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Estamos juntos

Somos bárbaros e primitivos em nossas gestões sociais

Por Redação

em 21 de setembro de 2005

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No fundo, só podemos contar conosco, dentro de nós mesmos. Por mais próximos que sejam os outros, estamos sós. Sozinhos para decidir quais caminhos seguir. Pensamos individualmente, vemos tudo através de nossa experiência pessoal e, em última instância, somos nós que temos que nos suportar e agüentar nossas conseqüências.

Somos donos de todas nossas incoerências. Um turbilhão, uma energia vibrante que não cessa e, no entanto, vivemos à míngua, mesmo quando em excesso. Nada nos importa muito porque nunca podemos reter definitivamente nem o momento existencial, já que nele não nos vemos sempre.


Somos bárbaros e primitivos em nossas gestões sociais. É só observar o que chamam de marketing, bolsa de valores, ou um banco (Bertold Brecht questionava sobre o que é um assalto a banco diante de um banco). Vivemos concentrados em nosso dinheiro qual fosse o último degrau de uma escada rolante. Nele a nossa única noção de sobrevivência, mesmo que dentro da individualidade de cada centavo.


Até no ato sexual, estamos sós, em busca de nosso prazer. O sexo e a procriação são atributos da natureza em nós. Nascemos para nos reproduzir, em uma visão zoológica e reducionista da existência. Daí então criamos a sensualidade, produto da mais autêntica cultura humana. A magia feminina conjugada ao charme masculino.


Fomos cercando de tabus tudo aquilo que não conseguíamos ou não entendíamos. Hoje estamos sós até aí, no tesão e no prazer, m que existe a possibilidade da partilha máxima do ser. Ali, um dentro do outro, haveria que existir a consciência de que não estamos sós. Mas estamos perdendo a plenitude que há na acolhida, na atitude indivisível que o espírito e o corpo somam e expressam adiante de qualquer palavra.


Na união entre dois seres para a prática sexual, há uma linguagem de conseqüências, de gravidade e arte, como na poesia ou na música. O corpo todo unido ao que se espiritualiza, numa dança ao ritmo da vibração universal. E, mesmo ali, tentamos o vácuo, saltar nossa própria sombra, sair do ato e assisti-lo do lado de fora, buscando prazer maior que aquele próprio. Então já não é mais orgasmo, é narciso e se perde num gemido tudo o que se construiu em milênios de cultura.


Somos extremamente prepotentes e em breve sofreremos as conseqüências disso. Todo dano que causamos à galáxia, em que somos apenas reduzidíssima parte, está para cair sobre nossas cabeças, é inquestionável. Esse sistema em que estamos tão privilegiadamente inseridos nos tolera, talvez por sermos a maravilha das maravilhas. Só que, dia menos dia, tomará atitudes radicais para resolver o caos e o desequilíbrio que promovemos. Então, nada será exagerado, inclusive nossa extinção como espécimes.


No ano que nasci, 1952, ocorreu uma tragédia em Londres. Cinco mil pessoas morreram intoxicadas pela funilagem de carvão, o combustível da época. A previsão dos cientistas é de que o nosso planeta subirá 6 graus Celsius por volta de 2100. O sistema estará cobrando da flora e fauna, inclusive a racional, o preço de sua frustração.


Chego à conclusão de que nos enganamos inteiramente. Criamos uma vida para nós que nada tem a ver com aquilo que é nossa vida mesmo. Sofremos e sofreremos barbaramente por conta disso. Pagamos para viver com nosso trabalho, já que não fazemos parte da natureza. Ela não cuida de nós como faz com as plantas, os animais e toda vida em redor de nós. Estamos cada vez mais submetidos à organização social. Somos produtores e consumidores. Escravos, reféns.


O pior de tudo é que vivemos para pagar impostos que sustentam a gerência dessa caótica organização social. Pagamos para tudo, até para sermos sacaneados, maltratados e explorados. E tudo porque tudo o que possuímos tende a nos possuir também.


De uma coisa estou certo, ainda haverá noites insones e dias febris, apesar de todos esses dias felizes. Os acontecimentos se sucederão, e, se para quase tudo estamos sozinhos, com certeza quando surgirem as conseqüências estaremos juntos. Sofremos melhor assim.

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