por Milly Lacombe
Trip #270

Um dos maiores youtubers do mundo, o humorista piauiense de 22 anos revela como cria, como vive e como administra a fama e a grana

A não ser pelo nome de batismo, tudo em Whin­dersson Nunes parece bastante comum. Trata-se de um garoto de 22 anos que não é exatamente um galã, mas que também não é feio. Não chega a ser alto, mas também não é baixo. Não é magro, mas está longe de ser gordo. Seu apartamento paulistano fica em Moema, bairro de classe média, e é decorado de forma bastante remediada, com móveis de proporções um pouco maiores do que o pequeno imóvel talvez pudesse comportar, o que faz o espaço parecer menor do que de fato é. Pelo ambiente, que ele divide com a noiva, a cantora e compositora Luisa Sonza, correm dois cachorros simpáticos e inquietos: um vira-lata e um lulu-da-pomerânia, que acreditam poder evacuar onde bem entenderem. Whindersson não liga, não reclama e apenas os afaga.

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Mas toda essa  trivialidade deixa de existir quando lembramos que Whindersson é o youtuber mais famoso do Brasil. Até o fechamento desta edição, eram pouco mais de 24 milhões de inscritos no seu canal – bem mais 
do que outros sucessos nacionais, como o Porta dos Fundos (13 milhões) e o canal 5incominutos, de Kéfera (11 milhões). Na verdade, o canal de Whindersson está entre os dez maiores do mundo, por quantidade de seguidores, e os vídeos que ele posta têm, em média, 10 milhões de views. São números impressionantes e bastante sólidos, e que permitiram que ele comprasse um jatinho de nove lugares (que não custa menos do que R$ 5 milhões) e uma casa de R$ 1 milhão em Fortaleza.

“Tive uma outra vida já, totalmente diferente, nada a ver dessa de querer ser engraçado ou aparecer”, diz Whindersson, que nasceu no dia 5 de janeiro de 1995, em Bom Jesus, uma cidade de 23 mil habitantes que fica a 630 quilômetros de Teresina, no Piauí. Nasceu praticamente dentro do carro a caminho do hospital. “Metade de mim nasceu no carro”, ri. Frequentador de uma igreja evangélica apesar de os pais não serem religiosos, Whindersson não foi o engraçadinho da escola nem o palhaço da família – ele tem dois irmãos mais velhos e uma irmã caçula – e pretendia ser analista de sistemas (“Analista de sistemas ganha uns R$ 10 mil, me disseram”), mas acabou sugado por “esse negócio de internet” depois que a mãe ganhou um computador da empresa em que trabalhava.

Sem camisa e sem frescuras

Whindersson ficou famoso com vídeos de humor que misturam paródias a comentários sobre o seu dia a dia – a não ser pelo fato de ele ser um milionário, é apenas o dia a dia de um jovem qualquer, e envolve temas urgentes para essa geração, como estudos, reprovações, namoro, pais e família. Depois de estourar no YouTube há quase três anos, ele passou também a fazer shows, e chegou a realizar 37 em um único mês. A casa fica sempre lotada e Whindersson é ovacionado. Seu público o adora, e boa parte da explicação para tanta veneração está na simplicidade do seu discurso e na trivialidade da imagem que passa. Nos vídeos ele sempre se mostra sem camisa e sem frescuras, e o fato de não ter vergonha de exibir seu corpo, um corpo absolutamente comum, é um outro motivo para que seja tão admirado.

Numa sociedade cada dia mais preocupada com a imagem, Whindersson joga na cara de todos que vulnerabilidade e trivialidade podem ser um bom negócio. Foi justamente o fato de topar se mostrar sem medos e sem vergonha que fez ele sair da pequena Bom Jesus e virar um milionário antes dos 20 anos.

Whindersson teve, claro, a sorte de nascer numa época e dentro de uma sociedade que enaltecem coisas como vídeos banais de humor no YouTube. Tivesse nascido dentro de um arranjo social que supervalorizasse, por exemplo, leituras dramáticas de Shakespeare no parque, talvez não fizesse sucesso. Mas Whindersson não tem responsabilidade sobre o tipo de entretenimento que as pessoas supervalorizam e gostam de consumir, e apenas surfa o enorme tsunami que se apresentou a sua frente.

Trip. Conta um pouco da sua infância. Brincava na rua, era uma coisa mais simples?

Whindersson. É, sempre foi mais simples. Minha mãe e meu pai sempre foram muito “tem que andar na linha”, sabe? Então eu brincava ali dentro do limite. Meus pais nunca me privaram de brincar, de correr, de me sujar e tal, mas também se passasse do limite... Aí levava uns tapas em casa.

O que seus pais fazem? Agora não fazem mais nada, né? [Risos.] Mas eles eram representantes comerciais. Até uns dois meses atrás eles trabalhavam, agora não trabalham mais.

E você agora sustenta eles? É.

Você sempre foi de fazer graça? Não. Minha família sempre foi engraçada, entendeu? Minha galera sempre foi engraçada, mas eu, quando era criança, acho que era mais da imaginação, criava as coisas na minha cabeça.

Não era o engraçadinho da escola? Não.

Você era bom aluno? Mais ou menos. Eu era inteligente, sempre fui esperto, inteligente assim. Por exemplo: eu quase sempre perdia o ano, mas no final eu tinha que passar e aí estudava e passava.

“Eu fiz muitos vídeos até saber que podia ganhar dinheiro com aquilo. Não fazia ideia”

Seus pais são religiosos, têm um código moral muito rígido? Não.

Mas você cantava na igreja. Cantava, mas fui porque eu quis mesmo. Só eu, da minha casa, era evangélico. Todo mundo lá em casa é cristão, né?, mas não assim de ir à missa toda hora, não era galera religiosa, não.

E o que levou você para a igreja? Tinha um amigo meu que me infernizava para ir à igreja com ele. Infernizar... [risos], não dá para usar as palavras infernizar e ir para a igreja juntas, né? Mas aí teve uma hora que eu falei: “Tá! Vou ver qual que é esse negócio aí de ir à igreja”. Daí fui, meus amigos sempre iam, então estava lá com meus amigos e peguei gosto. Fiquei até os 18 anos, entrei com 7.

Você só cantava ou seguia o livro também? Seguia o livro. De apagar todas as músicas que não eram de Deus do celular, de ler a Bíblia sempre, toda tarde ler um capítulo.

Só você na sua casa fazia isso? Só eu.

Que curioso. É curioso, né? Por influência de ninguém na minha casa. Na verdade, minha mãe nem gostava que eu fosse à igreja. Não porque eu ia à igreja adorar Deus, mas porque mãe do interior e pai do interior não gostam desse negócio de filho ficar saindo de casa, entendeu? “Não vai trabalhar, então fica em casa.” Interior é mais assim, né? Tipo: “Vou sair pra tal lugar”. “Não vai!”. “Por quê?”. “Porque não é para ir, é pra ficar em casa!”. Mas até que depois eles foram gostando e foram deixando eu ir. Tranquilo.

E nessa época você queria seguir uma carreira mais conservadora? Sim. Eu queria casar com uns 20 anos, com 25 já ter filho. E eu estudava para ser técnico em informática, fui pelo salário da galera. Eu perguntava para os amigos: “Qual de vocês ganha mais?”, e perguntava para os caras da igreja, para todo mundo. Analista de sistemas ganha uns R$ 10 mil, me disseram. Então vou ser analista de sistemas, pensei. Aí botei quente pra ver se conseguia ser analista de sistemas, mas no meio do caminho apareceu esse negócio de internet aí, né?

Você se formou? Fez o ensino médio? Fiz. Ensino médio de manhã e à noite técnico de informática.

Você só tem 22 anos, mas já teve uma outra vida. Tive uma outra vida já, totalmente diferente, nada a ver dessa de querer ser engraçado ou aparecer.

Se quando você tinha 18 anos contassem que você estaria vivendo essa vida de agora, o que você diria? Eu ia falar: “Você tá ficando doido [risos]? Zero chance de acontecer isso”.

Me fala então como aconteceu isso. Minha mãe ganhou um computador como prêmio dado ao vendedor que mais vendia no mês na empresa em que ela trabalhava. Computador era uma coisa de rico, né? E aí ela ganhou e a gente começou a brigar pelo computador, meu irmão que estudava na universidade queria o computador e minha mãe não sabia mexer, aquela coisa. E aí volta e meia eu dava uma pegada escondido e mexia nele. Como na escola eu fazia o técnico em informática, já tinha alguma noção. E foi aí que eu comecei o contato com esse negócio de internet.

Como você virou o youtuber mais famoso do Brasil? Ah, eu não sei. Eu sei que eu gosto muito de fazer as coisas direito quando vou fazer. Se for desenhar, vou aprender a desenhar. Se for para cantar, vou aprender a cantar. E aí quando eu vi essa coisa de vídeo acho que eu fui me desafiando. Falei: “Meu Deus, parece tão fácil fazer isso e eu não tô conseguindo, ninguém quer ver meus vídeos, não tá engraçado. O que que eu tô fazendo de errado?”. E acho que foi aí que as coisas começaram a andar.

Mas teve um dia que você viu alguém no YouTube e falou: “Eu vou fazer isso”? Teve. Eu assistia a todo o tipo de vídeo, esses vídeos de curiosidade, sabe? O PC Siqueira, que é um youtuber antigão, eu via ele falando para a câmera, um formato legal, né? Falar para a câmera é engraçado, pensei. Aí peguei a vontade de fazer. Fiz com um amigo meu na escola. Teve uns 70 views. Era bem pouco.

Quando você entendeu que estava dentro de um negócio? Cara, eu fiz muitos vídeos até saber que eu podia ganhar dinheiro com aquilo. Não fazia ideia de que poderia dar dinheiro. Tanto que meu primeiro vídeo que estourou foi uma paródia, e deu tipo 6 milhões de views. Fui de um vídeo com mil views para um de 6 milhões. E a galera falava assim: “E aí, tá ganhando muito?”. “Ganhando o quê?”, eu perguntava. “Dinheiro, ué.” “Como ganha dinheiro com isso? Me ensina!”

Que ano foi isso? Eita! Acho que 2012 ou 2013.

“Você acha que Deus ia julgar o homossexual que nem a gente julga? Que nem os idiotas julgam?”

E a partir disso o que aconteceu? Quando esse vídeo estourou eu cresci o olho um pouquinho. Não por dinheiro, mas pelo negócio de assédio, do pessoal em cima – tira foto, faz isso, faz aquilo. Aí eu gostei da coisa.

Essa primeira paródia era o quê? Era sobre reprovar na escola. Era uma paródia daquela música [cantando a música] “Alô, vó! Tô estourado”, uma música bem nordestina. Daí eu fiz “Alô, vó! Tô reprovado, vó. Tô reprovado e o Facebook é o culpado”. Eu postei a paródia no final do ano letivo e a galera se identificou.

Quem é sua audiência? Eita! Assim, eu já fui muito povão, só que agora, como meus temas são variados, volta e meia pega uma galera diferente. Por exemplo: meu público é dos 18 aos 27, a maior parte. A segunda maior parte é dos 28 aos 34, e a terceira é de 13 aos 17. Então tem uma galera de todo jeito aí, entendeu? É que eu não faço muito vídeo sobre a mesma coisa. Tenho vídeo sobre escola, aí pega a garotada. Tenho vídeo sobre doação de sangue, e aí pega a galera da medicina. Tenho vídeo sobre barba, aí pega homens.

E hoje com que frequência você posta? Pode ser que eu poste oito numa mesma semana e um num mês. Vai da vontade que eu tô de fazer. 

Quando você ganhou muito dinheiro, assim, a primeira vez? Ah, depende o que é muito dinheiro para você. Eu já ganhei muitooooooo dinheiro, e já ganhei muito dinheiro quando eu não tinha nada, então aquilo pra mim foi muito dinheiro, entendeu? O primeiro dinheiro que eu ganhei do YouTube foi R$ 600. Eu estava acostumado a trabalhar à noite como garçom e ganhar uns R$ 70 por noite, o que dava uns R$ 280 por mês. Daí, do nada, eu ganho R$ 600, então eu: “AAAAAH! Dinheiro! Muita grana!”.

Você trabalhou como garçom onde? Na minha cidade mesmo, enquanto estudava.

E esse primeiro dinheiro você gastou como? Com o que eu mais tinha vontade de ter, que era um videogame. Nessa época eu morava sozinho em Teresina, para onde mudei quando vi que talvez pudesse ganhar dinheiro com esse negócio de internet. Mas eu não tinha dinheiro nem para um aparelho de TV, então não tinha como jogar. Eu ia na casa dos meus amigos comer, porque também não tinha fogão, não tinha sofá, não tinha nada. Aí eu fingia que estava passando por acaso perto da casa deles, almoçava e depois do almoço falava assim: “Eita, bora jogar um videogamezinho?”. Daí quando comecei a ganhar um dinheiro regular, vamos dizer uns R$ 2 mil no mês, me chamaram para uma ação de publicidade e ganhei R$ 20 mil. Outra vez: “AAAAAH! Dinheiro! Caralho, muita grana!”. Aí comprei um carro. Zero investimento, zero guardar pra depois. E o carro era R$ 40 mil, tive que dividir os outros R$ 20 mil. Depois, na outra ação que ganhei R$ 20 mil, fiz os dentes, porque meus dentes eram todos tortos e eu tinha muita vergonha do sorriso, o sorriso muda as pessoas, né? Mas eu vi que tinha ganhado muito dinheiro quando comprei a minha casa. Uma casa de R$ 1 milhão. É em Fortaleza, quase não vou lá [risos].

Tá paga? Total.

Você tem medo de perder essa ingenuidade em relação ao dinheiro? Então, assim, eu acho que a vida tem que ser vivida e você tem que ganhar o máximo que você puder ganhar e também entender que a vida é feita de fases. Agora eu tô na fase ótima, minha melhor fase é esta aqui. Ou pode ser que seja no próximo ano a minha melhor fase. Ou pode ser que a minha melhor fase seja esta e no próximo ano eu “dziuuu”, entendeu? Eu penso 
que a qualquer momento pode passar. Então acho que você tem que 
ter o que você tem vontade de ter, a expectativa de vida do brasileiro não é tão grande assim [risos]. Eu gosto de viajar, então todo ano, no meu aniversário, conheço um país diferente. Tenho o sonho de conhecer o mundo inteiro e vou fazer isso enquanto Deus me der saúde.

“Tenho uma empresa, tem funcionários. Se eu paro de trabalhar hoje, como é que aquele menino vai pagar o aluguel?”

Se sua mãe não gostava nem que você saísse de casa para ir à igreja como você conseguiu ir morar sozinho? Falei pra ela que ia dar uma entrevista na televisão e ia passar três dias fora. Aí não voltei mais.

E foi para Teresina? Fui. Eu não tinha nada em casa, tinha um cachorro, era eu e o cachorro. Dormia no chão. Na medida que o dinheiro ia entrando eu ia comprando coisas. Acho que no primeiro mês comprei uma cama e um ventilador, porque em Teresina é impossível dormir sem ventilador. Eu tinha ou o dinheiro da cama boa ou o dinheiro da cama ruim e do ventilador. Comprei a cama ruim e o ventilador. No outro mês comprei o fogão, mas não tinha panela, não tinha prato, não tinha faca, não tinha nada. Quando saiu o dinheiro do outro mês comprei a geladeira. Era um degrau de cada vez.

Você ia visitar seus pais? Ia, mas minha mãe falava: “Não vai voltar! Não vai voltar!”, e eu falava: “Peraí que vou só ali jogar bola”, entrava no ônibus e ia embora. Eram dez horas de ônibus até Teresina.

Como sua mãe vê sua carreira? Ela me vê como uma pessoa de sucesso: “Ah, meu filho foi lá e tentou”. Ela estaria chorando se estivesse aqui agora me vendo dar entrevista [risos].

Você quis vir morar em São Paulo ou foi inevitável? Eu resisti muito. Todo mundo quer ir embora para São Paulo, né? Deu um sucessinho, vai embora pra São Paulo. Eu gosto do Piauí. Morei no Ceará também, e gosto do Ceará. Eu queria muito ficar por lá, mas é muito contramão das coisas. Eu não gosto de morar em São Paulo, não [risos]. Mas é pela mobilidade, né?

Você está falando com muito orgulho do Nordeste. Você pensa que hoje pode ter uma função importante nesse orgulho nordestino? Sim, com certeza. Sou um cara muito sincero e não tenho esse negócio de “Ai, meu deus, preciso ser a bandeira do Nordeste”. Até porque o Nordeste não é mais aquele coitadismo que era tempos atrás, entendeu? Muita coisa boa vem do Nordeste: as praias mais lindas são do Nordeste, o clima do Nordeste é sensacional. Cocal dos Alves, no Piauí, é o maior índice de medalha em olimpíada de matemática. São coisas que tem no Piauí. O parque nacional com as pinturas rupestres mais antigas do mundo na Serra da Capivara... A gente tem muita coisa boa, não precisa ter uma pessoa toda hora: “Ah, é Nordeste!”. Então não fico enfiando na goela das pessoas: “Nordeste! Nordeste! Nordeste!”. 

Você está exposto na internet e já se meteu em algumas confusões. É uma sensação estranha, né? É horrível. Já aconteceu comigo umas vezes.

O que você aprendeu com as polêmicas nas quais se meteu? Eu acho que tudo vem para você aprender alguma coisa. Uma coisa que eu percebi é que você não é igual a vida inteira. Alguém já pode ter me atacado por alguma coisa e eu posso já ter defendido o meu lado de “eu faço piada, eu sou humorista, eu posso fazer piada com o que eu quiser” e seis meses depois pensei: “Caralho, acho que eu tô errado”. O ser humano é assim. Quantas vezes você já não brigou com a sua mãe? Fica sem falar com ela uns dias e depois pensa: “O que eu tô fazendo, meu Deus, estou sem falar com a minha mãe?”. Várias vezes alguém já me falou: “Cara, por que você fez aquela piada?”, e eu: “Foda-se, gostei, gosto de fazer e tal”, e depois de um mês eu falei: “Por que eu fiz aquela piada?”, entendeu? Acho que você muda, a vida inteira, e que você está sempre enxergando coisas novas.

A gente faz merda o tempo inteiro. O problema é que você tá fazendo merda pública. É. Para muita gente. Acho que quando eu fiz não sabia que um dia eu teria a audiência que tenho.

É muito cruel isso de internet porque a gente muda de opinião, a gente muda de comportamento, claro. Todo dia eu mudo de opinião sobre alguma coisa. Eu já tive pensamento sobre uma coisa tipo: “Eu nunca vou fazer isso”, e eu fiz. Ou: “Eu nunca admitiria que alguém fizesse isso!”, e aí a pessoa faz e eu não tô nem aí. Quando eu era evangélico, por exemplo, homossexualidade era inadmissível. E hoje eu não acho isso porque convivo com as pessoas, a cabeça da gente muda, e até minha concepção sobre Deus mudou. Então você acha que Deus ia julgar o homossexual que nem a gente julga? Que nem os idiotas julgam? Ah, meu irmão, o mundo já tá tão cheio de desgraça pra você julgar as pessoas.

“Você bota a cara para 25 milhões de pessoas que te seguem no YouTube e quer andar pela rua livremente? Quer ir no shopping tranquilo?”

E não é uma beleza você poder mudar de opinião? Com certeza! E eu também não acho que você tem que apagar seu passado, tudo é uma vivência, entendeu? Eu fiz uma paródia sobre homossexual uma vez que chamava “Eu virei gay”, que é daquela música “Eu sosseguei nãnãnã”, sabe? Então, e aí eu fiz “Eu virei gay nãnãnã” e muita gente caiu em cima na questão de virar gay porque ninguém vira gay, se nasce gay. Mas aí tem aquela questão de ser cruel o ataque das pessoas porque o que eu quis falar com isso não é que fulano que não era gay virou gay – mas é que onde eu moro, onde eu vivo, as pessoas viram gay não porque se transformam em gay, mas muita gente reprime o sentimento a vida inteira, entendeu? E um dia decide que não vai mais reprimir. Reprime porque o pai fala: “Eu não quero filho gay!”. Então esse é o “virar gay” sobre o qual falei. Eu já tive um amigo assim, não vou falar o nome aqui, mas é uma figura bem famosa da minha cidade, que estudava comigo, capoeirista, tá ligado? Ele foi dormir num dia e no outro dia acordou Ruby, que é o nome agora, tipo: pintou o cabelo, soltou, alisou, botou a roupa, maquiou. E quem que falava? Um capoeirista. Então, isso já aconteceu. PEI! Do nada! Do nada, virou!

E hoje você vê isso com naturalidade? Sim, claro! Acho que minha casa é mais frequentada por gay do que por hétero porque minha mulher tem muito amigo gay, né? Então quando eu fiz a paródia eu fiz sobre esse específico tipo de homossexual, que vira, que um dia não é e no outro – puf – começou a ser, entendeu?

Quando você fala “vira”, você quer dizer que a pessoa se assume? É. E é o tipo de coisa que não tem como você explicar. Para quem me pergunta sobre a paródia eu digo: “É o seguinte, eu tinha um amigo e conheço várias pessoas que são assim. Então foi exatamente sobre isso que eu fiz”. Mas muita gente não entendeu e teve um ataque massivo no Facebook – arrrrg, aquela coisa que eu não ligo muito porque já aprendi a não absorver mais essas coisas.

Mas no começo quando você era criticado incomodava? Nossa, demais! Me incomodava muito. Se tinha 20 mil comentários bons e um ruim eu lia o ruim e ficava o dia inteiro me perguntando o que que fiz pra essa pessoa não ter gostado. Hoje não tô nem aí.

Você ainda quer ser pai logo? Não. Não quero mais agora, agora. Meu sonho é ter um filho ou uma filha, ou um filho homossexual, tanto faz [risos]. Mas não depende só de mim, a Luisa tem a carreira dela também.

O que você trouxe dos valores da sua fase mais religiosa? Eu era de uma igreja bem legal, era Assembleia de Deus. O líder do grupo de jovens, o irmão Ênio, era um cara muito sábio, muito legal, de saber explicar as coisas da Bíblia para a gente de um jeito ok para um adolescente. Tem gente que quer enfiar a Bíblia do jeito que está lá, e você sabe que a interpretação é diferente, o adolescente tem cabeça dura. A minha igreja se unia para construir casa para o irmão que não tinha casa, sabe? Era uma galera bem legal. Então acho que eu trouxe isso daquela galera.

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Se você quisesse parar de trabalhar hoje, você poderia? Não, porque o dinheiro é traiçoeiro, né? Dinheiro ilude as pessoas. Você pensa que tem e aí não tem. E muitas pessoas dependem de mim, não só a minha família. Tenho uma empresa, tem funcionários, todo mundo tem suas coisas baseado no emprego que tem. Então, tipo, se eu paro de trabalhar hoje, como é que aquele menino vai pagar o aluguel? Como é que meu assessor que comprou um carro vai pagar o carro? E eu não sou um cara que junta muito dinheiro, não [risos].

Quantos funcionários você tem? Meus, tem dez. Na empresa tem uns 30, por aí. É o cara que faz o banner, é o cara que mexe com a divulgação, é o cara que faz as montagens, é o cara que organizou esta entrevista, então tem toda uma galera.

Não é um sonho ir para a TV? Já foi, mas hoje eu sou meu próprio patrão, então tô mais tranquilo. 

Você se sente livre? Com toda certeza. Minha mulher é uma mulher sensacional, minha família também, meu emprego é sensacional, o que eu faço é bom. Talvez eu seja preso por mim mesmo, né? Porque tudo que eu faço sou eu que dou o ok, até esta entrevista. Talvez eu seja escravo de mim mesmo [risos].

Você tem medo de o sucesso subir à cabeça? Dizem que pra você ver quem é mesmo a pessoa ela tem que ter poder e sucesso. Depende de quem tá vendo. Porque para quem tá de fora tudo é sucesso que subiu pra cabeça. Por exemplo, fui agora para São Raimundo Nonato e quando souberam o hotel em que eu estava encheu de gente, mas não encheu pouco, encheu que a polícia teve que ir tirar as pessoas de dentro do hotel e liberar a rua de tanta gente que tinha. Daí se eu desço e tem mil pessoas ali é impossível organizar uma fila para foto. E se organizam a fila quem quer ir para o final? Dá o quê? Briga, confusão, bate-boca. Então, o que eu faço? Não posso descer, pela segurança de todo mundo, pela minha. Mas na visão de quem tá ali eu não desci porque minha fama subiu à cabeça, porque sou estrela, artista. Então depende de quem tá vendo as coisas.

Não é sufocante saber que tem mil pessoas querendo você? É o chamado preço da fama, né? Eu sei bem onde entrei. Então não tenho essa: “Ai, meu Deus, por que eles fazem isso comigo?”. Você bota a cara para 25 milhões de pessoas que te seguem no YouTube e quer andar pela rua livremente? Quer ir no shopping tranquilo? Tem que ir à noite, que nem eu faço. Pego o filme das 23 horas, saio 1 da manhã do cinema e não tem mais ninguém. É assim que a gente tem que fazer, pelas sombras, se escondendo.

Aqui em São Paulo te reconhecem na rua se você sair agora, quase 11 da noite de uma quarta-feira? Quer dar uma volta no shopping para você ver o que acontece [risos]?

Esse é seu nome mesmo? Whindersson? É, meu nome de batismo mesmo.

E você tem um apelido? Não. É Whindersson mesmo.

Como você tem as ideias para os temas dos vídeos? É do cotidiano. Acho uma coisa legal, anoto e desenvolvo depois.

Você prefere que as pessoas digam que você é engraçado ou que as pessoas falem: “Nossa, aquilo que você falou me fez pensar”? Prefiro que a pessoa goste de mim. Quando a pessoa gosta de mim, o que eu falo fica mais interessante. É diferente você ouvir uma coisa de quem você não gosta e ouvir a mesma coisa da pessoa que você gosta.

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Tem algum tema com o qual você não faça piada? Política e religião. Política eu não gosto de forma alguma, também tem um pouco de trauma porque meu pai é dessas pessoas que trabalhavam na prefeitura e chegou o novo governo e tirou todo mundo e botou os parentes. Então já tenho um ódio antigo. Religião porque é uma coisa que fere muito as pessoas, mesmo que a gente não 
fale de maldade. Talvez um dia eu fale, mas acho que hoje 
não preciso, tenho muita coisa ainda pra falar.

Às vezes você acorda e pensa que tá vivendo uma vida que não é a sua, que você está num conto de fadas? Não, não. Eu acho tudo bem real, até porque sou eu que faço tudo e acaba com meu físico – eu morro de cansaço, de sono, de isso, de aquilo, então acho que é bem real pra mim.

E por que sem camisa? No começo eu fazia porque era lá no calor do Piauí. E quando comecei a botar camisa o tema do comentário era a camisa que eu estava vestindo. Fiz o vídeo todo para ficar falando de camisa? Então ficava sem camisa para a galera comentar o vídeo e não a camisa.

Créditos

Imagem principal: Luiz Maximiano

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