Não conheço a opinião de Freud, mas deve haver na psicologia, quilômetros de teses sobre a paixão atávica dos homens por automóveis.
Pode variar o grau, mas os sintomas da doença estão instalados em maior ou menor medida em 99% dos organismos vivos bípedes, humanídeos com cargas acentuadas de testosterona.
Vi uma vez um marajá cinquentão chegando numa festa num Porsche conversível cheio de razão. Na saída, diante da constatação de que o veículo fora roubado, o sujeito instintivamente levou as mãos aos órgãos genitais, como se lhe tivessem estirpado o pênis.
Meu sobrinho , antes de dizer mamãe e papai, já falava ‘Renault Twingo’.
Há dois meses, vagando por uma feira de carros, escutei de orelhada a conversa de dois sujeitos simples, com cara de zelador de prédio, daqueles que estão no mesmo edifício há 22 anos.
Os sujeitos discutiam suas escalas de valores em plena praça Charles Müller tendo por testemunha o portal do estádio do Pacaembu:
‘Prá mim não tem conversa. É primeiro minha filha, segundo o Maverick e em terceiro vem o resto.
Entendi que na sua definição de ‘resto’, deveriam estar contidos ‘detalhes insignificantes’ como a mulher, os pais, sua profissão, a saúde, etc…
Foi aí que o outro elemento admoestou , para meu alívio:
‘Porra, não é nada disso…’ disse o zelador numero dois, com a barriga pulando por cima do cinto.
NEM O CACHORRO
Enquanto aguardava a segunda parte do comentário, elaborei no cérebro um pensamento rápido. Que bom que mesmo entre gente simples, o bom senso impera. O cara mais velho vai aplicar um corretivo moral no outro. Afinal, mesmo sem ver o estado em que se encontra o Maverick, e principalmente a mulher do primeiro fulano, não é possível admitir tamanha insensibilidade.
Foi aí que o segundo sujeito completou seu raciocínio:
‘Isso é porque sua filha ainda é pequena… Deixa ela crescer e começar a aprontar, vir te encher o saco o dia inteiro, pedir grana para sair com namorado… Cê vai ver o que é bom prá tosse…
Prá mim não tem filho, mulher, serviço, nem mesmo cachorro que dê tanta alegria, amor e companheirismo como meu Diplomata… E sem pedir quase nada em troca… É só dar de beber, que ele tá lá, brilhando e sorrindo , sempre pronto prá ir com você até o inferno…’
Tenho que confessar que minha primeira reação foi cogitar que aquela declaração de amor incondicional fosse endereçada a algum embaixador gay, que teria entre seus afazeres no exterior e as visitas ao Itamarati, encontrado meios para manter um caso com um zelador de prédio de Higienópolis.
Só algum tempo depois, refeito do susto, vi que o suposto zelador homossexual, caminhava na direção de um negro reluzente e bonito.
Um legítimo Opala 86, quatro e cem Diplomata, tratado a pão de ló.
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