Eu sou mais eu
O homem que fecha as edições da Trip dá sua receita de felicidade: ser ele mesmo
Por Redação
em 1 de novembro de 2006
Comecei a pensar em felicidade no fim da adolescência. Era 1969 e eu achava que não ia ser feliz no Brasil.
Sentia uma pressão incrível para ser uma pessoa que eu não era. Além de ter nascido numa família conservadora, eu me dividia em várias turmas que não tinham nada a ver uma com a outra: uma da faculdade de direito, liberal, libertária, socialista, boêmia, com uma grande diversidade de tipos humanos e estilos de vida; outra da vida em sociedade, careta, afetiva, grã-fina, inconseqüente, alienada e ingênua; outra do cinema, charmosa, artista, intelectual, mais parecida com o pessoal da faculdade, mas com mais substância; e outra de amigos históricos, que me acompanhavam pela vida afora. Eu era vários Ricardos e era infeliz com essa esquizofrenia múltipla.
Decidi ir para Londres, onde eu não conhecia ninguém, para me livrar de todos os vínculos e patrulhamentos brasileiros, em busca da felicidade que eu entendia como a liberdade de ser eu mesmo.
Depois de três meses eu estava instalado na cidade e convivia com alguns grupos de amigos com os quais – adivinha – eu desenvolvi os mesmos vínculos que tinha no Brasil! Isto é, estraguei o projeto de ser eu mesmo. Mas aprendi a primeira lição sobre a minha felicidade e escrevi para meus pais explicando por que eu ia voltar para casa: “FELICIDADE NÃO É UMA QUESTÃO DE GEOGRAFIA, CIRCUNSTÂNCIA E COMPANHIA. Vou dar uma mochilada no continente e volto para o Brasil”.
Toquei a vida assumindo que eu era o único responsável pela minha felicidade. Claro que fui parar em um monte de terapias para descobrir quem eu era, para que eu servia, o que eu queria etc. Essas perguntas que nos acompanham a vida toda e nos mantêm curiosos com o que tem por trás da próxima esquina, do próximo encontro, do próximo capítulo de nossa biografia. Fiz de tudo: terapia individual, de grupo, clássicas, alternativas, esotéricas, de tudo um pouco. Nessa fase acho que armazenei aprendizados para colocar em prática nos momentos em que eu teria poder e, portanto, não poderia culpar ninguém do fato de o mundo não ser como eu gostaria que fosse.
Foi o que aconteceu em meados de 80 quando me tornei empresário. A Guimarães e Giacometti era numa casa supercharmosa na alameda Ribeirão Preto, vizinha da Trip. Lembro de ver você e o Califa almoçando no bandejão do Maksoud. Vocês já eram os caras da Trip, a revista que eu mais curtia. Muito bem, no primeiro dia que cheguei ao escritório, dei bom-dia ao segurança, que me sorriu com uma boca cheia de dentes estragados. Fiquei mal. Eu não gosto de ver dentes estragados. Assim que entrei, chamei o gerente administrativo e pedi que ele mandasse arrumar os dentes do segurança. Ele me respondeu que ia ficar caro porque todos os outros funcionários iam querer o mesmo benefício. E eu respondi que tudo bem, que íamos dar esse benefício a todos. Nesse dia à noite registrei a minha segunda conclusão sobre a minha felicidade: “SEREI FELIZ MESMO QUE PARA ISSO EU TENHA QUE FAZER TODO MUNDO FELIZ”.
Sorriso Colgate
Aprendi que eu sou basicamente egoísta. Sim, era puro egoísmo. Fui movido por um desejo pessoal de não ver os dentes estragados do segurança. Confesso que não estava preocupado com ele, mas com o meu conforto e vontade de viver num mundo bonito, harmônico e elegante; e dentes estragados não combinam com esse mundo.
Foi uma descoberta importante porque eu me vi tomando decisões estranhas para o mundo dos negócios. Eu estava assumindo custos indevidos para o negócio e isso poderia afetar os resultados.
Mas aí eu pensei: se é isso o que eu quero e posso ter, por que não? Não é para isso que serve o dinheiro? Para satisfazer nossos desejos? Eu queria o belo e ia pagar por ele. Afinal, era o meu trabalho, a minha empresa, a minha vida que rolava naquele lugar.
Fui em frente e continuei realizando meus desejos e crenças com o poder que me era dado. Do ponto de vista de mercado, a história vai dizer se minhas empresas deram certo ou não. Mas, da minha parte, eu posso garantir que tenho me realizado bastante e me divertido mais ainda.
Tanto isso é verdade, que lá pela virada do século, eu, com 52, fiz um balanço da vida, cheguei a mais uma conclusão sobre minha felicidade e criei um epitáfio para a minha sepultura: “FUI FELIZ”. Isto é, o saldo de felicidade da minha história é positivo, pelo menos até agora.
E quer dizer também que gosto da idéia de ir embora deste planeta e me livrar dessa saga, dessa lição de casa, desse desafio de ser feliz num lugar com tanta chance de ser infeliz.
Enquanto não vou, fica com o abraço do vizinho que virou amigo e que tem nesta coluna um dos mais gostosos momentos de felicidade. Obrigado por isso.
Ricardo.
*Ricardo Guimarães, 58, era feliz – e sabia. É presidente da Thymus. Seu e-mail é: rguimaraes@trip.com.br
LEIA TAMBÉM
MAIS LIDAS
-
Trip
Bruce Springsteen “mata o pai” e vai ao cinema
-
Trip
O que a cannabis pode fazer pelo Alzheimer?
-
Trip
Entrevista com Rodrigo Pimentel nas Páginas Negras
-
Trip
5 artistas que o brasileiro ama odiar
-
Trip
Um dedo de discórdia
-
Trip
A ressurreição de Grilo
-
Trip
A primeira entrevista do traficante Marcinho VP em Bangu