por Gabriel Chaim
Trip #227

O fotógrafo Gabriel Chaim está na Síria, no meio do fogo cruzado da guerra civil

O fotógrafo Gabriel Chaim já passou por Dubai e Istambul registrando os melhores restaurantes, mas a vida nos campos de refugiados no oriente médio desviou sua rota gastronômica. Agora, ele está na Síria, no meio do fogo cruzado da guerra civil, sozinho na busca por esperança.

"Escrevo este texto dentro de um quarto apertado, em plena guerra civil síria, motivado apenas pela esperança de enxergar um futuro. Sou fotógrafo, brasileiro, e estou em Aleppo, a maior cidade do país, aonde vim fotografar não a morte, mas a esperança que nasce dos escombros — também vendo fotos e vídeos desse conflito para jornais nacionais e internacionais. Quando decidi me jogar no mundo e perseguir as histórias dos refugiados, sabia que iria enfrentar grandes obstáculos (materiais, pessoais e psicológicos), mas tenho passado momentos extremos que me fazem descobrir novas possibilidades em tudo: na dor, na felicidade e também no medo. Por muitos anos quis dar um significado importante à minha vida. Tinha muitos sonhos, mas não sabia qual o caminho a trilhar. Hoje percebo que todas as rotas que segui se conectaram, me trazendo para este lugar: das montanhas geladas do Irã ao calor de Bagdá, passei por Egito, Turquia, Palestina até me encontrar em meio aos refugiados.

Há três anos, depois de juntar uma grana, concebi o projeto Kitchen4life com o propósito de mostrar a realidade das vítimas da guerra, das crianças que perderam tudo, expressando a minha dor em ver alguém sem absolutamente nada. Talvez seja uma forma de exorcizar meus demônios. Sabia que minha caminhada seria solitária, pois dificilmente alguém iria querer deixar o conforto da rotina para se jogar no desconhecido, em busca da verdade de outras pessoas. Deixei minha família, minha filha de 4 anos está crescendo sem um pai presente, tudo porque estou engajado nessa causa. Mas quero ajudar pessoas que perderam tudo, que abandonaram suas casas para viver em uma tenda em outro país, cercadas por grades, vivendo uma liberdade corrompida.

Aqui na Síria, a tristeza nos leva a pensar na vida, pois os refugiados vivem um dia de cada vez

Sim, os refugiados vivem uma falsa liberdade, mas o que seria deles se não fosse isso? O campo de Al Zaatari, localizado em uma pequena cidade chamada Mafraq, no norte da Jordânia, abriga 200 mil sírios que aguardam o fim do conflito para retornar ao que restou de sua terra, pois suas casas, bem, elas não existem mais. Os refugiados são apenas famílias destroçadas que deixaram corpos de filhos pelo caminho; são crianças que vivem do presente, sem saber qual futuro as espera. Ali encontrei a realidade mais explícita já vista por mim e, ao conversar com as pessoas, percebi que elas me tinham como um portador de suas verdades e que meu verdadeiro dever era o de transmitir a dor que sentem.

Aqui em Aleppo, a tristeza sempre nos leva a pensar na vida, pois os refugiados vivem um dia de cada vez. A esperança é considerada um sonho, no mesmo sentido que muitos no Brasil sonham em ter uma Ferrari. Ao mesmo tempo, as pessoas sofrem por ter ficado na Síria, sofrem por terem ido a um campo de refugiados, sofrem por viver. Outras não sofrem mais, pois morreram. Essa guerra já vitimou mais de 100 mil pessoas. Ainda assim, meu objetivo nunca foi mostrar os mortos, ainda que o mundo foque a destruição. Eu foco a esperança, a f lor que surge nos escombros, a vida que nasce da guerra. Fotografo lugares que foram esquecidos pelo Ocidente, que estão fora da mídia, lugares que nunca imaginei que existissem.

Sou minha única companhia, mas meu maior medo hoje é gostar da solidão

DOSE DE SOLIDÃO

O mais interessante de uma jornada solitária é que você não tem que dar satisfação a ninguém, você trilha seu rumo e sofre as consequências. Na maior parte do tempo, sou minha única companhia, meu único amigo. Somos capazes de descobrir preciosidades dentro de nós quando estamos nessa situação. Sempre vou aconselhar às pessoas uma dose de solidão, pois, se não nos conhecermos, como poderemos conviver? Enquanto formos egoístas, estaremos fadados ao nosso próprio abismo. Meu maior medo hoje, porém, é gostar da solidão.

Enquanto escrevo este texto, uma bomba estoura a cada 10 minutos. São 3 horas da madrugada, é impossível dormir. O barulho delas faz as paredes tremerem e entra em meu corpo. É por isso que as pessoas aqui passam a amar mais a vida, pois amam enquanto podem. As bombas são como ponteiros de um relógio: a cada estrondo, as horas passam e a morte se aproxima."

Vai lá www.gabrielchaim.com // www.kitchen4life.org

matérias relacionadas