por Redação

O primeiro estilista e as histórias por trás das camisas verde-amarelas da seleção brasileira

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Por Cassiano Elek Machado  fotos Ado Henrichs


Quando os Ronaldos todos se enfileirarem para ouvir o Hino Nacional nos gramados da Alemanha, Rosemary Santos Melo vai apontar para a televisão de sua casa, em Osasco, e dizer para os quatro filhos: “Olha lá, foi a mamãe quem fez”. Essa sergipana de 41 anos nunca foi a um estádio de futebol. Ainda assim, é peça importante na campanha brasileira pelo sexto caneco. Rose é uma das costureiras dos pedaços de pano mais valorizados do país, o uniforme da seleção nacional de futebol. Elas são 550 funcionárias, e desde janeiro deste ano estão afogadas num mar amarelo, 24 horas por dia, em três turnos. Dá até choque o contraste de tonalidades. Lá fora, o rio Tietê com suas águas de uma cor que nem existe atazanando as narinas, depois as paredes cinza e ásperas da fábrica e então a “colméia”: em um salão com o tamanho de um campo de futebol, Rosemary e colegas estão cercadas por maquinários repletos de fios dourados.

Trabalham todas de fones de ouvido, sem olharem para os lados, cada uma dando um trato em um pedaço do traje. Rosemary estava às voltas com a “refiladeira”, fazendo a barra da parte de baixo de uma camisa número 10. “Sou fã do Edmundo, mas da seleção gosto mesmo é do Ronaldinho Gaúcho.” Se houvesse eleição, as companheiras de Rose votariam igual. Fazem os uniformes que vestem de Dida a Adriano, mas sentem mais orgulho quando cortam e costuram a camisa 10, não por acaso a responsável por 40% das vendas atualmente. Antonia Carlas é uma das exceções: “Meu predileto? Ah, é o Roberto Carlos, né? Que potência nas pernas ele tem”. Antonia trabalha alguns andares acima de Rosemary, mas ninguém ali na fábrica sabe de onde vem a matriz daquela peça que veste o imaginário de toda uma nação.

A matriz que veste uma nação
O desenho da mais nova “canarinho” começou a ser esboçado já em 2003, no Estado do Oregon (EUA), sob o comando de um inglês que nunca jogou bola, nunca veio ao Brasil, mas que garante à Trip que vai torcer pelo nosso selecionado durante a Copa do Mundo. Peter Hudson, diretor mundial de design da divisão de futebol da Nike, tem motivos para isso. A empresa é a responsável pelos uniformes de outras seleções nacionais. Em fevereiro, em megaevento para o qual mobilizou a imprensa do mundo todo, em um fim de tarde de -5oC no Estádio Olímpico de Berlim, a Nike apresentou as novas roupagens de suas oito equipes classificadas para a Copa do Mundo, o Brasil incluído. Mas o projeto brasileiro certamente é especial.

Recentemente a marca norte-americana renovou seu contrato com a CBF, que estipula um pagamento para a entidade de 12 milhões de dólares (mais 6 milhões de verdinhas por título mundial) por ano até 2018, o que dá uma idéia do que representam para a empresa as vendas das camisas brasileiras (os números não são divulgados). Só para o projeto da camisa verde-amarela a empresa usou cinco pesquisadores. E, mesmo que mister Hudson não tenha vindo ao país, alguns de seus escudeiros gastaram meses aqui, pesquisando coisas como a tipologia dos números que usamos em nossas moedas e a organização visual de uma gafieira. Segundo o inglês, uma forte influência para a roupa que Rosemary e companhia costuram na fábrica às margens do Tietê foi Oscar Niemeyer. “Buscamos algo simples e poderoso, como as linhas dele, e nos inspiramos nas curvas de seus trabalhos. O detalhe verde nas mangas, por exemplo, é referência ao desenho para a calçada de Copacabana”, afirma o designer (note-se que, muitas vezes atribuído a Niemeyer, o desenho da calçada de Copacabana tem origem portuguesa, e seus traços finais são de Roberto Burle Marx).


Aldyr Garcia Schlee: o criador da matriz que gerou todas as outras
combinações verde-amarelas


Outra influência marcante da nova amarelinha, conta Hudson, foi a mais antiga das amarelinhas. O criador da primeira camiseta amarela da seleção brasileira foi, inclusive, um dos “fiadores” do novo projeto. Aldyr Garcia Schlee diz que achava “horrível” o modelo anterior, também criado pela Nike. O amarelo era fluorescente demais, a numeração lembrava as usadas em bolas de bilhar, os traços verdes sobre os ombros fugiam do desenho original, rabiscado há mais de meio século. Recordar é viver: o Brasil havia perdido em pleno Maracanã a final da Copa de 1950, em uma das grandes fraturas expostas do esporte nacional. A então Confederação Brasileira de Desportos e o falecido jornal Correio da Manhã resolveram que a seleção deveria aposentar seu uniforme de então, branco com detalhes em azul. Fizeram um concurso nacional em 1953 e o gauchinho de 18 anos bateu outros 300 concorrentes. Como revela o saboroso livro Futebol – O Brasil em Campo (ed. Jorge Zahar), do inglês Alex Bellos, o projeto do segundo colocado era de um traje com camisa verde, calções brancos e meia amarela. “Uma roupa horrivelmente feia”, afirma o ainda morador de Jaguarão. Aos 70 anos, Aldyr já deu muitos outros dribles em sua trajetória pessoal. O designer e diagramador virou jornalista, que virou escritor, que virou professor universitário... No meio do caminho, o criador da camisa mais importante do país deixou inclusive para trás o amor pelo futebol brasileiro. O destino o transformou em torcedor da seleção uruguaia, justamente o carrasco brasileiro na final de 1950.

Como o Uruguai não se classificou para esta Copa, Aldyr não quis ficar sem nenhuma bandeira em mãos. Assim, decidiu juntar-se a Rosemary, a Antonia Carlas, a Peter Hudson e a pelo menos outros 200 milhões em ação. Quando os Ronaldos todos se enfileirarem para ouvir o Hino Nacional nos gramados da Alemanha, Aldyr não vai apontar para a televisão e dizer “fui eu que fiz” — apesar de até poder fazer, se realmente quisesse. Em vez disso, o criador da matriz que gerou todas as outras combinações verde-amarelas vai torcer por uma sutil mudança na criatura: uma pequena estrelinha a mais sobre o brasão no peito esquerdo. Só isso.

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