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EU QUERO SER NORMAL

Poucos atletas na história do esporte podem ostentar o título de 'melhor do mundo' por muito tempo de forma absolutamente incontestável.

Por Redação

em 21 de setembro de 2005

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Poucos atletas na história do esporte podem ostentar o título de ‘melhor do mundo’ por muito tempo de forma absolutamente incontestável. Há, é lógico, todo ano, um campeão mundial em cada modalidade minimamente difundida e disputada no planeta. Mas falo de algo diferente, uma hegemonia que, para ser conquistada, demanda muito mais algo divino e difícil de se explicar do que treino, malhação e horas de academia.
Mohammad Ali, Pelé, Ayrton Senna, Mark Spitz, Michael Jordan, Fangio. Uma lista que não vai muito além desses nomes e para a qual, gente como Maradona, Ronaldinho, Romário, Dennis Rodman e outras feras terão de batalhar um bocado para serem aceitos.
Fim de semana passado, um atleta que aos vinte e sete anos garantiu seu lugar na lista dos abençoados do esporte esteve no Brasil. Kelly Slater não tem só um lugar, tem na verdade um camarim com direito a estrela dourada na porta e seu nome cravado no cimento. Foi nada menos que seis vezes campeão mundial de surf profissional e, não contente com a liderança incontestável no universo competitivo do esporte, exibiu talento incomparável no único cenário que costuma desafiar a unanimidade em torno das grandes competições. Kelly já assinou seu nome em paredes e tubos gigantescos em Grajazan na Indonésia, uma das ondas mais cabulosas, difíceis e técnicas do planeta; demonstrou segurança e alta performance nas montanhas de água de Waimea, até pouco tempo atrás a maior onda surfável do planeta, e não deixou qualquer espectro de dúvida sobre quem é nos últimos vários anos o surfista mais completo e bem dotado física e tecnicamnete desta galáxia. As mulheres que acompanham o esporte costumam igualar sua beleza e atratividade física a seu talento esportivo. Entre outras belas mulheres, Slater namorou durante nove meses a ex-atriz do seriado Baywatch, Pamela Anderson, uma espécie de ícone da geração siliconada no mundo inteiro. Com uma fortuna que pode passar dos dez milhões de dólares investidos por um administrador profissional, uma filha de três anos de um affair passageiro, regiamente pago pra viajar e fazer o que gosta, com centenas de mulheres lindas se arrastando a seus pés em cada país onde finca suas pranchas, ao ser convidado a fazer a única entrevista exclusiva concedida por Slater em sua passagem quase incógnita pelo Brasil, esperava encontrar um garoto meio aéreo, de poucas palavras, inevitavelmente um pouco arrogante e preocupado em se livrar logo do compromisso para agarrar algumas das garotas que fazem fila ou para surfar as ondas bastante razoáveis para padrões brasileiros que quebravam em Maresias, onde foi levado por seus anfitriões e patrocinadores da Quiksilver.
Surpresa. Em vez de desfilar em carro aberto colhendo os louros de suas façanhas pelo mundo, Kelly preferiu ficar recluso. Foi pouquíssimo visto na área. Nem mesmo num campeonato em homenagem aos surfistas veteranos que acontecia na praia, oportunidade perfeita para fazer média e exercitar a ginástica que infla os egos, Slater apareceu. Na conversa que mantivemos por cerca de duas horas, contrariando as mais otimistas expectativas, revelou-se um sujeito aéreo sim, mas não perdido em devaneios, frutos da mais pura alienação, e sim o olhar perdido de quem busca as respostas para as mais simples e básicas questões existenciais.
Slater explicou que no auge da fama, performance técnica, grana e mulheres, resolveu deixar a cena em busca do qeu lhe faltava: relações humanas mais densas, verdadeiras e satisfatórias. Disse que quer dividir sua existência com alguém que lhe seja especialmente próximo, que quer ter menos coisas, menos compromissos, menos relações duvidosas com mulheres, amigos, negócios e com seu próprio esporte. ‘Quero parar de viver uma vida irreal’, resumiu Slater. ‘Surfistas são muito burros. Só não conseguem ser mais burros que advogados, psicólogos, publicitários, senadores, policiais, comerciantes, jornaleiros, contadores, professores…’

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