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Flashback

Um texto da época em que nosso colunista ainda estava preso

Por Redação

em 21 de setembro de 2005

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Constantemente as pessoas me perguntam onde encontro motivação e tanto assunto para escrever. Porque elas estão cientes de que vivo há mais de trinta anos preso. E, pelo que relato, sabem que cadeia não oferece espaço para inspirações.

Aqui se sofre muito. As lágrimas, já não as choramos mais. As gotas conhecem o percurso de nossos rostos. Franzem na boca, apenas. São tristezas que se repetem numa sucessão de dias que se emendam, ondeantes, como um suspiro.

Chega um tempo também que isso não importa. Uma das piores coisas em se sofrer é a falta de respeito pela dor da gente. Há pessoas para quem, estarmos com nossas vidas costuradas entre grades e muralhas, é pouco. É indiscutível que merecemos e aqui estamos. Mas por que o sadismo de nos querer esmigalhados, além de nossas almas e destinos quebrados? É tanta crueldade quanto.


A idéia de civilização tem a ver com perdão, compaixão e justiça. Se as pessoas não se perdoassem e não dessem chance umas para as outras, como coexistiriam?


Vivo em uma cela de reduzidas dimensões com mais onze companheiros. Quando a porta se abre, caímos direto no pátio. É um quintal de tão pequeno. Muros altos cercados de ouriços cortantes como navalhas. Nos acotovelamos, procurando adaptar nossas vidas a esse espaço. E são largas vidas que se retorcem como os cabos de aço que aterram os pára-raios.


Querem saber onde encontro matéria mental para produzir tanto quanto produzo. Concordo que tudo é ridiculamente pequeno para um pretenso escritor como eu. Tudo isso aqui deveria me diminuir em minha humanidade, limitar meus sentidos e eliminar minha capacidade de contribuir. Como criar, inventar, já que o silêncio ameaça engolir minhas palavras? Tudo parece desaparecer por falta de atmosfera e profundidade.


Respondo que uma lágrima é tão indelével quanto uma poesia. Uma folha, quando cai, enfeita o chão. Há coisa que só em se fechando os olhos é possível enxergar. Embora também posso dizer que não se morre somente na vida, mas também na emoção. A inteligência não usada se atrofia. Pode se matar a possibilidade de conhecer, portanto compreender, reagir e fazer uma releitura do mundo. A tendência é essa. Já que tudo o que temos são grades, muralhas, guardas e presos.


Já, pássaro desassossegado, voei além da possibilidade da paz. Mas os livros e as mulheres que me deram amor me salvaram. Salvaram da morte em vida. Gestos puros que se moveram para enxugar a umidade de meus olhos. Iluminaram de inteligência e embriagaram a vida de paixão.


Livros como Sidarta, de Hermann Hesse, Escuta Zé Ninguém, de Wilhem Reich, O Profeta, de Gibran Calil, Os Mandarins, de Simone de Beauvoir, Um Homem, de Oriana Falacci, Nosso Lar, de André Luiz, A Caminho da Luz, de Emmanuel, A República, de Platão, Misto Quente, de Charles Bukowski, O Existencialismo é um Humanismo?, de Jean Paul Sartre, O Pequeno Príncipe, de Saint-Exupery, Desobediência Civil, de Henry Thoreau, e tantos outros que deram vida, sonho e fantasia à minha existência.


Salvaram-me da ignorância, da ‘inciência’ do mundo e de mim mesmo. Trouxeram-me a chance da reflexão. Pensar muito sobre meus erros e suas raízes. Fazer cada um de meus nervos acompanharem cada uma de minhas respirações. Não podia mais me fugir e me coloquei contra a parede, exigindo-me explicações.


Os futuros se fizeram curtos e desapareceram. Deixaram o interminável presente, cheio de significação. Tropecei em soluções, transvazado de ansiedade e vontade de ser. Então descobri que ninguém é, assim como eu não sou. Nós vamos sendo num processo cumulativo no passo de nosso caminhar. Eu não era preso; não era um bandido. Estava preso e fora bandido. Então havia solução. Eu era a própria solução, estava unido a mim mesmo, como num espelho. Estranho e igual.


Livros me trouxeram pessoas e pessoas me trouxeram livros. E, por sorte, essas pessoas eram femininas. E, para ser absolutamente sincero, prefiro uma certa distância respeitável a homens, mulher é muito melhor. Amá-las foi uma salvação maior. Preenchi a alma e compus a mim mesmo a partir delas. Aceitaram meus tropeços e encheram-me de certezas. Principalmente que havia um lugar para mim, uma passagem para além da turbulência de meu coração.


De Oneida recebi bondade, aprendi a vontade de lutar e me fazer merecer. Cecilia me trouxe a mística doçura sem limites e uma delicadeza que chegava a me comover até as lágrimas. Carmem ensinou-me o resplendor. A arte em sua manifestação mais pura de ser em si mesma e beleza além da estética. Luiza encheu-me de razões, a lógica da coerência, um lindo clarão de luz. Silvania deu-me o amor denso de motivação, anos de dedicação extremada que me salvaram de mim mesmo. Irismar deu-me a paternidade, a verdade de ser pai e então compreender um mínimo do mistério da vida.


Os livros e as mulheres me salvaram, mas ninguém mais, além de vocês que me lêem, me motivam mais a escrever. É fascinante essa emoção que voa, assim como que sem dono, a pousar em minhas palavras, formando minhas histórias. Por vocês eu estudo cada vez mais, amo muito mais e faço de minha alma de lua cheia uma esperança de transcendência.


Composto por Luiz Alberto Mendes em 15/07/2003

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