Logo Trip

FÉ CEGA FACA AMOLADA

Temos medo de assalto nas ruas enquanto sujeitos acima de qualquer suspeita nos asaltam, impunes

Por Redação

em 21 de setembro de 2005

COMPARTILHE facebook share icon whatsapp share icon Twitter X share icon email share icon

O sujeito caminhava na minha direção me olhando fixamente. Como era domingo, dia dos pais e fazia muito frio, não havia quase ninguém nas ruas.

Era mais ou menos dez e meia da manhã e eu acabava de escancarar a grade de ferro que separa minha casa e a dos vizinhos da rua.

Era a situação ideal para um assalto. Sujeito desavisado abre a grade para recolher o jornal e é abordado violentamente por alguém que preparava a campana. Para piorar a cena, o elemento correspondia com exatidão às estatísticas que o livro de Caco Barcellos revelou e os jornais endossam diariamente. Novo, uns vinte e poucos, gorro de lã preto enterrado até o meio da testa, magro, nem preto nem branco, pardo como gostam de dizer os escrivães de polícia, bigodinho ralo, blusa de moleton meio velha e dois números maior, tênis furado nos pés, e puxando uma espécie de traquitana que eu não conseguia identificar com precisão.

A primeira reação do bicho urbano acuado seria fugir, correndo pra dentro, trancando a grade. Por algum motivo resolvi devolver o olhar que insistia em bater na minha direção.

O sujeito foi se aproximando até chegar àquela distância na qual é impossível não tomar uma atitude definitiva, seja de baixar a cabeça e desviar a rota, seja de encarar e anunciar o assalto.

Para minha completa surpresa, nem uma coisa nem outra. Ao contrário, ouvi a frase mais inesperada e incrivelmente amistosa: ‘Bom dia, tem alicate de unha, tesoura ou faca para amolar?’

Só depois de uns doze segundos para retomar o batimento cardíaco normal, foquei os olhos e vi que o objeto que o cara arrastava, era na verdade uma daquelas engenhocas feitas de resto de carrinho de feira, velocípedes e bicicletas, que de cabeça para baixo fazem rodar um esmeril para restaurar objetos cortantes devolvendo-lhes a vida.

De novo, a reação natural do bicho ameaçado no qual a maioria de nós se transformou, seria a de disparar um seco e rápido ‘Não, obrigado’ para se ver livre do elemento de características suspeitas.

Resolvi botar fé de novo, e arrisquei um ‘Quanto é?’. ‘Três reais, mas fica novinha’, justificou-se o ambulante.

Não foi difícil localizar uma tesoura e um alicate carentes de uma boa superfície abrasiva que lhes devolvesse a utilidade.

LIÇÃO DE CASA

Foram vinte minutos de lições. Primeiro sobre a arte de afiar lâminas, a angulação certa e a intensidade de giro do esmeril, segundo sobre o respeito que um profissional rapidamente conquista, pouco importa a profissão. Ao insistir para atingir a perfeição do corte de um retalho de cetim, o amolador passava e repassava a tesoura pelo esmeril, azeitava-a com óleo singer para máquinas de costura, até ficar satisfeito e me entregar o objeto pérfuro-cortante em perfeito estado. Aprendi também, que não lhe falta trabalho, já que trata as pessoas bem e capricha no serviço. Me contou até que tem quatro casas em bairros diferentes que lhe permitem guardar a traquitana, para não ter que carregá-la no ônibus de volta para casa na região de Interlagos. Por fim, agora sei que a Mundial ainda faz as melhores tesouras, apesar de que o material usado hoje em dia, segundo ele, já não é mais tão bom como antigamente.

Depois do encontro agradável, li atento uma entrevista de um especialista em segurança. De forma interessante, o entrevistado questionava a idéia recorrente de que a criminalidade e a violência seriam simplesmente frutos diretos da carência de educação e da pressão da sociedade de consumo insensível que tenta permanentemente os menos favorecidos para que tenham aquilo que não podem conseguir.

Segundo ele, estas são causas importantíssimas sim, mas não as únicas. Seu argumento duro aponta no sentido de que mesmo as sociedades muito menos desiguais na distribuição de riquezas e cultura geram violência e criminalidade em níveis alarmantes.

O amolador de tesouras batalhando com dignidade e honestidade mesmo sem ter o que vestir e vivendo no músculo cardíaco da periferia, e o juiz Lalau, com curso superior, mansão em Miami e carro importado não se incomodando em lesar milhões de pessoas dão em boa medida, razão para se pensar até onde os componentes pré-uterinos da índole e do caráter são razões tão relevantes quanto a fome e a deseducação para a explosão da violência nos grandes aglomerados de gente.

PALAVRAS-CHAVE
COMPARTILHE facebook share icon whatsapp share icon Twitter X share icon email share icon