por Pedro Inoue
Trip #232

Registros da usina nuclear cujo vazamento, causado pelo tsunami que arrasou parte do Japão em 2011, provocou um desastre ambiental

O artista paulistano Pedro Inoue esteve há algumas semanas em Fukushima, a usina nuclear cujo vazamento, causado pelo tsunami que arrasou parte do Japão em 2011, provocou estragos ambientais que vão durar para sempre. Aqui, um relato e imagens que ele produziu durante o insólito passeio

A cena é parecida com algo que você já viu algumas vezes: uma rua deserta, casas abertas, um carro parado no meio da rua, com a porta aberta e a chave no contato. Uma cidade fantasma. A diferença é que você não está em casa, sentado no sofá vendo um filme apocalíptico. Você está nessa cidade, usando uma roupa de proteção nada confortável, óculos especiais que começam a embaçar de suor, e com a respiração pesada por causa da máscara. Sempre de olho no contador Geiger, para ver o nível de radiação a que está exposto.

Essa descrição é da cidade de Futaba, a 3 quilômetros da usina de energia nuclear Fukushima Daiichi, em Fukushima, Japão. A cidade está dentro da zona de 30 quilômetros de evacuação desde 2011, quando o tsunami de 11 de março danificou a usina e seus reatores nucleares. A cidade é famosa por ter uma placa na entrada que diz: “A um futuro próspero, com energia nuclear”. Diante da cidade vazia, essa frase atinge novos significados sinistros e apocalípticos.

Estive no Japão durante dois meses deste ano como artista para participar de uma residência no centro cultural Tokyo Wonder Site. No meio de março, e alguns dias após o aniversário de três anos da tragédia, tive a oportunidade de viajar com mais três artistas para a região de Fukushima, onde produzimos intervenções, fotografias e performances. A produção foi tão intensa que acabamos formando um coletivo que batizamos de Fukushima Mon Amour, em homenagem ao filme Hiroshima Mon Amour, do francês Alain Resnais, que morreu poucos dias antes da nossa viagem. Vamos participar de algumas exposições em Tóquio neste ano, com vídeos e fotos.

It’s the end of the world

A desculpa para visitar o lugar era boa: Yoi Kawakubo, japônes que nasceu em Toledo, na Espanha, e cresceu no Japão, tinha um projeto peculiar: ele enterrou negativos de polaroid perto da planta Daiichi, da onde a radiação vem vazando, e a cada dois meses ele volta lá para desenterrar os negativos e ver o resultado. Nossa missão era resgatar o negativo perto de um templo que foi completamente destruído pelo tsunami, a 100 metros da praia.

Eu me dei conta do lugar aonde estava indo quando fui comprar as roupas de proteção. Compro qual? A mais barata? E os óculos? Com ou sem furinho? A radiação vai passar mesmo, com o que tenho que me preocupar? Me deu um frio na barriga, liguei para o Yoi e ele me explicou: o problema nessa área é o pó. Não podemos entrar de volta no carro com o pó do lugar, então temos que comprar diversos sprays de ar, para tirar o excesso de sujeira das botas, luvas, nos limpar com lenços umedecidos (desses de bebê) e deixar todas as vestimentas para fora do carro. Complicado.

Uma vez que entramos na área, passando pelo check point de segurança, eu tinha a missão de ser copiloto: levei um aplicativo Google Maps e fiquei responsável pela trilha sonora, usando o iPod da Tita Salina, uma das artistas. Coloquei no shuffle, pois o cenário da viagem era bem mais interessante do que a telinha do aparelho. De repente, como uma irônica coincidência, R.E.M. começa a tocar “It’s the end of the world as we know it”. Alguns momentos depois, tive que intervir: a música “Song 2” do Blur não caiu tão bem, apesar de todos no carro estarem balançando a cabeça e cantando ‘u-hu’, vestidos de roupas de proteção, máscaras e óculos, passando por casas destruídas e vazias. 

"É muita estupidez produzir algo que vai sobreviver séculos a mais que nós mesmos e intoxicar o ambiente que temos"

Depois de parar em Futaba, fomos a caminho da praia onde Yoi havia enterrado o negativo. Após filmar o evento dele abrindo o negativo da polaroid e descobrindo que ele estava completamente branco (o negativo nunca havia sido exposto, ou seja, deveria estar todo preto), fomos andar na praia, com cuidado para não molhar os pés. Encontramos destroços do que antes era uma associação de pescadores. Passamos a tarde no local. Observando o mar, mudando coisas de lugar, escrevendo frases nas paredes. Filmando, tirando fotos.

Pura arrogância

Depois de algum tempo, eu saí sozinho para caminhar na praia. Era como qualquer outra praia: o horizonte aberto, o som do mar. O céu estava aberto, fazia um pouco de frio, a areia era um pouco grossa. Úmida. Por um espaço muito curto de tempo esqueci onde estava, típica consequência de ficar olhando para o mar e as ondas. Lembrei da minha infância, passando os verões em Toque Toque, no litoral norte paulista, cheio de areia no cabelo e dormindo no sol.

Olho para o lado e vejo a planta Daichii, mais acima na praia. O desconforto da roupa e da máscara me lembram que não poderia ficar lá por muito tempo. Esse horizonte, a areia, o mar, está tudo envenenado pela radiação que nós, humanos, criamos. Nesse lugar ninguém pode viver. As pessoas que uma vez moraram aqui NUNCA vão poder voltar às suas casas. Elas e ninguém mais, por séculos e séculos.

É muita estupidez produzir algo que vai sobreviver séculos a mais que nós mesmos e intoxicar tudo o que temos. É pura arrogância achar que precisamos de energia para chegarmos mais rápido do ponto A ao ponto B sem prever essas consequência aterrorizantes. O que aconteceu (e está acontecendo) em Fukushima deve ser mais do que um aprendizado para a humanidade. É uma prova de que energia nuclear não é uma alternativa para o futuro. E pode nos roubar a possibilidade de tê-lo. 

“A um futuro limpo, sem energia nuclear.”

Pedro Inoue, 37, é artista e designer gráfico. Já expôs na Coréia, Inglaterra e França e terá sua primeira exposição solo em Tóquio em junho. É atualmente o diretor criativo da revista canadense Adbusters

Vai lá:

SafeCast

Site organizado por hackers que divulga os níveis de radiação em todo o Japão, auxiliando as comunidades locais.

blog.safecast.org

More Trees Life 311

Projeto que promove a construção de casas de madeira para moradores evacuados de Tohoku, a área mais afetada pelo tsunami.

life311.more-trees.org/en

School Music Revival

Organização liderada pelo músico Ryuichi Sakamoto que restaura instrumentos de escolas de música danificados pelo terremoto e pelo tsunami para depois organizar concertos com seus alunos.

www.schoolmusicrevival.org

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