árduo pela frente, mas começo a ficar bastante animado. Aprendo muito com meu filho de 12 anos. Essas crianças que estão chegando hoje são mais livres, enxergam a diversidade com outro olhar", definiu o executivo.

O evento foi aberto com cenas de dois monólogos, "Um estudo de missa para Clarice", encenado por Eduardo Wotzik, e "Simplesmente eu, Clarice Lispector", apresentado por Beth Goulart (disponíveis, assim como a maior parte das palestras, em inspirabb.com.br)."Clarice faz a gente se olhar no espelho todos os dias e enxergar a nossa alma, com a diversidade. É uma grande inspiração e meio caminho andado para aceitarmos a diversidade em todos os outros", comentou a atriz, que há cinco anos vive a escritora ucraniano-brasileira (1920-1977) nos palcos.

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