por Caio Ferreti
Trip #218

As temidas ondas de Teahupoo e Marama Lemaire, que acolhe os brasileiros em sua casa

Sempre cabe mais um brasileiro na casa de Marama Lemaire, policial e guia de surfistas que vive ao lado das temidas ondas de Teahupoo, no Taiti

Teahupoo, Taiti, 2008. O niteroiense Bruno Santos pega dois tubos, soma nota 9,16 e se torna o primeiro surfista brasileiro a ganhar um título na onda mais temida do circuito mundial – por motivos imagináveis, o nome significa “crânio quebrado” em língua polinésia. O barco que abrigava fotógrafos, surfistas e imprensa brasileira balançou de alegria. E quem mais comemorava a bordo era um taitiano: Marama Lemaire, o dono.

Explica-se. Hoje com 37 anos, trabalhando como policial e vivendo nas cercanias da onda lendária, Marama fez de sua casa o reduto oficial dos surfistas brasileiros que vão ao Taiti encarar Teahupoo. Conhecida como a “embaixada brasileira no Taiti”, sua casa ficou lotada na noite da vitória de Bruno. “Acho que ele nunca tinha visto um churrasco daquelas proporções”, desconfia o campeão.

A relação de Marama com nossos atletas vem do tempo em que o surf profissional chegou ao Taiti. O primeiro campeonato da ASP (Association of Surfing Professionals) em Teahupoo aconteceu em 1997. “O mundo ainda não conhecia aquela onda”, conta o surfista Renan Rocha, carioca que cresceu e vive em São Paulo. “Era só para os locais e um ou outro mais casca-grossa.”

Como a grana era curta, improvisou-se: as pranchas foram transportadas em caminhões de lixo e os atletas se hospedaram com famílias locais. Renan estava com os pais e preferiu bancar um hotel. Mas, no dia seguinte, ouviu Pedro Muller contar que seus anfitriões eram “demais”. Acabou se mudando para a mesma casa que o amigo – por acaso, a dos sogros de Marama. Ficou tão amigo do taitiano que este deu o nome Renan ao filho, nascido meses depois.

Respeito

A ASP voltaria ao Taiti todos os anos, e a fama de Marama entre os brasileiros só cresceria. Em 2010, ele separou-se da mulher e foi morar no que se tornaria a Marama House, misto de hostel e pousada especializado em surfistas. Com barco para levar os interessados até perto da onda de Teahupoo, que quebra longe da areia, em uma bancada de corais. “Todo mundo ficava lá pela segurança, pela energia, pela estrutura e pelo conhecimento que ele tinha do lugar”, conta Renan.

Marama virou policial há dez anos, não exatamente por escolha ou vocação. “O prefeito me escolheu para trabalhar na polícia”, diz. “E não dá para recusar.” Na época, quatro policiais cuidavam de Teahupoo, Vairao e Toahutu. Hoje são 13, para uma população de 17 mil pessoas. Nenhum deles usa armas de fogo – as ocorrências não passam de brigas de bêbados nos fins de semana.

“No começo, não gostava do trabalho, mas hoje amo. Vivo em contato com as pessoas, com os políticos”, diz Marama. Mesmo quando se afasta do serviço, no mês do campeonato mundial de surf em Teahupoo, o crachá da polícia é uma qualificação extra. “Os locais o respeitam, como policial e como pessoa”, conta o fotógrafo Aleko Stergiou. “Marama sempre está no melhor lugar. Principalmente no canal de Teahupoo, onde o bicho pega mesmo, com 30 barcos disputando um espaço de 10 metros.”

Edson

A “embaixada brasileira no Taiti” é um lugar simples. A casa tem quatro quartos com camas e comporta por volta de 12 pessoas. Do lado de fora, no quintal, há uma edícula para as pranchas, garagem com dois jet skis e um carro, cozinha e píer para o barco. Fica em Vairao, praia ao lado de Teahupoo, que nem por isso tem ondas piores. “A esquerda de Vairao é alucinante”, garante Bruno. “É um pouco mais fácil que a de Teahupoo, tem gente surfando ali direto.”

Quando o mar está sem onda, Marama leva os brasileiros para conhecer secret spots, passear, curtir cachoeiras. Por essas e outras, já passaram por sua casa surfistas do peso de Peterson Rosa, Fabio Gouveia, Neco Padaratz, Adriano de Souza e Heitor Alves. “E vários fotógrafos de surf”, acrescenta Aleko. “Sebastian Rojas, Tony Feury, Levy Paiva.”

A proximidade com os surfistas brasileiros fez Marama encarar um avião pela primeira vez na vida, há quatro anos. “Nunca tinha saído do Taiti”, diz. “E achei ótimo descobrir o Brasil, o famoso país do Pelé e do futebol.” Voltou duas vezes, viu o Carnaval do Rio de Janeiro, surfou em Recife, conheceu Ubatuba, virou corintiano depois de ver um jogo do time em São Paulo. Este ano, vem para a Copa das Confederações: seu sobrinho joga na seleção do Taiti, classificada para o torneio.

O nome do sobrinho não poderia ser mais brasileiro. Edson, em homenagem ao Rei.

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